quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Capítulo 7: Palha

HORA de apresentar um novo personagem à nossa peça do outro mundo. Bom, para falar com exatidão, não é exatamente um novo personagem. Nós já o encontramos, na fila de registro de ocorrências da LEP. Sendo preso mais uma vez por delitos numerosos: Palha Escavator, o anão cleptomaníaco. Um indivíduo dúbio, até mesmo pelos padrões de Artemis Fowl. Como se este relato já não sofresse de uma overdose de indivíduos amorais.
Nascido em uma típica família de anões de caverna, Palha tinha decidido cedo que a mineração não era para ele e resolveu aplicar seus talentos em outra coisa, ou seja, escavar e invadir, geralmente entrando em propriedades do Povo da Lama.
Claro que isso significava abrir mão de sua magia. As residências eram sagradas. Se você quebrasse esta regra, tinha de estar preparado a aceitar as conseqüências.
Palha não se importava. De qualquer modo, não se interessava muito por magia. Nunca havia muita utilidade para ela nas minas.
As coisas tinham corrido bastante bem durante alguns séculos, e ele havia montado um lucrativo negócio vendendo objetos da superfície. Foi então que tentou vender a taça Jules Rimet a um policial da LEP disfarçado. A partir daí sua sorte tinha virado, e ele fora preso vinte vezes até agora.
Palha tinha um apetite prodigioso por abrir túneis. Para os que não são familiarizados com a mecânica dos túneis feitos por anões, devo tentar explicá-la do modo menos desagradável possível. Como alguns membros da família dos répteis, os anões do sexo masculino podem desencaixar o maxilar, o que lhes permite ingerir vários quilos de terra por segundo. Esse material é processado por um metabolismo super-eficiente que retém qualquer mineral útil e... é ejetado pela outra extremidade.
Digamos assim. Encantador.
No momento Palha estava preguiçosamente numa cela com paredes de pedra na Central da LEP. Pelo menos tentava passar uma imagem de anão tranqüilo, imperturbável. Na verdade estava nervosíssimo em suas botas de biqueira de aço.
A guerra de quadrilhas entre os goblins e os anões estava no auge, e algum brilhante elfo da LEP tinha achado conveniente colocá-lo numa cela com uma gangue de goblins pirados. Talvez fosse um desleixo. Mais provavelmente uma certa vingança por tentar bater a carteira do policial na fila do registro.
— E aí, anão — Disse com desprezo o líder dos goblins arruaceiros, um sujeito com cara de verruga e coberto de tatuagens. — Por que não foge abrindo o caminho a dentadas?
Palha bateu nas paredes.
— Rocha sólida.
O goblin gargalhou.
— E daí? Não pode ser mais dura do que a sua cabeça de anão.
Seus seguidores gargalharam. Palha também. Achava que talvez isso fosse sensato. Errou.
— Está rindo de mim, anão?
Palha parou de rir.
— Com você — corrigiu ele. — Estou rindo com você. A piada da cabeça foi bem engraçada.
O goblin avançou para ele até que seu nariz ranhento estava a um centímetro do de Palha.
— Está sendo con-des-cen-dente comigo, anão?
Palha engoliu em seco, calculando. Se desencaixasse o maxilar, provavelmente poderia engolir o líder antes que os outros reagissem. Mesmo assim os goblins eram um massacre para a digestão. Ossudos demais.
O goblin conjurou uma bola de fogo na mão.
— Eu fiz uma pergunta, baixinho.
Palha podia sentir cada glândula sudorípara do corpo passar para atividade máxima. Os anões não gostavam de fogo.
Nem gostavam de pensar em chamas. Diferentemente das outras raças do Povo das Fadas, os anões não tinham desejo de morar na superfície. Perto demais do sol. Irônico para alguém que negociava a Liberação das Posses do Povo da Lama.
— N... não precisa disso — gaguejou ele. — Eu só estava tentando ser amigável.
— Amigável — zombou o cara de verruga. — sua espécie não sabe o significado dessa palavra. São covardes que esfaqueiam pelas costas, todos vocês.
Palha assentiu diplomaticamente.
— Nós somos mesmo um pouco traiçoeiros.
— Um pouco traiçoeiros! Um pouco traiçoeiros! Meu irmão Catarro foi emboscado por uma multidão de anões disfarçados de montes de esterco! Ele ainda está fazendo tração!
Palha assentiu com simpatia.
— O velho ardil do monte de esterco. Uma desgraça. Um dos motivos para eu não me associar com a Irmandade.
Cara de verruga girou a bola de fogo entre os dedos.
— Há duas coisas sob este mundo que eu realmente desprezo.
Palha tinha a sensação de que ia descobrir quais eram.
— Uma é um anão fedorento.
Nenhuma surpresa.
— E a outra é um traidor de sua própria espécie. E pelo que ouvi dizer, você está nas duas categorias.
Palha deu um sorriso débil.
— Sorte minha.
— A sorte não tem nada a ver com isso. A fortuna o colocou nas minhas mãos.
Num outro dia Palha poderia ter observado que sorte e fortuna eram basicamente a mesma coisa. Não hoje.
— Gosta de fogo, anão?
Palha balançou a cabeça.
Cara de verruga riu.
— Olha que pena! Porque a qualquer segundo vou enfiar essa bola de fogo pela sua garganta abaixo.
O anão engoliu em seco. Isso não era bem típico da Irmandade dos Anões? O que os anões odeiam? Fogo. Quais são as únicas criaturas com a capacidade de conjurar bolas de fogo? Os goblins. E com quem os anões foram arranjar briga? Com os próprios descerebrados.
Palha recuou até a parede.
— Cuidado aí. Todos nós podemos nos dar mal.
— Nós não — Riu o cara de verruga, aspirando a bola de fogo com as duas narinas alongadas. — somos completamente à prova de fogo.
Palha estava perfeitamente cônscio do que aconteceria em seguida. Tinha visto muitas vezes nos becos. Um grupo de goblins encurralava um irmão anão perdido, agarrava-o e em seguida o líder lhe dava uma carga dupla direto na cara.
As narinas do cara de verruga estremeceram enquanto ele se preparava para lançar a bola de fogo inalada. Palha se encolheu. Havia apenas uma chance. Os goblins tinham cometido um erro básico. Tinham se esquecido de prender seus braços.
O goblin inspirou pela boca, depois fechou-a. Mais pressão de exalação para o jato de fogo. Ele inclinou a cabeça para trás, apontando o nariz para o anão, e mandou ver. Rápido como um raio, Palha enfiou os polegares nas narinas do cara de verruga. Nojento, sim, mas definitivamente melhor do que se transformar em churrasco de anão.
A bola de fogo não tinha aonde ir. Ricocheteou nos polegares de Palha e voltou para a cabeça do goblin. Os dutos lacrimais proporcionaram um caminho de menor resistência, de modo que as chamas comprimiram os canais pressurizados, irrompendo debaixo dos olhos do goblin. Um mar de chamas se espalhou pelo teto da cela.
Palha recolheu os dedos e, depois de limpá-los rapidamente, enfiou na boca, permitindo que o bálsamo natural de sua saliva começasse o processo de cura.
Claro que, se ele ainda tivesse sua magia, poderia curar os dedos chamuscados apenas com o desejo.
Mas esse era o preço que pagava por uma vida de crimes.
O cara de verruga não parecia estar bem. Cada orifício de sua cabeça vazava fumaça. Os goblins podiam ser à prova de chamas, mas a bola de fogo errante tinha chamuscado bem os seus tubos. Ele balançou como uma haste de alga, depois caiu de cara no chão de concreto. Alguma coisa se esmagou. Provavelmente um grande nariz de goblin.
Os outros membros da gangue não reagiram favoravelmente.
— Olhem o que ele fez com o chefe!
— Aquele baixinho fedorento.
— Vamos fritar o cara.
Palha recuou ainda mais. Esperava que o resto dos goblins perdesse a coragem assim que o líder estivesse fora de combate.
Aparentemente não. Mesmo não sendo definitivamente de sua natureza, Palha não tinha opção além de atacar.
Desencaixou o maxilar e pulou para a frente, cravando os dentes em volta da cabeça do goblin mais próximo.
— Dodo bundo, bra drás! — gritou através da obstrução na boca. — Bra drás ou seu abigo vai se dar bal!
Os outros se imobilizaram, não sabendo o que fazer em seguida. Claro que todos já tinham visto o que os molares dos anões podiam fazer com uma cabeça de goblin. Não era uma visão bonita.
Cada um fez surgir uma bola de fogo na mão.
— Eu dô auisando!
— Você não pode pegar todos nós, baixinho.
Palha resistiu ao impulso de morder. É a ânsia mais forte dos anões, uma memória genética nascida em milênios abrindo túneis. O fato de o goblin estar se balançando todo gosmento não ajudava. Suas opções iam acabando. A gangue avançava e ele estava impotente enquanto tivesse a boca cheia. Era hora de fazer uma boquinha. Desculpe o trocadilho.
De repente a porta da cela se abriu com um estrondo e o que parecia todo um esquadrão de policiais da LEP inundou o espaço confinado. Palha sentiu o aço frio do cano de uma arma em sua têmpora.
— Cuspa O prisioneiro — ordenou uma voz.
Palha ficou deliciado em obedecer. Um goblin totalmente gosmento caiu no chão, com ânsias de vômito.
— Vocês, goblins, apaguem isso.
Uma a uma as bolas de fogo foram apagadas.
— Não é minha culpa — gemeu Palha, apontando para o cara de verruga, ainda se sacudindo em espasmos. — Ele resolveu estourar.
O policial guardou a arma, pegando um par de algemas.
— Não me importa o que vocês fazem entre si — Falou, girando Palha e prendendo as algemas nos pulsos dele. — se fosse por mim, eu colocava todos vocês numa sala grande e voltava uma semana depois para limpar. Mas o comandante Raiz quer ver você na superfície o mais rápido possível.
— O mais rápido possível?
— Agora, ontem!
Palha conhecia Raiz. O comandante era responsável por várias de suas passagens pelos hotéis do governo. Se Julius queria vê-lo, provavelmente não era para tomar uns drinques e assistir a um filme.
— Agora? Mas agora é de dia. Eu vou queimar.
O policial da LEP gargalhou.
— Não é dia aonde você está indo, meu chapa. Aonde você está indo não é nada.
Raiz estava esperando o anão dentro do portal do campo temporal. O portal era outra das invenções de Potrus. Os seres do Povo das Fadas podiam ter permissão para entrar e sair sem afetar o fluxo alterado dentro do campo. Isso efetivamente significava que, mesmo tendo demorado quase seis horas para levar Palha à superfície, ele foi injetado no campo apenas instantes depois de Raiz mandar chamá-lo.
Era a primeira vez de Palha num campo. Ele ficou olhando a vida seguir num ritmo exagerado fora da coroa tremeluzente.
Carros passavam a velocidades impossíveis, e nuvens corriam pelo céu como se impulsionadas por vendavais de força sete.
— Palha, seu pequeno bandido — Rugiu Raiz. — Pode tirar esse uniforme agora. O campo tem filtro ultravioleta, pelo menos foi o que me disseram.
O anão tinha recebido um uniforme de isolamento na E1.
Mesmo tendo pele grossa, os anões eram extremamente sensíveis à luz do sol e se queimavam em menos de três minutos.
Palha tirou a roupa que isolava a luz solar.
— Prazer em vê-lo, Julius.
— Para você sou comandante Raiz.
— Agora já é comandante. Ouvi dizer. Foi um erro da burocracia, não foi?
Os dentes de Raiz transformaram seu charuto em polpa.
— Não tenho tempo para esse desrespeito, prisioneiro. E o único motivo para minha bota não estar se chocando em seu traseiro agora é porque tenho um serviço para você.
Palha franziu atesta.
— Prisioneiro? Eu tenho nome, você sabe, Julius.
Raiz se agachou ao nível do anão.
Não sei em que mundo de fantasia você vive, prisioneiro, mas no mundo real você é um criminoso, e meu serviço é tornar sua vida o mais desagradável possível. E se está esperando ser bem tratado só porque testemunhei contra você cerca de quinze vezes, esqueça!
Palha esfregou os pulsos no ponto em que as algemas tinham deixado inchaços vermelhos.
— Ótimo, comandante. Não precisa perder as estribeiras.
Eu não sou assassino, o senhor sabe, só um trambiqueiro.
— Pelo que ouvi dizer, você quase conseguiu a transformação, lá embaixo na cela.
— Não foi minha culpa. Eles me atacaram.
Raiz enfiou um charuto novo na boca.
— Ótimo, tanto faz. Só me siga; e não roube nada.
— Sim, senhor comandante — Disse Palha inocentemente. Não precisava roubar mais nada. Já tinha passado a mão no cartão de acesso de campo de Raiz quando o comandante cometeu o erro de chegar perto dele.
Atravessaram o perímetro da equipe de resgate, indo até a avenida.
— Está vendo aquela mansão?
— Que mansão?
Raiz se virou para ele, furioso.
— Não tenho tempo para isso, prisioneiro. Quase metade da minha parada temporal já se passou. Mais algumas horas e uma das minhas melhores policiais sofrerá uma enxaguada azul.
Palha deu de ombros.
— Não é da minha conta. Eu sou apenas um criminoso, lembre-se. E, a propósito, eu sei o que você quer que eu faça, e a resposta é não.
— Eu ainda não pedi.
— É óbvio. Eu sou um invasor de casas. Aquilo é uma casa. Você não pode entrar porque vai perder sua magia, mas minha magia já se perdeu. É só somar dois e dois.
Raiz cuspiu o charuto.
— Você não tem orgulho cívico? Todo o nosso modo de vida está correndo perigo.
— Não o meu. Prisão de fadas, prisão humana. Para mim é tudo o mesmo.
O comandante pensou nisso.
— Certo, criatura nojenta. Retiro quinze anos de sua sentença.
— Quero anistia.
— Nem sonhando, Palha.
— É pegar ou largar.
— Setenta e cinco anos em segurança mínima. É pegar ou largar, você.
Palha fingiu pensar. Era tudo uma questão acadêmica, já que ele pretendia escapar de qualquer modo.
— Cela individual?
— Sim, sim. Cela individual. Então, vai fazer?
— Muito bem, Julius. Só porque é você.
Potrus estava procurando uma câmera de íris que combinasse.
— Castanho-avermelhado, eu acho. Ou talvez castanho-alaranjado. Tem realmente olhos espantosos, senhor Palha.
— Obrigado, Potrus. Minha mãe sempre disse que eles eram minha parte mais bonita.
Raiz estava andando de um lado para o outro no veículo.
— Vocês dois sabem que temos um prazo, não sabem? Não precisa combinar a cor. Só lhe dê uma câmera.
Potrus usou uma pinça e pegou uma lente dentro do líquido.
— Não é apenas vaidade, comandante. Quanto mais próxima a cor, menos interferência do olho.
— Tanto faz, tanto faz, só ande logo.
Potrus segurou o queixo de Palha, mantendo-o parado.
— Pronto. Estaremos com você o tempo todo.
Potrus enfiou um cilindro minúsculo nos densos tufos de cabelos que cresciam na orelha de Palha.
— Agora também podemos captar o som. Para o caso de você precisar pedir ajuda.
O anão deu um sorriso torto.
— Desculpe eu não estar inchando de confiança. Descobri que sempre agi melhor sozinho.
— Se é que você chama dezessete condenações de agir melhor — Riu Raiz.
— Ah, agora temos tempo para piadas, não é?
Raiz o agarrou pelo ombro.
— Você está certo. Não temos. Vamos.
Ele arrastou Palha, passando por um gramado, até um agrupamento de cerejeiras.
— Quero que você faça um túnel até lá e descubra como esse tal de Fowl sabe tanto sobre nós. Provavelmente usou algum instrumento de vigilância. O que quer que seja, destrua.
Encontre, se possível, a capitã Short e veja o que pode fazer por ela. Se estiver morta, pelo menos isso livrará o caminho para uma biobomba.
Palha forçou a vista pela paisagem.
— Não gosto disso.
— De quê?
— Do jeito do terreno. Sinto cheiro de calcário. Alicerce em rocha sólida. Talvez não haja como entrar.
Potrus veio trotando.
— Eu fiz uma varredura. A estrutura original é totalmente apoiada na pedra, mas algumas das ampliações posteriores ficam sobre argila. A adega na ala sul parece ter piso de madeira. Não deve ser problema para alguém com uma boca como a sua.
Palha decidiu tomar essa declaração como um fato, e não como insulto. Abriu a aba do traseiro das calças de abrir túneis.
— Certo. Fiquem para trás.
Raiz e os Policiais da LEP que estavam perto correram para buscar cobertura, mas Potrus, que nunca tinha visto um anão abrindo um túnel, decidiu ficar e dar uma espiada.
— Boa sorte, Palha.
O anão destravou o maxilar.
— Obrigado — Murmurou, curvando-se para o lanche.
O centauro olhou em volta.
— Onde foi que todo mundo...
Não terminou a frase, porque um bolo de terra recém-engolida e ainda mais recentemente ejetada bateu em seu rosto. Quando tinha limpado os olhos, Palha havia desaparecido num buraco que vibrava, e houve o som de gargalhadas sacudindo as cerejeiras.
Palha seguiu um veio de argila através de uma dobra vulcânica na rocha. Boa consistência, não muitas pedras soltas. Muitos insetos, também. Vital para dentes fortes e saudáveis, a característica mais importante de um anão — a primeira coisa que uma possível companheira avaliava. Palha seguia baixo, perto do calcário, a barriga quase raspando a pedra. Quanto mais fundo o túnel, menos chance de a superfície ceder. Hoje em dia todo cuidado era pouco, com sensores de movimento e minas terrestres. O Povo da Lama chegava a extremos extraordinários para proteger seus bens. Com um bom motivo, por sinal.
Sentiu um centro de vibração à esquerda. Coelhos. O anão fixou a localização em sua bússola interna. É sempre útil saber onde ficavam os animais do local. Ele rodeou a coelheira, seguindo os alicerces da mansão numa longa curva pelo noroeste.
As adegas eram fáceis de localizar. No passar dos séculos o resíduo escorria pelo chão, enchendo a terra embaixo com a personalidade do vinho. Esta era sombria, não havia nada insolente aqui. Um toque de fruta, mas não o bastante para tornar mais leve o sabor. Definitivamente um vinho de ocasião na prateleira de baixo. Palha arrotou. Era uma argila boa.
O anão apontou para o céu suas mandíbulas afiadas, cortando as tábuas do piso.
Passou pelo buraco serrilhado, sacudindo das calças o resto de lama reciclada.
Estava num cômodo abençoadamente escuro, perfeito para a visão dos anões. Seu sonar o havia guiado para um trecho descoberto do piso. Um metro à esquerda e ele teria emergido num gigantesco barril de vinho tinto italiano.
Travou de novo o maxilar e foi até a parede. Encostou uma orelha em forma de concha nos tijolos vermelhos. Durante um momento ficou absolutamente imóvel, absorvendo as vibrações da casa. Um bocado de zumbidos de baixa freqüência.
Havia um gerador em algum lugar, e muita energia correndo nos fios.
Passos também. Lá em cima. Talvez no terceiro andar. E perto. Um som de batida. Metal contra concreto. De novo.

Alguém estava construindo alguma coisa. Ou quebrando alguma coisa.
Algo passou perto do seu pé. Palha o esmagou instintivamente. Era uma aranha. Só uma aranha.
— Desculpe, amiguinha — Disse ele para a gosma cinzenta. — Eu estou meio nervoso.
A escada era de madeira, claro. Com mais de um século, pelo cheiro. Degraus daqueles estalavam assim que a gente olhava. Melhor do que sensores de pressão para denunciar intrusos.
Palha subiu perto das bordas, um pé na frente do outro. Perto da parede era onde a madeira tinha mais apoio, e tinha menos probabilidade de estalar.
Não era tão simples como parecia. Os pés dos anões são projetados para funcionar como pás, e não para as complexidades delicadas do balé ou de se equilibrar em degraus de madeira. Mesmo assim Palha chegou à porta sem incidentes. Tinha provocado dois estalos baixinhos, mas nada que fosse detectável por ouvidos ou instrumentos humanos.
A porta estava trancada, naturalmente, mas era o mesmo que não estar, pelo desafio que significou para um anão cleptomaníaco.
Palha enfiou a mão na barba e puxou um pêlo grosso. O pêlo dos anões é radicalmente diferente dos humanos. A barba e os cabelos de Palha eram na verdade uma trama de antenas que lhe permitia se orientar e evitar o perigo no subsolo. Assim que era removido do poro, o cabelo endurecia rapidamente numa rigidez cadavérica. Palha torceu a ponta segundos antes que ele ficasse completamente rígido. Uma gazua perfeita.
Bastou uma sacudidela rápida e a fechadura cedeu. Apenas duas voltas. Segurança péssima. Típica de humanos, eles nunca esperavam um ataque de baixo. Palha saiu num corredor com piso de parquê. Todo o lugar cheirava a dinheiro. Ele poderia fazer uma fortuna, se ao menos tivesse tempo.
Havia câmeras logo abaixo da viga mestra. Coisa feita com bom gosto, aninhando-se nas sombras naturais. Mas, mesmo assim, vigilante. Palha ficou parado um momento, calculando o ponto cego do sistema. Três câmeras no corredor.
Varredura de noventa segundos. Não havia como passar.
— Você poderia pedir ajuda, não é? — Disse uma voz em seu ouvido.
— Potrus? — Palha apontou o olho com o equipamento do centauro para a câmera mais próxima. — Você pode fazer alguma coisa com relação a elas? — sussurrou.
O anão ouviu o som de um teclado sendo manipulado, e de repente seu olho direito fez um zoom, como se fosse a lente de uma câmera.
— Legal — sussurrou Palha. — Você precisa me dar uma dessas.
A voz de Raiz veio áspera pelo alto-falante minúsculo.
— Nem pense, prisioneiro. É material do governo. De qualquer modo, o que você faria com uma dessas na prisão? Ver em close o outro lado de sua cela?
— Você é uma doçura, Julius. Qual é o problema? Está com ciúme porque eu estou tendo sucesso onde você falhou?
O palavrão dito por Raiz foi abafado pela voz de Potrus.
— Certo, entendi. Uma rede de vídeo simples. Nem mesmo é digital. Vou usar nossas antenas para transmitir os últimos dez segundos em loop para cada uma das câmeras. Isso deve lhe dar alguns minutos.
Palha se remexeu, desconfortável.
— Quanto tempo isso vai demorar? Eu estou meio exposto aqui, você sabe.
— Já começou. Vá em frente.
— Tem certeza?
— Claro que tenho certeza. É eletrônica elementar. Eu mexo com os equipamentos de vigilância dos humanos desde o jardim-de-infância. Você só precisa confiar em mim.
Eu preferiria confiar na hipótese de os humanos não caçarem uma espécie em extinção a confiar num consultor da LEP, pensou Palha. Mas disse em voz alta:
— Certo. Estou indo. Câmbio e desligo.
Esgueirou-se para o corredor. Até suas mãos estavam se esgueirando, remando no ar como se ele pudesse ficar mais leve.
O que quer que aquele centauro tivesse feito, estava funcionando, porque não havia Povo da Lama descendo a escada correndo, acenando com primitivas armas de pólvora.
Escada. Ah, escada. Palha tinha uma queda por escadas. Elas eram como poços pré-escavação. Ele descobria que inevitavelmente os melhores roubos ficavam no topo delas. E que escada! Carvalho escuro, com os relevos complexos geralmente associados ao século XVIII ou aos podres de ricos. Palha passou o dedo num balaústre ornamentado. Neste caso, provavelmente as duas coisas.
Mesmo assim, não havia tempo a perder. As escadas não costumam ficar desertas por muito tempo, especialmente durante um cerco. Quem poderia dizer quantos guerreiros sedentos de sangue esperavam atrás de cada porta, ansiosos pela cabeça de alguma criatura das fadas para acrescentar à parede de troféus empalhados?
Palha subiu cuidadosamente, sem aceitar nada como ponto pacífico. Até mesmo o carvalho sólido estalava. Ficou perto das bordas, evitando a cobertura de tapete. Sabia, pela condenação número oito, como era fácil esconder um sensor de pressão debaixo de um tapete antigo e grosso.
Chegou ao patamar com a cabeça ainda presa aos ombros.
Mas havia outro problema sendo literalmente fermentado. A digestão dos anões, devido ao ritmo acelerado, pode ser bastante explosiva. A terra fofa da propriedade Fowl era muito aerada, e muito ar tinha entrado nas entranhas de Palha junto com o solo e os minerais. Agora o ar queria sair.
A etiqueta dos anões ditava que era possível soltar gás enquanto ainda se estava no túnel, mas Palha não tinha tempo para bons modos. Agora se arrependia por não ter se demorado um momento para se livrar do gás enquanto estava no porão. O problema com o gás dos anões era que ele não podia subir, só descer. Imagine — se quiser — os efeitos catastróficos de arrotar enquanto digere um bocado de argila. Falha total nos sistemas. Não era uma visão bonita. Assim a anatomia dos anões garantia que todo o gás saísse por baixo, na verdade ajudando na expulsão da terra não desejada. Claro, há um modo mais simples de dizer tudo isso, mas essa versão só poderia ser lida num livro para adultos.
Palha abraçou a barriga. Era melhor sair ao ar livre. Um estouro num patamar daqueles poderia arrancar as janelas. Foi arrastando os pés pelo corredor, passando pela primeira porta que achou.
Mais câmeras. Na verdade, um bocado delas. Palha estudou a varredura das lentes. Quatro estavam vigiando o espaço geral, mas outras três eram fixas.
— Potrus? Está aí? — sussurrou o anão.
— Não! — Típica resposta sarcástica. — Tenho coisas muito melhores a fazer do que me preocupar com o colapso da civilização que conhecemos.
— Sim, obrigado. Não deixe que o perigo por que estou passando estrague sua diversão.
— Vou tentar não deixar.
— Tenho um desafio para você.
Potrus se interessou instantaneamente.
— Verdade? Diga.
Palha apontou o olhar para as câmeras meio escondidas na elaborada viga mestra.
— Preciso saber para onde aquelas câmeras estão apontando. Exatamente.
Potrus gargalhou.
— Isso não é um desafio. Aqueles antigos sistemas de vídeo emitem fracos feixes de íons. Invisíveis ao olho nu, claro, mas não com sua câmera de íris.
O equipamento no olho de Palha tremulou e soltou fagulhas.
— Aaai!
— Desculpe. Carga pequena.
— Você poderia ter avisado.
— Vou lhe dar um beijão mais tarde, neném. Eu achava que os anões eram fortes.
— Nós somos. Vou lhe mostrar como somos fortes quando eu voltar.
A voz de Raiz interrompeu a discussão.
— Você não vai mostrar nada a ninguém, prisioneiro, a não ser, talvez, onde fica o banheiro de sua cela. E agora, o que está vendo?
Palha olhou de novo para a sala através de seu olho sensível a íons. Cada câmera estava emitindo um feixe fraco, como os últimos raios de sol da tarde. Os raios se juntavam num retrato de Artemis Fowl Pai.
— Não atrás da foto. Ah, por favor.
Palha encostou o ouvido no vidro da pintura. Nada elétrico. Então não tinha alarme. Só para se certificar, cheirou a borda da moldura. Não tinha plástico ou cobre.
Madeira, aço e vidro. Um pouco de chumbo na tinta. Enfiou uma unha atrás da moldura e puxou. O quadro se deslocou facilmente, pendurado de lado. E atrás dele, um cofre.
— É um cofre — Disse Potrus.
— Eu sei, seu idiota. Estou tentando me concentrar! Se quer ajuda, me dê a combinação.
— Sem problema. Ah, a propósito, você vai sentir outro choque pequeno. Talvez o nenezão queira chupar o dedo para se consolar.
— Potrus. Eu vou... Aaaai!
— Pronto. O raio X está ligado.
Palha olhou para o cofre. Era incrível. Ele podia ver o mecanismo. Tambores e travas se destacavam num relevo cheio de sombras. Soprou os dedos peludos e girou o botão. Em segundos o cofre estava aberto.
— Ah — Falou desapontado.
— O que é?
— Nada, só dinheiro humano. Nada de valor.
— Deixe aí — ordenou Raiz. — Tente Outro cômodo. Ande logo.
Palha assentiu. Outro cômodo. Antes que seu tempo se acabasse. Mas alguma coisa o estava incomodando. Se esse cara era tão inteligente, por que pôs o cofre atrás de uma pintura? Era clichê demais. Totalmente contra a fórmula. Não. Alguma coisa não estava certa aqui. Eles estavam sendo enganados de algum modo.
Fechou o cofre, pondo o retrato de novo na posição. Ele girou macio, sem peso nas dobradiças. Sem peso. Girou a pintura Outra vez. E de volta.
— Prisioneiro. O que está fazendo?
— Cale a boca, Julius! Quero dizer, fique quieto um momento, comandante.
Palha forçou a vista para a moldura do quadro. Um pouco mais grossa do que o normal. Bem mais grossa. Mesmo levando em conta a caixa da moldura. Cinco centímetros. Passou uma unha pelo papelão grosso atrás e o retirou, revelando...
— Outro cofre.
Menor. Feito sob encomenda, obviamente.
— Potrus. Eu não consigo ver através disso.
— Forrado de chumbo. Você está sozinho, ladrão. Faça o que sabe fazer melhor.
— É típico — Murmurou Palha, encostando o ouvido no aço frio.
Girou o botão, tentando. Bela máquina. Os estalos eram emudecidos pelo chumbo, ele teria de se concentrar. A parte boa era que uma coisa tão fina poderia ter no máximo três tambores.
Palha prendeu o fôlego e girou o botão, um ponto de cada vez. Para o ouvido normal, mesmo com amplificação, os estalos pareceriam uniformes. Mas para Palha cada tambor tinha uma assinatura distinta, e quando uma lingüeta se travava o som era tão alto que quase ensurdecia.
— Um — sussurrou ele.
— Depressa, prisioneiro. Seu tempo está acabando.
— Você me interrompeu para dizer isso? Agora sei como chegou a comandante, Julius.
— Prisioneiro, eu vou...
Mas não adiantou. Palha havia tirado o fone de ouvido, enfiando-o no bolso. Agora podia dedicar toda a atenção à tarefa imediata.
— Dois.
Houve um barulho do lado de fora. No corredor. Vinha alguém. Mais ou menos do tamanho de um elefante, parecia.
Sem dúvida era o homem montanha que tinha transformado o esquadrão do Resgate em picadinho.
Palha piscou para afastar uma gota de suor do olho. Concentre-se. Concentre-se. As lingüetas das catracas estalavam.
Milímetro a milímetro. Nada se travava. O chão parecia balançar suavemente, mas ele podia estar imaginando.
Clic, clic. Anda. Anda. Seus dedos estavam escorregadios de suor, o botão do cofre escorregando entre eles. Palha os enxugou no gibão.
— Agora, neném, anda. Fale comigo.
Clic. Tunc.
— Isso!
Palha girou a maçaneta. Nada. Ainda havia uma obstrução.
Passou a ponta do dedo pela placa de metal. Ali. Uma pequena irregularidade. Um microburaco de fechadura. Pequeno demais para uma gazua comum. Hora de um truquezinho que ele tinha aprendido na prisão. Mas sua barriga estava borbulhando como um cozido no fogo, e os passos vinham se aproximando.
Escolhendo um grosso pêlo do queixo, Palha o enfiou com cuidado no buraco minúsculo. Quando a ponta reapareceu, ele arrancou a raiz do queixo. O cabelo se enrijeceu imediatamente, mantendo a forma do interior da fechadura.
Palha prendeu o fôlego e girou o pêlo. Macia como uma mentira de goblin, a fechadura se abriu. Lindo. Em momentos assim quase valia a pena todo o tempo de cadeia.
O anão cleptomaníaco abriu a portinhola. Linda obra. Quase digna da forja de uma fada. Leve como um biscoito. Dentro havia uma pequena câmara. E na câmara havia...
— Ah, meus deuses — sussurrou Palha.
As coisas chegaram a um ápice rapidamente. O choque que Palha tinha experimentado se comunicou às suas entranhas, e elas decidiram que o excesso de ar tinha de sair. Palha conhecia os sintomas. Pernas bambas, cãibras borbulhantes, traseiro balançando. Nos segundos que lhe restavam, pegou o objeto no cofre e, curvando-se, agarrou os joelhos em busca de apoio.
O vento preso havia se juntado até a intensidade de um miniciclone e não podia ser contido. E saiu. De modo bastante abrasivo. Abrindo numa explosão a aba do traseiro da calça de Palha e golpeando o cavalheiro bastante grande que estivera se esgueirando atrás dele.
Artemis estava grudado às telas. Esta era a hora em que tradicionalmente as coisas davam errado para os seqüestradores: o terceiro quarto das operações. Tendo obtido sucesso até agora, os raptores tendiam a relaxar, acender alguns cigarros e começar a bater papo com os reféns. Quando davam por si estavam de cara no chão, com uma dúzia de armas apontadas para a nuca. Não Artemis Fowl. Ele não cometia erros.
Sem dúvida o Povo das Fadas estava revendo as fitas da primeira sessão de negociação, procurando alguma coisa que lhes permitisse uma entrada. Bom, estava ali o tempo todo. Eles só precisavam procurar. Enterrado suficientemente fundo para que parecesse acidental.
Era possível que o comandante Raiz tentasse outro ardil. Ele era um sujeito voluntarioso, sem dúvida. Um sujeito que não aceitaria facilmente ser suplantado por uma criança. Ele ficaria vigiando.
O mero pensamento em Raiz causou arrepios em Artemis.
Decidiu verificar de novo. Inspecionou os monitores.
Juliet continuava na cozinha, esfregando a pia. Lavando os legumes.
A capitã Short estava em sua cama. Silenciosa como uma sepultura. Sem bater com o móvel no chão. Talvez ele estivesse errado com relação a ela. Talvez não houvesse plano. Butler estava em seu posto do lado de fora da cela de Holly.
Estranho.
Agora ele deveria estar fazendo a ronda. Artemis pegou o rádio de comunicação.
— Butler?
— A postos, base. Captando.
— Você não deveria estar fazendo a ronda?
Houve uma pausa.
— Estou, Artemis. Patrulhando o patamar principal. Chegando à sala do cofre. Estou acenando para você agora.
Artemis olhou para as câmeras do patamar. Deserto. De todos os ângulos. Definitivamente não havia nenhum empregado acenando. Examinou os monitores, contando com o fôlego preso... Ali! A cada dez segundos a imagem dava um pequeno salto. Em cada tela.
— Uma imagem em loop! — gritou, pulando da cadeira.— Eles estão transmitindo um loop!
Pelo alto- Falante ele podia ouvir o passo de Butler se acelerando até correr.
— A sala do cofre!
O estômago de Artemis começou a provocar um enjôo infernal. Enganado! Ele, Artemis Fowl, tinha sido enganado, mesmo sabendo que a coisa viria. Inconcebível. A arrogância tinha causado isso. Sua arrogância cega, e agora todo o plano poderia desmoronar em volta dele.
Mudou o rádio para a faixa de Juliet.
— Juliet?
— Captando.
— Onde você está agora?
— Na cozinha. Estragando minhas unhas nesse ralador.
— Deixe, Juliet. Verifique a prisioneira.
— Mas, Artemis, os palitos de cenoura vão secar!
— Deixe, Juliet! — gritou Artemis. — Largue tudo e verifique a prisioneira!
Juliet largou tudo obedientemente, inclusive o rádio. Agora ficaria mal-humorada durante dias. Não importa. Não havia tempo para se preocupar com o ego ferido de uma adolescente.
Ele tinha coisas mais importantes.
Artemis apertou o interruptor principal do sistema de vigilância informatizada. Sua única chance de cortar o loop era reinicializar o sistema do zero. Depois de vários momentos agonizantes de chuvisco na tela, a imagem nos monitores saltou e se estabilizou. As coisas não estavam como pareciam há apenas alguns segundos.
Havia uma coisa grotesca na sala do cofre. Aparentemente aquilo havia descoberto o compartimento secreto. Não só isso, mas conseguira abrir a tranca silenciosa. Espantoso. Mas Butler estava de olho. Estava chegando por trás da criatura, e a qualquer momento o intruso iria estar de nariz grudado no tapete.
Artemis voltou a atenção para Holly. O elfo estava de novo batendo com a cama. Batendo repetidamente com o pé da cama no chão, como se pudesse...
Então Artemis percebeu, como um tiro de um canhão de água. Se de algum modo Holly tivesse trazido a semente de carvalho, um centímetro quadrado de chão bastaria. Se Juliet deixasse aquela porta aberta...
— Juliet! — gritou ele pelo rádio. — Juliet! Não entre aí!
Mas era inútil. O rádio da garota ficou zumbindo no chão da cozinha. Artemis só podia olhar, desamparado, enquanto a irmã de Butler ia para a porta da cela, murmurando a respeito de cenouras.
— A sala do cofre! — Exclamou Butler, apressando o passo. Seu instinto era entrar com tudo, mas o treinamento assumiu o controle. O equipamento daquelas criaturas era definitivamente superior ao dele, e quem sabia quantos canos de armas estariam apontados do outro lado daquela porta agora mesmo. Não, a cautela era sem dúvida a coisa mais valiosa naquela situação específica.
Encostou a palma da mão na madeira, sentindo a vibração.
Nada. Nenhuma máquina ligada, então. Butler segurou a maçaneta, girando suavemente. Com a outra mão sacou uma automática Sig Sauer do coldre de ombro. Não havia tempo para pegar o fuzil de dardos, teria de atirar para matar.
A porta se abriu sem ruído, como Butler sabia que ia acontecer, já que ele próprio lubrificava cada dobradiça da casa.
Diante dele estava... bem, para ser honesto, Butler não tinha muita certeza do que era. Se não soubesse que não era isso, isto é, ao primeiro olhar, ele poderia ter jurado que a coisa lembrava nada mais do que um enorme e trêmulo...
E então a coisa explodiu, lançando uma quantidade espantosa de dejetos de túnel diretamente contra o infeliz empregado! Foi como ser golpeado por uma centena de marretas simultaneamente.
Butler foi levantado do chão e jogado contra a parede.
E enquanto estava ali, com a consciência se esvaindo, ele rezou para que o patrão Artemis não tivesse conseguido capturar aquele momento em vídeo.
Holly estava enfraquecendo. A cama pesava quase duas vezes mais do que ela, e os relevos estavam provocando cortes cruéis nas palmas de suas mãos. Mas não podia parar agora. Não quando estava tão perto.
Bateu de novo com o pé de metal no concreto. Uma nuvem de pó cinzento espiralou em volta de suas pernas. A qualquer segundo, agora, Fowl estragaria o seu plano e ela teria de novo aquele tratamento hipodérmico. Mas até então...
Trincou os dentes para controlar a dor, levantando o pé da cama até a altura do joelho. Então viu. Uma fresta de marrom em meio ao cinza. Seria verdade?
Esquecendo a dor, a capitã Short largou a cama, ajoelhando-se rapidamente. Havia mesmo um pequeno trecho de terra surgindo entre o cimento. Holly tirou a semente da bota, apertando-a com força entre os dedos ensangüentados.
— Devolvo-te à terra — sussurrou, enfiando o punho no espaço minúsculo. — E reivindico o dom que é meu por direito.
Nada aconteceu durante um segundo. Talvez dois. Então Holly sentiu a magia subir por seu braço como o choque de uma cerca eletrificada. O choque a mandou girando pelo quarto. Por um instante o mundo redemoinhou num desconcertante caleidoscópio de cores, mas quando se assentou, Holly não era mais o elfo derrotado de antes.
— Certo, mestre Fowl. — Ela riu, olhando as fagulhas azuis de magia das fadas lacrando seus ferimentos. — Vejamos o que tenho de fazer para conseguir sua permissão de sair deste lugar.
— Largue tudo — Murmurou Juliet, mal-humorada. — Largue tudo e vá verificar a prisioneira. — Em seguida jogou as madeixas louras habilmente por cima de um dos ombros. — Ele deve achar que eu sou criada dele, ou alguma coisa assim.
Bateu na porta da cela com a palma da mão.
— Estou entrando, fada garota, se estiver fazendo alguma coisa embaraçosa, pare por favor.
Juliet apertou os números na fechadura eletrônica.
— E não, não estou com os seus legumes, nem sua fruta lavada. Mas não é culpa minha, Artemis in-sis-tiu em que eu descesse imediatamente...
Juliet parou de falar, porque não havia ninguém escutando. Ela estava discursando para um cômodo vazio. Esperou que seu cérebro desse uma explicação. Não veio nenhuma. Por fim, a idéia de olhar de novo se infiltrou.
Deu um passo hesitante para dentro do cubo de concreto.
Nada. Apenas um ligeiro tremor nas sombras. Como uma névoa. Provavelmente eram aqueles óculos estúpidos. Como poderia enxergar alguma coisa usando óculos escuros espelhados no subsolo? E eles eram tão anos noventa! Nem eram retro ainda.
Olhou cheia de culpa para a câmera. Só uma espiadinha rápida, que mal poderia fazer? Levantou a armação, girando os olhos pelo quarto em volta.
Naquele instante uma figura se materializou à sua frente.
Simplesmente surgiu no ar. Ela estava sorrindo.
— Ah, é você. Como foi que...
A fada a interrompeu com um gesto.
— Por que não tira de vez esses óculos, Juliet? Eles não combinam com você.
Ela está certa, pensou Juliet. E que voz linda. Como um coro. Como é que poderia discutir com uma voz daquelas?
— Claro. Chega de óculos de homens das cavernas. A propósito, que voz maneira. Tipo dó-ré-mi e coisa e tal.
Holly decidiu que não tentaria decifrar os comentários de Juliet. Já era bastante difícil quando a garota estava de posse completa de suas faculdades mentais.
— Agora. Uma pergunta simples.
— Sem problema. — Que idéia fantástica!
— Quantas pessoas estão na casa?
Juliet pensou. Uma e uma e uma.
E mais uma? Não, a Sra. Fowl não estava lá.
— Três — Disse finalmente. — Eu, Butler e, claro, Artemis.
A Sra. Fowl estava aqui, mas depois fez tchau-tchau, depois fez tchau-tchau.
Juliet deu um risinho. Tinha feito uma piada. E das boas.
Holly tomou ar para pedir uma explicação, depois decidiu em contrário. O que acabou sendo um erro.
Juliet mordeu o lábio.
— Houve um homenzinho. Num uniforme que nem o seu. Mas não era bonito. Nem um pouco. Só gritava e fumava um charuto fedorento. Pele terrível. Vermelha que nem tomate.
Holly quase sorriu. O próprio Raiz tinha vindo. Sem dúvida as negociações tinham sido desastrosas.
— Ninguém mais?
— Não que eu saiba. Se você vir aquele sujeito de novo, diga para parar de comer carne vermelha. Ele é um infarto ambulante esperando para acontecer.
Holly engoliu o riso. Juliet era a única humana que ela conhecia e que provavelmente ficava mais lúcida sob o mesmer.
— Está bem, eu digo. Agora, Juliet, quero que você fique no meu quarto. E não importa o que ouvir: não saia.
Juliet franziu a testa.
— Este quarto? É tão chato! Não tem TV nem nada. Eu não posso ir para a sala?
— Não. Você precisa ficar aqui. De qualquer modo, eles acabaram de instalar uma televisão na parede. Telão de cinema. Tem luta-livre vinte e quatro horas por dia.
Juliet quase desmaiou de prazer. Correu para dentro da cela, boquiaberta enquanto sua imaginação fornecia as imagens.
Holly balançou a cabeça. Bom, pensou, pelo menos uma de nós está feliz.
Palha sacudiu o traseiro para soltar qualquer torrão que restasse.
Se ao menos sua mãe pudesse vê-lo agora, espalhando lama no Povo da Lama! Era uma ironia, ou alguma coisa do tipo. Palha nunca tinha sido bom em gramática na escola. Nem nisso nem em poesia. Nunca entendera o objetivo. Lá embaixo nas minas só havia duas frases importantes: "Olhem, ouro!" e "Túnel desmoronando, todo mundo para fora!" Sem significados ocultos nem rimas.
Abotoou a aba do traseiro da calça, que tinha se aberto na explosão provocada pelo vendaval saído de suas regiões internas. Hora de dar no pé. Qualquer esperança que ele tivesse de escapar sem ser descoberto tinha sido estourada. Literalmente.
Recolocou o fone de ouvido, prendendo-o firmemente na orelha. Bom, nunca se sabe, até mesmo a LEP podia ser útil.
E quando eu puser as mãos em você, prisioneiro, você vai desejar ter ficado lá embaixo naquelas minas...
Palha suspirou. Ah, bem. Então nada de novo.
Apertando o tesouro do cofre na mão, o anão tentou voltar por onde tinha vindo. Para seu espanto absoluto havia um homem emaranhado na balaustrada. Palha não ficou nem um pouco surpreso ao ver que seu material reciclado tinha conseguido lançar o gigantesco Homem da Lama vários metros pelo ar. Já se sabia de gases de anões terem causado avalanches nos Alpes. O que o surpreendeu foi o fato de que o homem tivesse conseguido chegar tão perto dele.
— Você é bom — Disse Palha, balançando o dedo para o guarda-costas inconsciente.
— Mas ninguém recebe um golpe de Palha Escavator e fica de pé.
O Homem da Lama estremeceu, com o branco dos olhos aparecendo sob as pálpebras trêmulas.
A voz de Raiz estalou nos ouvidos do anão.
— Ande rápido, Palha Escavator, antes que aquele Homem da Lama se levante e dê um nó nas suas tripas. Ele derrotou uma equipe de resgate inteira.
Palha engoliu em seco, sentindo a bravata subitamente o abandonar.
— Uma equipe de resgate inteira? Talvez eu devesse voltar para o subsolo... pelo bem da missão.
Passando às pressas pelo guarda-costas que gemia, Palha desceu a escada de dois em dois degraus. Não havia sentido em se preocupar com os estalos da escada quando você acabou de lançar pelos corredores o equivalente intestinal de um furacão.
Quase tinha alcançado o porão quando uma figura entrou em foco à sua frente. Palha a reconheceu como a policial que o havia prendido no caso dos Mestres da Renascença.
— Capitã Short.
— Palha. Eu não esperava vê-lo.
O anão deu de ombros.
— Julius tinha um serviço sujo. Alguém tinha de fazê-lo.
— Entendi — Disse Holly, assentindo. — Você já perdeu a sua magia. Inteligente. O que descobriu?
Palha mostrou a Holly o que tinha encontrado.
— Isso estava no cofre.
— Um exemplar do Livro! Não é de espantar que nós estejamos nessa encrenca. Estávamos brincando nas mãos dele o tempo todo.
Palha abriu a porta da adega.
— Vamos?
— Eu não posso. Recebi ordens rígidas de não deixar a casa.
— Vocês, mágicos, e seus rituais! Não têm idéia do alívio que é se liberar de toda essa bobagem.
Uma série de ruídos agudos veio do patamar de cima. Parecia um troll solto numa loja de cristais.
— Podemos debater a ética mais tarde. Neste momento sugiro que agente deve desaparecer.
Palha assentiu.
— Concordo. Parece que esse cara derrotou um esquadrão de resgate inteiro.
Holly parou, meio escudada.
— Um esquadrão inteiro? Hmm. Totalmente equipado, imagino...
Ela continuou a sumir no ar, e a última coisa a desaparecer foi seu riso cada vez mais largo.
Palha estava tentado a ficar por ali. Não havia muitas coisas mais divertidas de ver do que um oficial do Recon totalmente armado indo em cima de um punhado de humanos que de nada suspeitavam. Quando a capitã Short terminasse com esse tal de Fowl ele estaria implorando para que ela saísse de sua mansão.
O tal de Fowl estava olhando tudo da sala de vigilância. Não havia como negar: as coisas não iam bem. Nem um pouco. Mas certamente não eram irremediáveis. Ainda havia esperança.
Artemis catalogou os acontecimentos dos últimos minutos.
A segurança da mansão fora comprometida. A sala do cofre estava uma bagunça, explodida por algum tipo de flatulência do Povo das Fadas. Butler estava inconsciente, talvez paralisado pela mesma anomalia gasosa. Sua refém estava solta na casa, com os poderes de fada restaurados. Havia uma criatura feia, vestida de couro, cavando buracos debaixo dos alicerces, aparentemente sem ligar para os mandamentos das fadas. E o Povo tinha recuperado um exemplar do livro, uma das várias cópias, por sinal, contando com a gravada em disco, guardada no cofre de um banco suíço.
O dedo de Artemis ajeitou uma madeixa de cabelo escuro.
Teria de escavar fundo para descobrir o que havia de bom naquela situação específica. Respirou fundo várias vezes, encontrando seu chi, como Butler tinha ensinado.
Depois de contemplar durante vários instantes, percebeu que aqueles fatores significavam pouco para as estratégias gerais de ambos os lados. A capitã Short continuava presa na mansão. E o período de parada temporal estava terminando. Logo a LEP não teria opção além de lançar sua biobomba, e era então que Artemis Fowl teria de dar seu golpe de misericórdia. Claro, toda a coisa dependia do comandante Raiz. Se Raiz fosse tão precário intelectualmente quanto parecia, era bastante possível que todo o esquema desmoronasse em volta dele. Artemis esperava com fervor que alguém da equipe das fadas tivesse a inteligência de perceber a "mancada" que ele cometera durante a sessão de negociação.
Palha desabotoou a aba do traseiro. Hora de sugar um pouco de terra, como diziam lá embaixo nas minas. O problema com os túneis dos anões era que eles eram auto-lacrantes, de modo que, se você tivesse de voltar por onde tinha vindo, havia todo um novo buraco a ser escavado. Alguns anões voltavam exatamente pelo mesmo lugar, cavando a terra menos compacta e pré-digerida. Palha preferia escavar um túnel novo. Por algum motivo, comer a mesma terra duas vezes não lhe atraía.
Desencaixando o maxilar, apontou-se como um torpedo pelo buraco nas tábuas do piso. Seu coração se acalmou imediatamente enquanto o cheiro dos minerais encheram as narinas.
Seguro, ele estava seguro. Nada podia pegar um anão no subsolo, nem mesmo um verme da rocha skaliano. Isto é, claro, se ele conseguisse entrar no subsolo...
Dez dedos muito poderosos agarraram Palha pelos tornozelos. Este não era o dia do anão. Primeiro o cara de verruga, agora aquele humano homicida. Algumas pessoas nunca aprendem.
Geralmente o Povo da Lama.
— Me solta! — Murmurou ele, com o maxilar desencaixado balançando inútil.
— Sem chance, veio a resposta. — O único modo de você sair desta casa é num saco para cadáveres.
Palha podia se sentir sendo puxado para trás. Esse humano era forte. Não havia muitas criaturas capazes de arrancar um anão que estivesse agarrado a alguma coisa. Ele gadanhou na terra, enfiando na boca punhados de argila impregnada de vinho.
Só havia uma chance.
— Venha, seu pequeno goblin. Saia daí.
Goblin! Palha ficaria indignado se não estivesse ocupado mastigando argila para ejetar contra o inimigo.
O humano parou de falar. Talvez tivesse percebido a aba do traseiro, e provavelmente o traseiro. Sem dúvida o que tinha acontecido na sala do cofre estava voltando para ele.
— Ah...
O que teria se seguido ao "Ah" não dá para saber, mas eu estaria disposto a apostar que não era "minha nossa". De qualquer modo, Butler não teve tempo de terminar a frase, porque sensatamente escolheu aquele momento para abrir as mãos.
Uma escolha sábia, realmente, porque coincidiu com o instante em que Palha decidiu lançar sua ofensiva de terra.
Um bolo de argila compacta disparou como uma bala de canhão diretamente para o local onde a cabeça de Butler estivera há apenas um segundo. Se ela ainda estivesse ocupando aquele espaço, o impacto iria separá-la dos ombros do mordomo. Um fim ignóbil para um guarda-costas de seu calibre. O míssil encharcado passou de raspão pela sua orelha. Mesmo assim a força bastou para que Butler girasse como um patinador no gelo, fazendo-o cair sobre o traseiro pela segunda vez.
Quando sua visão se acomodou, o anão tinha desaparecido num turbilhão de sujeira borbulhante. Butler decidiu não tentar uma perseguição. Morrer debaixo da terra não ocupava uma posição muito importante em sua lista de coisas a fazer.
Mas outros dias viriam, criatura das fadas, pensou maligno. E viriam mesmo. Mas esta é outra história.
O ímpeto de Palha o lançou para o subsolo. Tinha seguido por vários metros no veio de argila antes de perceber que ninguém vinha atrás. Assim que o gosto de terra aliviou seu ritmo cardíaco, decidiu que estava na hora de implementar o plano de fuga.
O anão alterou a rota, abrindo o caminho a dentadas em direção à coelheira que tinha percebido antes. Com alguma sorte, o centauro não havia feito um teste sismológico no terreno da mansão, caso contrário seu ardil poderia ser descoberto. Ele só teria de aproveitar o fato de que os outros tinham coisas mais importantes com que se preocupar do que com um prisioneiro desaparecido. Não deveria haver problemas em enganar Julius, mas o centauro era esperto.
A bússola interna de Palha o guiava muito bem, e dentro de minutos ele pôde sentir as vibrações suaves dos coelhos pulando pelos túneis. A partir daqui a noção de tempo era crucial, para que a ilusão fosse eficaz. Ele reduziu o ritmo de dentadas, cutucando a argila suavemente até que os dedos romperam a parede do túnel. Palha teve cuidado de desviar o olhar, porque tudo que ele visse estaria aparecendo na tela do quartel general da LEP.
Encostando os dedos no chão do túnel como se a mão fosse uma aranha de cabeça para baixo, Palha esperou. Não demorou muito. Em segundos sentiu as batidas rítmicas de um coelho que se aproximava. No instante em que as pernas traseiras do animal esbarraram na armadilha, ele apertou os dedos fortes em volta do pescoço do bicho. O pobre animal não teve a mínima chance.
Desculpe, amigo, pensou o anão. Se houvesse outro modo...
Puxando o corpo do coelho pelo buraco, Palha engatou de novo o maxilar e começou a gritar:
— Túnel desmoronando! Túnel desmoronando! Socorro! Socorro!
Agora o truque. Com uma das mãos agitou a terra em volta, fazendo-a cair num chuveiro em volta da cabeça. Com a outra mão tirou a câmera de íris do olho esquerdo e colocou no do coelho. Dada a escuridão quase total e a confusão da queda, devia ser quase impossível ver a troca.
— Julius! Por favor. Socorro.
— Palha! O que está acontecendo? Informe sua situação.
Informar minha situação? , pensou o anão, incrédulo. Mesmo numa suposta crise o comandante não conseguia abandonar o precioso protocolo.
— Eu... Argh... — O anão deu seu grito final, terminando-o num gorgolejo.
Talvez um pouco melodramático, mas Palha nunca conseguia resistir a fazer teatro. Com um último olhar arrependido para o animal agonizante, destravou o maxilar e se virou para o sudeste. A liberdade chamava.

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