quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Capítulo 8: Troll

RAIZ se inclinou para a frente, rugindo no microfone:
— Palha! O que está acontecendo? Informe sua situação.
Potrus estava batucando furiosamente no teclado.
— Nós perdemos o áudio. O movimento também.
— Palha. Fale comigo, que droga!
— Eu estou fazendo uma varredura nos sinais vitais dele... Nossa!
— O quê? O que é?
— O coração dele ficou maluco, está batendo como o de um coelho...
— Um coelho?
— Não, espere, é...
— O quê? — sussurrou o comandante, com um medo terrível de já saber.
Potrus se recostou na cadeira.
— Parou. O coração parou.
— Tem certeza?
— Os monitores não mentem. Todos os sinais vitais podem ser lidos através da câmera de íris. Nem um bip. Ele se foi.
Raiz não conseguia acreditar. Palha Escavator, uma das constantes da vida? Não podia ser verdade.
— Ele conseguiu, Potrus. Recuperou um exemplar do Livro, nada menos do que isso, e confirmou que Short estava viva.
A sobrancelha grossa de Potrus se franziu por um instante.
— É só que...
— O quê? — perguntou Raiz, cheio de suspeitas.
— Bom, por um momento, logo antes do final, o ritmo cardíaco dele pareceu anormalmente rápido.
— Talvez fosse um defeito no aparelho.
O centauro não estava convencido.
— Duvido, meus aparelhos não têm bug.
— Que outra explicação pode haver? O visual ainda está funcionando, não é?
— É. Através de olhos mortos, sem dúvida. Não há uma fagulha de eletricidade naquele cérebro; a câmera está rodando alimentada pela bateria.
— Bom, então é isso. Não há outra explicação.
Potrus assentiu.
— Parece que sim. A não ser... Não, é fantástico demais.
— Nós estamos falando de Palha Escavator. Nada é fantástico demais.
Potrus abriu a boca para verbalizar sua teoria incrível, mas antes que pudesse falar, a porta do veículo se abriu.
— Nós o pegamos! — Disse uma voz triunfante.
— Sim! — concordou uma segunda. — Fowl cometeu um erro!
Raiz girou na cadeira. Eram Argônio e Cumulus, os supostos analistas comportamentais.
— Ah, finalmente decidiram merecer o que ganham, não é?
Mas os professores não seriam intimidados tão facilmente, unidos pela empolgação. Cumulus chegou à temeridade de desconsiderar o sarcasmo de Raiz. Isso, mais do que qualquer outra coisa, fez o comandante se empertigar e prestar atenção.
Argônio passou por Potrus, enfiando um disco laser no console. O rosto de Artemis Fowl apareceu, como se fosse visto através da câmera de íris de Raiz.
— Faremos contato — Disse a voz gravada do comandante. — Não se preocupe, eu acho a saída.
O rosto de Fowl desapareceu momentaneamente enquanto ele se levantava da cadeira. Raiz ergueu o olhar a tempo de ouvir a próxima declaração arrepiante.
— Faça isso. Mas, lembre-se, ninguém de sua raça tem permissão para entrar aqui enquanto eu estiver vivo.
Argônio apertou o botão, triunfante.
— Aí está, você vê!
— Aí? Aí o quê? O que eu vejo?
Cumulus fez cara de pena, como se estivesse falando com uma criança. O que foi um erro, visto em retrospecto. Num segundo o comandante o segurava pela barba pontuda.
— Agora — Disse ele, com a voz enganadoramente calma — Finjam que estamos pressionados pelo tempo, e só explique, sem nenhuma pose ou comentário.
— O humano disse que nós não poderíamos entrar enquanto ele estivesse vivo — guinchou Cumulus.
— E?
Argônio interveio:
— E... se não podemos entrar enquanto ele está vivo...
Raiz respirou fundo.
— Então entraremos quando ele estiver morto.
Cumulus e Argônio incharam de felicidade.
— Exato — Disseram num uníssono perfeito.
Raiz coçou o queixo.
— Não sei. Legalmente nós estamos em terreno instável.
— Nem um pouco — argumentou Cumulus. — É gramática elementar. O humano declarou especificamente que a entrada era proibida enquanto ele estivesse vivo. Isso eqüivale a um convite para quando estiver morto.
O comandante não se convenceu.
— O convite está implícito, na melhor das hipóteses.
— Não — interrompeu Potrus. — Eles estão certos. É uma situação embasada. Assim que Fowl estiver morto, a porta está escancarada. Ele mesmo disse.
— Talvez.
— Talvez nada disse Potrus bruscamente. — Pelo amor de Deus, Julius, do que mais você precisa? Nós estamos numa crise, para o caso de você não ter notado.
Raiz assentiu lentamente.
— Um, você está certo. Dois, eu vou prosseguir com isso. Três, parabéns, vocês dois. E quatro, se algum dia me chamar de Julius de novo, Potrus, você vai comer os próprios cascos. Agora me dê uma linha com o Conselho. Preciso da aprovação para aquele ouro.
— Imediatamente, comandante Raiz, excelência. – Potrus riu, deixando de lado o comentário sobre comer os cascos, em nome de Holly.
— Então nós mandamos o ouro — Murmurou Raiz, pensando em voz alta. — Eles mandam Holly, nós jogamos uma enxagüadora azul no lugar e entramos para pegar de volta o resgate.
— É simples a ponto de ser brilhante — Disse Argônio, entusiasmado. — Um tremendo estímulo para a nossa profissão, não diria, doutor Cumulus?
A cabeça de Cumulus estava girando com possibilidades.
— Viagens de palestras, contratos de livros. Bom, só os direitos para filmagem devem valer uma fortuna.
— Deixe aqueles sociólogos engolirem essa! Vai acabar com aquele papo de "criação miserável é igual a comportamento anti-social". Esse tal de Fowl nunca passou fome na vida.
— Há mais de um tipo de fome — observou Argônio.
— Verdade. A fome de sucesso. A fome de domínio. A fome de...
Raiz interrompeu rispidamente:
— Saiam! Saiam antes que eu estrangule vocês dois. E se eu ouvir uma palavra dessas repetidas num programa de entrevistas na TV, saberei de onde elas vieram.
Os consultores recuaram cautelosos, decididos a não ligar para seus empresários enquanto não estivessem longe do alcance auditivo.
— Não sei se o Conselho aprovará isso — admitiu Raiz quando os dois partiram. — É muito ouro.
Potrus ergueu os olhos do console.
— Quanto, exatamente?
O comandante empurrou um pedaço de papel sobre o console.
— Essa quantidade.
— É muita coisa. — Potrus assobiou. — Uma tonelada. Lingotes pequenos e sem marcas. Só ouro vinte e quatro quilates. Bom, pelo menos é uma quantidade redonda.
— Muito reconfortante. Não esquecerei de mencionar isso ao Conselho. Você já conseguiu a linha?
O centauro grunhiu. Um grunhido negativo. Na verdade era muito atrevido grunhir para um superior. Raiz não teve ânimo de repreendê-lo, mas fez uma anotação mental: quando isto terminar, atrase o pagamento de Potrus por algumas décadas.
Em seguida esfregou os olhos, exausto. O cansaço característico da parada temporal estava chegando. Mesmo que o cérebro não o deixasse dormir porque ele estivera acordado quando a parada temporal começou, seu corpo gritava pedindo para descansar.
Levantou-se da cadeira, escancarando a porta para deixar que o ar entrasse. Rançoso. Ar de tempo parado. Nem mesmo as moléculas podiam escapar desse campo temporal, quanto mais um garoto humano.
Havia atividade perto do portal. Muita atividade. Um enxame de soldados reunidos em volta de uma jaula flutuante.
Porrete estava parado, e o grupo inteiro ia na direção dele. Raiz foi encontrá-los.
— O que é isso? — perguntou, em voz não muito agradável. — Um circo?
O rosto de Porrete estava pálido, mas decidido.
— Não, Julius. É o fim do circo.
Raiz assentiu.
— Sei. E estes são os palhaços?
A cabeça de Potrus apareceu na porta.
— Perdão por interromper sua longa metáfora circense, mas que diabo é aquilo?
— Sim, tenente — perguntou Raiz, assentindo para a jaula flutuante. — Que diabo é aquilo?
Porrete juntou coragem respirando fundo algumas vezes.
— Eu segui o seu exemplo, Julius.
— Verdade?
— Sim, é. Você optou por mandar uma criatura indigna. Agora a opção é minha.
Raiz deu um sorriso perigoso.
— Você não opta por nada, tenente, não sem que eu autorize.
— Eu falei com o Conselho, Julius. Tenho todo o apoio deles.
O comandante se virou para Potrus.
— É verdade?
— Aparentemente sim. Eu acabei de conseguir a linha externa. Agora a festa é de Porrete. Ele contou ao Conselho sobre a exigência de resgate e sobre você ter mandado o Sr. Escavator.
Você sabe como são os anciãos quando se trata de abrir mão de ouro.
Raiz cruzou os braços.
— As pessoas me falavam de você, Porrete. Diziam que você ia me esfaquear pelas costas. Eu não acreditei. Fui um imbecil.
— Isto não tem a ver conosco, Julius. Tem a ver com a missão. O que está dentro desta jaula é nossa melhor chance de sucesso.
— Então o que há na jaula? Não, não diga. A única outra criatura não mágica nos Elementos Inferiores. E o primeiro troll que conseguimos pegar vivo em mais de um século.
— Exato. A criatura perfeita para arrancar nosso adversário de lá.
As bochechas de Raiz brilharam com o esforço de conter a raiva.
— Não acredito que você esteja ao menos pensando nisso.
— Encare o fato, Julius, é basicamente a mesma idéia que você teve.
— Não, não é. Palha Escavator fazia suas próprias escolhas. Ele conhecia os riscos.
— Escavator está morto?
Raiz esfregou os olhos de novo.
— Sim. É o que parece. Um túnel desmoronou.
— Isso só prova que eu estou certo. Um troll não seria despachado tão facilmente.
— É um animal imbecil, pelo amor de Deus. Como um troll pode seguir instruções?
Porrete sorriu, com a confiança recém-nascida brotando da apreensão.
— Que instruções? Nós só o apontamos para a casa e saímos do caminho. Garanto que aqueles humanos vão implorar que nós entremos para resgatá-los.
— E quanto à minha oficial?
— Teremos o troll de volta, trancado, muito antes que a capitã Short esteja correndo perigo.
— Você pode garantir isso, é?
Porrete fez uma pausa.
— É um risco que eu estou disposto... que o Conselho está disposto a correr.
— Política — cuspiu Raiz. — Para você é tudo política, Porrete. Uma boa menção elogiosa, como caminho para um lugar no Conselho. Você me deixa enojado.
— Como quiser, nós vamos prosseguir com esta estratégia. O Conselho me nomeou comandante interino, de modo que, se não consegue pôr nossa história pessoal de lado, saia do meu caminho.
Raiz ficou de lado.
— Não se preocupe, comandante. Não quero ter nada a ver com esta chacina. O crédito é todo seu.
Porrete fez sua melhor cara de sinceridade.
— Julius, apesar do que você pensa, eu só tenho em mente o interesse do Povo.
— De um membro do Povo em particular — Fungou Raiz.
Porrete decidiu bancar o cheio de moral.
— Não preciso ficar aqui ouvindo isso. Cada segundo falando com você é um segundo desperdiçado.
Raiz o encarou direto nos olhos.
— Então são cerca de seiscentos anos totalmente desperdiçados, não é, amigo?
Porrete não respondeu. O que poderia dizer? A ambição tinha um preço, e esse preço era a amizade.
Porrete se virou para o seu esquadrão, um grupo de duendes alados escolhidos a dedo, leais apenas a ele.
— Levem a jaula flutuante até a avenida. Não daremos sinal verde enquanto eu não mandar.
Ele passou por Raiz, os olhos fixos em qualquer ponto, menos no ex-amigo. Potrus não o deixou sair sem um comentário.
— Ei, Porrete.
O comandante interino não poderia tolerar isso, não em seu primeiro dia.
— Cuidado com a boca, Potrus. Ninguém é indispensável.
O centauro deu um risinho.
— Verdade. Esse é o problema com a política, você só tem uma oportunidade.
Porrete estava um tanto interessado, mesmo contra a vontade.
— Só o que sei é que se fosse eu — prosseguiu Potrus — E se eu tivesse uma chance, só uma chance, de pôr o traseiro num assento do Conselho, certamente não confiaria meu futuro a um troll.
E de repente a confiança recém-encontrada de Porrete se evaporou, substituída por uma palidez brilhante. Ele enxugou a testa, correndo atrás da jaula que se afastava.
— Vejo você amanhã — gritou Potrus. — Vai estar limpando o meu lixo.
Raiz gargalhou. Possivelmente era a primeira vez que um dos comentários de Potrus o divertia.
— Muito bom, Potrus. — Ele riu. — Acertou aquele traidor onde dói mais, bem na ambição.
— Obrigado, Julius.
O riso desapareceu mais rápido do que lesma de poço frita na cantina da LEP.
— Eu já lhe avisei sobre esse negócio de Julius, Potrus. Agora abra de novo aquela linha externa. Quero o ouro pronto para quando o plano de Porrete der errado.
Pressione todos os que me apoiam no Conselho. Tenho quase certeza de que Lope está do meu lado, e Cahartez, possivelmente Vinyáya. Ela sempre teve uma queda por mim, por essa minha atração demoníaca.
— Você está brincando, claro.
— Eu nunca brinco — Disse Raiz, e falou isso com o rosto impávido.
Holly tinha um plano, mais ou menos. Andar por aí escudada, recuperar algumas armas do povo das fadas, depois causar um tumulto até Fowl ser forçado a soltá-la. E se um dano de propriedade no valor de vários milhões de libras irlandesas acontecesse, bom, isso era apenas um bônus.
Holly não se sentia tão bem há anos. Seus olhos chamejavam de poder e havia fagulhas pipocando sob cada centímetro de pele. Havia se esquecido de como era bom estar quente.
Agora a capitã Short se sentia no controle, na caçada. Fora treinada exatamente para isso. Quando esse negócio começou, a vantagem estava com o Povo da Lama. Mas agora a bota estava no outro pé. Ela era a caçadora, e eles apresa.
Subiu a grande escadaria, sempre vigilante por causa do mordomo enorme. Aquele era um indivíduo com quem ela não se arriscaria. Se aqueles dedos se fechassem em volta do seu crânio, ela seria passado, com ou sem capacete, presumindo que conseguisse achar um capacete.
A casa vasta parecia um mausoléu — sem um único sinal de vida dentro dos cômodos grandes. Retratos sinistros em toda parte. Cada um com olhos de Fowl, cheios de suspeita e brilhantes. Holly decidiu incendiar todos quando recuperasse sua Neutrino 2000. Talvez fosse uma atitude vingativa, mas totalmente justificável considerando o que Artemis Fowl a havia feito sofrer.
Subiu rapidamente os degraus, seguindo a curva em volta do patamar de cima. Um facho de luz pálida espiava por baixo da última porta do corredor. Holly encostou a mão na madeira, tentando sentir alguma vibração. Atividade. Gritos e passos. Vindo para cá.
Saltou para trás, grudando-se no papel de parede aveludado.
Bem na hora. Uma forma enorme passou pela porta e disparou pelo corredor, deixando um turbilhão de correntes de ar.
— Juliet! — gritou o mordomo, o nome da irmã pairando no ar muito depois de ele ter desaparecido escada abaixo.
Não se preocupe, Butler, pensou Holly. Ela está se divertindo como nunca grudada àquele programa de luta-livre. Mas a porta aberta apresentava uma oportunidade bem-vinda. Passou antes que o braço mecânico a fechasse de novo.
Artemis Fowl estava esperando, com os filtros anti-escudos grudados nos óculos escuros.
— Boa noite, capitã Short — começou ele, com a confiança aparentemente intacta. — Com o risco de parecer um clichê, eu estava esperando-a.
Holly não respondeu, nem olhou nos olhos do carcereiro.
Em vez disso aproveitou seu treinamento para examinar a sala, o olhar mal pousando em cada superfície.
— Claro que você está presa às promessas feitas mais cedo...
Mas Holly não estava escutando, estava saltando na direção de uma bancada de aço inoxidável aparafusada à parede mais distante.
— Então nossa situação basicamente não mudou. Você ainda é minha refém.
— Sim, sim, sim — Murmurou ela, passando os dedos sobre as fileiras de equipamento confiscado da equipe de resgate. Escolheu um capacete coberto de material invisível, enfiando-o por cima das orelhas pontudas. Agora estava em segurança. Qualquer outra ordem dada por Fowl não significaria nada através do visor reflexivo. Um microfone se ligou automaticamente. O contato foi imediato.
Em todas as freqüências. Transmitindo em todas as freqüências. Holly, se puder me ouvir, procure um abrigo.
Holly reconheceu a voz de Potrus. Uma coisa familiar numa situação maluca.
— Repito. Procure um abrigo. Porrete está mandando um...
— Alguma coisa que eu deveria saber? — perguntou Artemis.
— Quieto — sibilou Holly, preocupada com o tom da voz de Potrus, que geralmente era petulante.
— Repito, eles estão mandando um troll para garantir a sua libertação.
Holly levou um susto. Agora Porrete estava no comando.
Não era boa notícia.
Fowl interrompeu de novo.
— Não é educado ignorar o anfitrião, você sabe.
Holly rosnou.
— Já chega!
Ela recuou o punho, com os dedos enrolados com força.
Artemis nem se abalou. Por que se abalaria? Butler sempre intervinha antes que os socos chegassem. Mas então alguma coisa atraiu seu olhar, uma figura grande descendo pela escada no monitor do primeiro andar. Era Butler.
— Isso mesmo, garoto rico — Disse Holly com voz maligna. — Dessa vez você está sozinho.
E antes que os olhos de Artemis tivessem tempo de se arregalar, Holly pôs mais uns quilos extras de tensão no cotovelo e deu um soco bem no nariz de seu seqüestrador.
— Ai! — Disse ele, caindo sobre o traseiro.
— Ah, sim! Que sensação boa!
Holly se concentrou na voz que zumbia em seu ouvido.
Nós estivemos transmitindo uma imagem em loop para as câmeras externas, de modo que os humanos não vissem nada que viesse pela avenida. Mas ele está a caminho, acredite.
— Potrus. Potrus, responda.
— Holly? É você?
— A única. Potrus, não há loop. Eu estou vendo tudo que acontece por aqui.
— O espertinho... Ele deve ter reinicializado o sistema.
A avenida era uma colméia de atividade do Povo das Fadas.
Porrete estava lá, apressadamente comandando sua equipe de duendes alados. E no centro da confusão havia uma jaula flutuante de cinco metros de altura, pairando num colchão de ar bem na frente da porta da mansão, e os técnicos estavam pondo um lacre de concussão na parede em volta. Quando ativado, várias hastes de liga metálica no lacre se detonariam simultaneamente, desintegrando a porta. Assim que a poeira assentasse, o troll só teria um lugar aonde ir: dentro da mansão.
Holly verificou os outros monitores. Butler tinha conseguido arrastar Juliet para fora da cela. Os dois haviam subido e estavam atravessando o saguão. Bem na linha de fogo.
— D:Arvit — xingou ela, indo até a superfície de trabalho.
Artemis estava apoiado nos cotovelos.
— Você me bateu — Disse ele, incrédulo.
Holly pôs um Beija-Flor nas costas.
— Isso mesmo, Fowl. E há muito mais no lugar de onde esse veio. Então fique aí parado, se sabe o que é bom para você.
Pela primeira vez na vida Artemis percebeu que não tinha uma resposta pronta. Abriu a boca, esperando que o cérebro fornecesse a reação vigorosa. Mas nada chegou.
Holly enfiou a Neutrino 2000 no coldre.
— Isso mesmo, Garoto da Lama. Acabou a brincadeira.
Hora de os profissionais assumirem o controle. Se você for um bom menino, eu lhe compro um pirulito quando voltar.
E quando Holly já havia ido há um tempo, voando perto das antigas traves de carvalho do corredor, Artemis falou:
— Eu não gosto de pirulito.
Era uma resposta melancolicamente inadequada, e num instante Artemis ficou pasmo consigo mesmo. Na verdade era ridícula: "Eu não gosto de pirulito." Nenhum gênio do crime que se respeite seria apanhado ao menos usando a palavra pirulito. Ele realmente teria de montar um banco de dados com respostas inteligentes para ocasiões como essa.
Era bem possível que Artemis ficasse sentado assim durante um tempo, totalmente isolado da situação, se a porta da frente não tivesse implodido, fazendo a mansão tremer nos alicerces. Uma coisa daquelas bastava para arrancar os devaneios da cabeça de qualquer um.
Um duende alado surgiu diante do comandante interino Porrete.
— O lacre está no lugar, senhor.
Porrete assentiu.
— Tem certeza de que ele está firme, capitão? Eu não quero o troll vindo para o lado errado.
— Mais firme do que a carteira de um goblin. Não há nem mesmo uma bolha de ar passando por aquele lacre. Mais apertado do que um verme fedorento tentando não soltar um...
— Muito bem, capitão — interrompeu Porrete às pressas, antes que o duende pudesse completar a analogia nojenta.
Diante deles a jaula flutuante se sacudiu com violência, quase tombando do colchão de ar.
— É melhor explodir a coisa logo, comandante. Se não deixarmos que ele saia logo, meus rapazes vão passar a próxima semana raspando...
— Ótimo, capitão, ótimo. Pode explodir. Pode explodir, pelo amor de Deus.
Porrete correu para trás do escudo protetor, rabiscando uma anotação na tela de cristal líquido de seu computador de mão: Lembrar aos duendes para ter cuidado com a linguagem. Afinal de contas, agora eu sou um comandante.
O capitão de boca suja se virou para o motorista da jaula flutuante.
— Pode explodir, Chix. Arranque aquela porta das drogas das dobradiças.
— Sim, senhor. Das drogas das dobradiças. Entendido.
Porrete se encolheu. Haveria uma reunião geral amanhã.
Bem cedo. Mas aí ele já estaria com o escudo de comandante na lapela. Até mesmo um duende alado teria menos probabilidade de xingar vendo o escudo das três sementes de carvalho piscando em sua cara.
Chix baixou os óculos protetores, apesar de a cabine da jaula ter um pára-brisa de quartzo. Os óculos eram maneiros. As garotas adoravam. Ou pelo menos o motorista pensava isso. Em sua mente ele se via como um sujeito temerário, com cara de mau. Os duendes alados eram assim. Basta dar um par de asas a um membro do Povo das Fadas e ele fica se considerando um presente de Deus para as mulheres. Mas a luta malfadada de Chix Verbil para impressionar as damas é, de novo, outra história. Nesta narrativa em particular ele serve apenas a um objetivo: apertar melodramaticamente o botão detonador. Coisa que fez, com grande pose.
Duas dúzias de cargas controladas detonaram em suas câmaras, expulsando duas dúzias de cilindros de liga metálica a mais de mil quilômetros por hora. Depois do impacto, cada barra pulverizava a área de contato e mais os quinze centímetros em volta, efetivamente arrancando a porta das drogas das dobradiças. Como diria o capitão.
Quando a poeira baixou, os controladores abriram a parede de contenção dentro da jaula e começaram a bater nos painéis laterais com as mãos.
Porrete espiou de trás do escudo protetor.
— Tudo certo, capitão?
— Só uma droga de um segundo, comandante. Chix? Como estamos indo?
Chix verificou o monitor da cabine.
— Ele está se movendo. As batidas o estão incomodando. As garras estão saindo. Minha nossa, ele é grande. Eu não queria ser aquela gata do Recon se ela tiver de ficar no caminho dessa coisa.
Porrete sentiu uma momentânea pontada de culpa, que descartou com seu devaneio predileto: uma visão de si mesmo afundando numa cadeira de veludo bege do Conselho.
A jaula balançou violentamente, quase deslocando Chix de seu banco. Ele se agarrou como um peão de rodeio.
— Ok! Ele está indo. Mexam seus traseiros, pessoal. Tenho a sensação de que a qualquer segundo vamos ouvir um grito de socorro.
Porrete não se incomodou em mexer o traseiro. Preferia deixar essas coisas para os soldados de infantaria. O comandante interino se considerava importante demais para se arriscar a uma situação insegura. Pelo bem do Povo em geral, era melhor que ele ficasse fora da zona de operações.
Butler desceu a escada de quatro em quatro degraus. Era provavelmente a primeira vez que ele abandonava o patrão Artemis numa crise. Mas Juliet era da família, e com certeza havia alguma coisa tremendamente errada com sua irmãzinha.
Aquela fada tinha dito alguma coisa para ela, e agora ela estava ali parada na cela, rindo. Butler temeu o pior. Se alguma coisa acontecesse com Juliet, ele não sabia como iria viver.
Sentiu uma gota de suor descer pelo cocuruto da cabeça raspada.
Toda a situação estava disparando em direções estranhas.
Fadas, magia, e agora uma refém solta na mansão. Como se podia esperar que ele controlasse as coisas? Era preciso uma equipe de quatro homens para guardar um político de pouca importância, mas esperava-se que ele contivesse sozinho essa situação impossível.
Butler disparou pelo corredor até o lugar que recentemente era a cela da capitã Short. Juliet estava esparramada na cama, fascinada por uma parede de concreto.
— O que você está fazendo? — perguntou ele, boquiaberto, sacando a Sig Sauer nove milímetros com uma facilidade treinada.
Sua irmã mal lhe lançou um olhar.
— Quieto, seu gorila. Louie, a Máquina do Amor, está lutando. Ele não é tão forte, eu poderia encarar o sujeito.
Butler piscou. Ela estava falando bobagem. Obviamente drogada.
— Vamos. Artemis quer nós dois lá em cima, na sala de comando.
Juliet apontou a unha pintada para a parede.
— Artemis pode esperar. A disputa é pelo título intercontinental. E é uma tremenda luta. Louie comeu o leitãozinho de estimação do Suíno.
O mordomo examinou a parede. Estava definitivamente vazia. Não tinha tempo para isso.
— Certo. Vamos — Rosnou ele, jogando a irmã sobre um dos ombros enormes.
— Nããão. Seu grandalhão chato! — Ela bateu nas costas dele com os punhos minúsculos. — Agora não. Suíno! Suínoooo!
Butler ignorou os protestos e saiu correndo. Quem, diabos, era esse tal de Suíno? Um dos namorados dela, sem dúvida. No futuro ia ficar de olho em quem aparecesse na mansão.
— Butler? Responda.
Era Artemis, pelo rádio portátil. Butler levantou a irmã um pouco, para conseguir alcançar o cinto.
— Pirulito! — Rugiu o patrão.
— Diga de novo. Acho que você disse...
— É... Eu quero dizer, saia daí. Busque cobertura! Busque cobertura!
Buscar uma cobertura? A expressão militar não parecia correta, saindo da boca do patrão Artemis. Como um anel de diamantes de brinde num saco de doces.
— Buscar cobertura?
— Sim, Butler. Cobertura. Eu pensei que falar em termos primais seria o caminho mais rápido para suas funções cognitivas. Obviamente estava equivocado.
Assim, sim. Butler examinou o corredor em busca de um lugar onde se enfiar. Não havia muita escolha. O único abrigo era proporcionado pelas armaduras medievais encostadas nas paredes. O mordomo entrou no nicho atrás de um cavaleiro do século XIV completo com lança e clava.
Juliet bateu no peitoral da armadura.
— Está se achando forte? Eu poderia derrubar você com uma das mãos.
— Quieta — sibilou Butler.
Ele prendeu o fôlego e prestou atenção. Alguma coisa estava se aproximando da porta principal. Alguma coisa grande.
Butler se esticou o suficiente para espiar o saguão com um olho...
Então você poderia dizer que o portal explodiu. Mas esse verbo em particular não define o que aconteceu. Na verdade ele se despedaçou em lascas infinitesimais. Butler tinha visto uma coisa assim antes, quando um terremoto de magnitude sete havia rasgado a propriedade de um grande traficante colombiano segundos antes do momento em que ele iria explodir o lugar.
Isto agora era ligeiramente diferente. Mais localizado. Muito profissional. Era uma clássica tática anti-terrorista. Acerte-os com fumaça e armas de efeito moral, depois entre enquanto o alvo ainda estiver desorientado. O que quer que estivesse vindo, seria ruim. Ele tinha certeza. Estava absolutamente certo.
Nuvens de poeira se assentaram devagar, depositando uma fina película no tapete tunisiano. Madame Fowl ficaria furiosa, se ao menos pusesse um pé fora da porra do sótão. Os instintos de Butler lhe diziam para agir. Correr em ziguezague pelo térreo, procurar um lugar mais alto. Ficar abaixado para minimizar o alvo. Esta seria a hora perfeita para fazer isso, antes que a visibilidade melhorasse. A qualquer segundo uma chuva de balas estaria assobiando pela abertura, e o último lugar em que ele gostaria de estar era preso num andar inferior.
E em qualquer outro dia Butler teria agido. Chegaria à metade da escada antes que seu cérebro tivesse tempo para pensar duas vezes. Mas hoje estava com a irmãzinha sobre o ombro, falando bobagens, e a última coisa que ele queria era expô-la a um tiroteio. Com Juliet no estado em que se encontrava, ela provavelmente desafiaria os comandos das fadas para uma luta livre. E apesar de sua irmã falar com bravata, na verdade ela não passava de uma criança. Não era páreo para militares treinados. Por isso Butler se agachou, empurrou Juliet contra uma tapeçaria pendurada atrás de uma armadura e verificou a arma.
Destravada. Bom. Venham me pegar, fadinhas.
Alguma coisa se moveu na névoa de poeira. Ficou imediatamente óbvio para Butler que a coisa não era humana. O mordomo participara de muitos safáris para não reconhecer um animal quando o via. Examinou o passo da criatura. Possivelmente simiesca. A estrutura da parte superior do corpo era semelhante à de um macaco, mas era maior do que qualquer primata que Butler já vira. Se fosse um símio de grande porte, essa pistola não adiantaria muito. Você podia enfiar cinco balas no crânio de um gorila e ele ainda teria tempo de comê-lo antes que seu cérebro percebesse que estava morto.
Mas não era um símio. Símios não tinham olhos noturnos.
Essa criatura tinha. Pupilas vermelhas e brilhantes, meio escondidas por trás de pêlos na testa. Também tinha presas, mas não como de elefante. Essas eram curvas, com bordas serrilhadas.
Armas para estripar. Butler sentiu uma pontada na boca do estômago. Ele já tivera essa sensação antes. Em seu primeiro dia na academia suíça. Era medo.
A criatura saiu da névoa de poeira. Butler ficou boquiaberto. De novo, pela primeira vez desde a academia.
O mordomo percebeu instantaneamente o que as fadas tinham feito. Tinham mandado um caçador primal. Uma criatura sem interesse em magia ou regras. Uma coisa que simplesmente mataria tudo em seu caminho, sem ligar para as espécies. Aquilo era o predador perfeito. Isso ficou claro pelas pontas dos dentes, feitas para rasgar carne, pelo sangue seco em crostas entre as garras e o ódio que se destilava dos olhos.
O troll se adiantou atabalhoadamente, forçando avista à luz do lustre. Garras amarelas rasparam o piso de mármore, soltando fagulhas. Agora a coisa estava farejando, fungando curiosamente, com a cabeça inclinada para o lado. Butler já tinha visto essa postura — Na cara de pit bulls esfomeados, logo antes que seus treinadores russos os soltassem para caçar ursos.
A cabeça peluda se imobilizou, com o focinho apontado direto para o esconderijo de Butler. Não era coincidência. O mordomo espiou por entre os dedos da luva da armadura. Agora vinha a tocaia. Assim que um cheiro era sentido, o predador tentaria uma aproximação lenta e silenciosa, antes do ataque relâmpago.
Mas aparentemente o troll não tinha lido o manual dos predadores, porque não se incomodou com a aproximação furtiva, saltando direto para o ataque relâmpago. Movendo-se mais rápido do que Butler acharia possível, o troll saltou pelo corredor, empurrando a armadura medieval para o lado como se ela fosse um manequim de loja.
Juliet piscou.
— Ahh — Disse ela, boquiaberta. — Bob Pé Grande. O campeão canadense de 1998. Achei que você estava nos Andes, procurando seus parentes.
Butler não se incomodou em corrigi-la. A irmã não estava lúcida. Pelo menos morreria feliz. Enquanto seu cérebro contemplava essa observação mórbida, a mão de Butler ia subindo com arma.
Ele apertou o gatilho com o máximo de velocidade que o mecanismo da Sig Sauer permitia. Dois no peito, três entre os olhos. Esse era o plano. Acertou os tiros no peito, mas o troll interveio antes que Butler pudesse completar os disparos. A interferência assumiu a forma de presas curvas que se enfiaram por baixo da guarda do mordomo. Elas se curvaram em volta de seu tronco, cortando a jaqueta reforçada com kevlar como uma navalha cortando papel.
Butler sentiu uma dor fria quando o marfim serrilhado cortou seu peito. Ele soube imediatamente que o ferimento era fatal. Sua respiração saiu com força. Um pulmão tinha ido embora, e jorros de sangue manchavam o pêlo do troll. Sangue dele.
Ninguém podia perder tanto sangue e ainda viver. Mesmo assim a dor foi substituída instantaneamente por uma curiosa euforia. Alguma forma de anestésico natural injetado por canais nas presas da fera. Mais perigoso do que o veneno mais mortal. Em minutos Butler não apenas pararia de lutar, mas iria rindo para a sepultura.
O mordomo lutou contra o narcótico em seu sangue, fazendo toda a força possível no aperto do troll. Mas não adiantava. Sua luta terminou praticamente antes de começar.
O troll grunhiu, jogando por cima da cabeça a forma humana frouxa. O corpo enorme de Butler bateu na parede numa velocidade que os ossos humanos não podiam suportar. Os tijolos estalaram do chão ao teto. A espinha de Butler também se partiu. Agora, mesmo que a perda de sangue não o derrotasse, a paralisia derrotaria.
Juliet ainda estava fascinada pelo mesmer.
— Anda, irmão. Levante-se da lona. Nós sabemos que você está fingindo.
O troll fez uma pausa, com alguma curiosidade básica incomodada pela falta de medo. Ele teria suspeitado de um truque, se pudesse formular um pensamento tão complicado. Mas no fim o apetite venceu. Essa criatura cheirava a carne. Fresca e macia. A carne acima da terra era diferente. Cheia de cheiros da superfície. Uma vez que você comeu carne do ar livre, é difícil voltar. O troll passou a língua sobre os incisivos e estendeu a mão peluda...
Holly dobrou o Beija-Flor para perto do corpo, dando um mergulho controlado. Passou perto da balaustrada, emergindo na varanda abaixo de uma cúpula de vidro fumê. A luz da parada temporal se filtrava de modo estranho, partindo-se em densos fachos azulados.
Luz, pensou Holly. Os faróis do capacete tinham funcionado antes. Era tarde demais para o homem, ele era um saco de ossos partidos. Mas a fêmea ainda tinha alguns segundos antes que o troll a rasgasse ao meio.
Desceu espiralando pela luz falsa, procurando o botão do Sonix no controle do capacete. Os Sonix geralmente eram usados para caninos, mas neste caso talvez causassem uma distração momentânea. O bastante para ela chegar ao nível do chão.
O troll estava estendendo a mão lentamente para Juliet. Era um gesto geralmente reservado para quem estava indefeso. As garras iriam se enrolar abaixo das costelas, rompendo o coração. Dano mínimo à carne e nenhuma tensão de último minuto para endurecê-la.
Holly ativou o Sonix... e nada aconteceu. Isso não era bom.
Geralmente um troll comum ficaria no mínimo irritado pelo som em freqüência ultra-alta. Mas aquela fera em particular nem balançou a cabeça peluda. Havia duas possibilidades: uma, o capacete estava com defeito; duas, esse troll era surdo como um poste. Infelizmente Holly não tinha como saber, já que aquele tipo de som era inaudível para as fadas.
Qualquer que fosse, o problema forçou Holly a adotar uma estratégia que preferiria não ter de utilizar. O contato direto.
Tudo para salvar a vida de um humano. Tinha pirado de vez.
Sem dúvida.
Holly mudou a marcha, direto de quarta para ré. Isso não era muito bom para as engrenagens. Levaria uma bronca dos mecânicos, no caso improvável de sobreviver àquele pesadelo interminável. O efeito dessa reversão de engrenagens foi girá-la no ar, de modo que os saltos de suas botas estivessem apontados direto para a cabeça do troll. Holly se arrepiou. Dois entreveros com o mesmo troll. Inacreditável.
Os saltos acertaram a fera bem no cocuruto. A essa velocidade, havia pelo menos meia tonelada de força G no contato.
Apenas os reforços de seu uniforme impediram os ossos de Holly de se despedaçar. Mesmo assim ela ouviu um estalo no joelho.
A dor foi até a testa. O que arruinou também sua manobra de recuperação. Em vez de subir a uma altitude segura, Holly desmoronou nas costas do troll, ficando instantaneamente embolada nos pêlos grossos.
O troll ficou bastante irritado. Não somente alguma coisa o havia distraído do jantar, mas agora essa coisa estava embolada em seu pêlo, junto com as lesmas limpadoras. A fera se empertigou, esticando a mão em garra por cima do ombro. As unhas curvas rasparam o capacete de Holly, criando reentrâncias paralelas na liga metálica. Juliet estava em segurança por enquanto, mas Holly ocupara o lugar da garota na lista de indivíduos ameaçados de extinção.
O troll apertou com mais força, de algum modo conseguindo agarrar a cobertura anti-atrito do capacete, o que, segundo Potrus, era impossível. Teriam uma conversa muito séria. Se não nesta vida, sem dúvida na outra.
A capitã Short se viu levantada até encarar o velho inimigo.
Lutou para se concentrar em meio à dor e à confusão. Sua perna estava balançando como um pêndulo, e a respiração do troll batia em seu rosto em ondas rançosas.
Havia um plano, não havia? Sem dúvida ela não tinha voado até aqui embaixo só para se enrolar e morrer. Devia ter havido uma estratégia. Todos aqueles anos na Academia deviam ter lhe ensinado alguma coisa. Qualquer que fosse o plano, ele desapareceu para algum lugar entre a dor e o choque. Para fora do alcance.
— As luzes, Holly...
A voz em sua cabeça. Provavelmente estava falando consigo mesma. Uma experiência paranormal. Ha ha. Precisava se lembrar de contar isso a Potrus... Potrus?
— Acenda as luzes, Holly. Se essas presas entrarem em ação, você estará morta antes que a magia possa atuar.
— Potrus? É você? — Talvez Holly tenha dito isso em voz alta, ou talvez só tenha pensado. Não tinha certeza.
— Os faróis altos para túneis, capitã! — Uma voz diferente. Não tão afável. — Aperte o botão agora! Isso é uma ordem!
Epa. Era o Raiz. Ela estava fazendo besteira no trabalho de novo. Primeiro em Hamburgo, depois em Martina Franca, e agora isso.
— Sim, senhor — Murmurou ela, tentando parecer profissional.
— Aperte! Agora, capitã Short!
Holly olhou direto nos olhos implacáveis do troll e apertou o botão. Muito melodramático. Ou teria sido, se as luzes tivessem funcionado. Infelizmente para Holly, na pressa, ela havia apanhado um dos capacetes canibalizados por Artemis Fowl. Por isso nada de Sonix, nada de filtros e nada de faróis de túnel. As lâmpadas halógenas ainda estavam instaladas, mas os fios tinham se soltado durante as investigações de Artemis.
— Minha nossa — suspirou Holly.
— Minha nossa! — latiu Raiz. — O que isso significa?
— Os faróis estão desconectados — Explicou Potrus.
— Ah... — a voz de Raiz sumiu. O que mais haveria a dizer?
Holly forçou a vista para o troll. Se você não soubesse que os trolls eram animais imbecis, juraria que a fera estava rindo.
Parado ali com sangue pingando dos vários ferimentos no peito, rindo. A capitã Short não gostava de que rissem dela.
— Ria disto — Falou, e deu uma cacetada no troll com a única arma disponível. Sua cabeça envolta no capacete.
Sem dúvida foi um ato valente, mas quase tão eficaz quanto tentar cortar uma árvore com uma pena. Felizmente o golpe malfadado teve um efeito colateral. Por uma fração de segundo dois filamentos condutores se conectaram, lançando energia para um dos faróis de túnel. Quatrocentos watts de luz branca atravessaram os olhos vermelhos do troll, despachando pára-raios de agonia no cérebro.
— He, he — Murmurou Holly, no segundo antes que o troll tivesse uma convulsão involuntária. Os espasmos a lançaram girando pelo piso de parquê, com as pernas se sacudindo.
A parede estava se aproximando a uma velocidade alarmante. Talvez, pensou Holly esperançosa, este fosse um daqueles impactos onde a gente só sente dor bem mais tarde. Não, respondeu seu lado pessimista, acho que não. Holly bateu numa tapeçaria normanda cujos desenhos contavam uma história, fazendo-a despencar em cima dela. A dor foi imediata e avassaladora.
— Uff — grunhiu Potrus. — Essa eu senti. O visual sumiu.
Os sensores de dor foram até o final da escala. Seus pulmões estão ferrados, capitã. Vamos perdê-la durante um tempo. Mas não se preocupe, Holly, sua magia já deve estar começando a funcionar.
Holly sentiu a comichão azul da magia correndo para os vários ferimentos. Graças aos deuses por ter trazido a semente. Mas foi um pouquinho tarde demais. A dor estava no limite. Logo antes que a inconsciência a dominasse, a mão de Holly saiu de baixo da tapeçaria. E pousou no braço de Butler, tocando sua pele.
Espantosamente, o humano não estava morto. Uma pulsação irregular mandava o sangue através dos membros quebrados.
Cure, pensou Holly. E a magia correu por seus dedos.
O troll encarava um dilema — Que fêmea comer antes. Escolhas, escolhas. Essa decisão não ficou mais fácil devido à agonia que se demorava zumbindo na cabeça peluda, ou ao monte de balas alojadas na gordura do peito. Por fim ele se decidiu pela moradora da superfície. Carne humana macia. Nada de músculos densos de fada para mastigar com dificuldade.
A fera se agachou, erguendo o queixo da garota com uma garra amarela. Uma jugular pulsante surgia preguiçosa por toda a extensão do pescoço. O coração ou o pescoço? , pensou o troll. O pescoço, estava mais perto. O bicho virou a garra de lado, até que a borda apertou de leve a macia carne humana. Um golpe rápido e o batimento cardíaco da garota expulsaria o sangue de seu corpo.
Butler acordou, o que em si foi uma surpresa. Soube imediatamente que estava vivo, por causa da dor insuportável em cada centímetro cúbico de seu corpo. Isso não era bom. Podia estar vivo, mas considerando o fato de que seu pescoço estava virado em cento e oitenta graus, ele jamais poderia sequer passear com o cachorro, quanto mais resgatar a irmã.
O mordomo mexeu os dedos. Doíam como o diabo, mas pelo menos havia movimento. Era espantoso que ele tivesse algum motor funcionando, considerando o trauma que sua coluna havia sofrido. Os dedos dos pés também pareciam bem, mas poderia ser uma reação fantasma, já que ele não podia vê-los.
O sangramento no peito parecia ter parado, e ele estava pensando com coerência. No total, estava em condições muito melhores do que deveria. O quê, em nome do céu, estava acontecendo aqui?
Butler percebeu uma coisa. Havia fagulhas azuis dançando em seu tronco. Ele devia estar alucinando, criando imagens agradáveis para se distrair do inevitável. Uma alucinação muito realista, deve-se dizer.
As fagulhas se concentravam nas áreas traumatizadas, afundando na pele. Butler estremeceu. Isso não era alucinação. Alguma coisa extraordinária estava acontecendo.
Magia.
Magia? Isso fez soar alguma coisa em seu crânio recém-consertado. Magia das fadas. Alguma coisa estava curando seus ferimentos. Virou a cabeça, fazendo uma careta de dor quando as vértebras rasparam umas nas outras. Havia uma mão pousada em seu braço. Fagulhas fluíam dos finos dedos élficos, intuitivamente procurando feridas, ossos quebrados ou cortes. Havia muitos ferimentos a ser tratados, mas as fagulhas minúsculas cuidaram de tudo com rapidez e eficiência. Como um exército de castores místicos consertando os danos causados por uma tempestade.
Na verdade Butler podia sentir seus ossos se emendando e o sangue recuando de cascas de ferida semicoaguladas. Sua cabeça girou involuntariamente enquanto as vértebras se encaixavam nos nichos, e a força voltou num jorro enquanto a magia reproduzia os três litros de sangue perdidos pelo ferimento no peito.
Butler saltou de pé — saltou mesmo. Ele era ele de novo. Não.
Era mais do que isso. Estava mais forte do que nunca. O bastante para atacar de novo aquela fera curvada sobre sua irmãzinha.
Sentiu o coração rejuvenescido se acelerar como um motor de popa sendo acionado. Calma, disse Butler a si mesmo. A paixão é inimiga da eficiência. Mas, com ou sem calma, a situação era desesperadora. A fera já o havia matado uma vez, e desta vez ele não tinha a Sig Sauer. Deixando de lado suas habilidades, seria ótimo ter uma arma. Alguma coisa pesada. Sua bota bateu num objeto metálico. Butler olhou para o entulho que restava da passagem do troll... Perfeito.
Havia apenas chuviscos na tela.
— Ande — insistiu Raiz. — Depressa!
Potrus passou por seu superior.
— Se você não insistisse em bloquear todos os painéis de circuito!
Raiz saiu do caminho, de má vontade. Em sua mente a culpa era dos painéis de circuito, por estarem atrás dele. A cabeça do centauro desapareceu numa portinhola de acesso.
— Alguma coisa?
— Nada. Só interferência.
Raiz bateu na tela. Não era boa idéia. Primeiro porque não havia uma chance em um milhão de que isso ajudasse, e segundo porque as telas de plasma ficam extremamente quentes depois de uso prolongado.
— D’Arvit!
— Não toque nessa tela, a propósito.
— Oh, ha ha. Agora temos tempo para piadas, é?
— Na verdade, não. Alguma coisa?
O chuvisco se assentou em formas reconhecíveis.
— É isso, segure aí. Temos um sinal.
— Eu ativei a câmera secundária. Infelizmente é vídeo simples, antigo, mas terá de servir.
Raiz não comentou. Estava olhando a tela. Isso devia ser um filme. Não podia ser a vida real.
— Então o que está acontecendo? Alguma coisa interessante?
Raiz tentou responder, mas seu vocabulário de soldado não tinha os superlativos adequados.
— O que é? O que é?
O comandante fez uma tentativa:
— É... o humano... eu nunca... Ah, esqueça, Potrus. Você terá de ver por si mesmo.

Holly viu todo o episódio através de uma abertura nas dobras da tapeçaria. Se não tivesse visto, não acreditaria. Na verdade, só quando reviu o videoteipe para fazer o relatório ela teve certeza de que a coisa toda não foi uma alucinação provocada por uma experiência de quase-morte. A seqüência em vídeo se transformou numa espécie de lenda, inicialmente sendo mostrada nos programas a cabo de Filmes domésticos amadores e terminando no currículo de luta corpo-a-corpo da academia.
O humano, Butler, estava vestindo uma armadura medieval. Por incrível que parecesse, ele pretendia lutar com o troll.
Holly tentou alertá-lo, tentou fazer algum som, mas a magia ainda não havia inflado de novo seus pulmões esmagados.
Butler fechou o visor, levantando uma clava maligna.
— Agora — grunhiu ele. — Vou mostrar o que acontece com quem encosta a mão na minha irmã.
O humano girou a clava como se fosse um bastão de chefe de torcida, acertando-a entre as omoplatas do troll. Um golpe daqueles, apesar de não ser fatal, certamente distraiu o troll de sua vítima.
Butler plantou o pé logo acima dos quadris da fera e puxou a arma. Ela se soltou com um som enjoativo, sugado. Ele recuou, assumindo uma postura de defesa.
O troll se virou para ele, todas as dez garras se estendendo totalmente. Gotas de veneno brilhavam na ponta de cada presa. Chega de brincadeira. Mas desta vez não haveria um ataque relâmpago. O monstro estava cauteloso, tinha sido machucado.
Este último atacante receberia o mesmo respeito dado a outro macho de sua espécie. Para o troll, seu território estava sendo invadido. E havia apenas um modo de solucionar uma disputa dessa natureza. O mesmo modo pelo qual os trolls resolviam qualquer disputa...
— Devo lhe avisar — Disse Butler, impassível. — Eu estou armado e preparado para usar força mortal, se necessário.
Holly teria gemido, se pudesse. Zombaria! O humano estava tentando atrair o troll para uma troca de insultos machistas.
Então a capitã Short percebeu seu erro. As palavras não eram importantes, era o tom que ele empregava. Calmo, tranqüilizador. Como um treinador com um unicórnio assustado.
— Afaste-se dela. Calma agora.
O troll estufou as bochechas e uivou. Tática de amedrontamento. Testando o terreno. Butler não se abalou.
— É, é. Assustador de verdade. Agora recue e saia pela porta, e eu não terei de parti-lo em pedacinhos.
O troll fungou, perplexo com aquela reação. Geralmente seu rugido fazia qualquer criatura correr pelo túnel.
— Um passo de cada vez. Direitinho e devagar. Calma aí, amigão.
Quase dava para ver nos olhos do troll. Um tremor de incerteza. Talvez esse humano fosse...
E foi então que Butler atacou. Dançou debaixo das presas, dando um golpe devastador, de baixo para cima, com sua arma medieval. O troll cambaleou para trás, com as garras se agitando loucamente. Mas era tarde demais: Butler tinha saído do alcance, indo para o outro lado do corredor.
O troll cambaleou atrás dele, cuspindo dentes soltos das gengivas transformadas em polpa. Butler se ajoelhou, deslizando e girando no chão encerado como se ele fosse um patinador.
Abaixou-se e fez uma pirueta, virando de frente para o monstro.
— Adivinha O que eu achei? — Falou, levantando a Sig Sauer.
Dessa vez nada de tiros no peito. Butler esvaziou o resto do pente da automática num círculo de dez centímetros de diâmetro entre os olhos do troll. Infelizmente para Butler, devido a milênios passados se chocando uns contra os outros, os trolls desenvolveram uma grossa cobertura de osso acima das sobrancelhas. De modo que os tiros dados em obediência ao manual não penetraram no crânio, apesar de as balas terem cobertura de teflon.
Mas dez balas Devastador não podem ser ignoradas por nenhuma criatura no planeta, e o troll não era exceção. As balas marretaram uma tatuagem em seu crânio, causando uma concussão instantânea. O animal cambaleou para trás, batendo na própria testa. Butler estava atrás dele numa fração de segundo, acertando um dos pés peludos com os espetos da clava.
O troll tinha sofrido uma concussão, estava cego pelo sangue, e aleijado. Uma pessoa normal sentiria uma ponta de remorso, mas não Butler. Ele tinha visto muitos homens sendo rasgados por animais feridos. Agora era a hora perigosa. Não era hora de misericórdia, era hora de terminar, com dano extremo.
Holly só pôde olhar impotente enquanto o humano mirava com cuidado e dava uma série de golpes na criatura ferida. Primeiro acertou nos tendões, fazendo o troll cair de joelhos, depois abandonou a clava e passou a trabalhar com as mãos dentro das luvas da armadura, talvez mais mortais do que a clava tinha sido.
O infeliz troll lutou pateticamente, até conseguindo acertar alguns socos. Mas eles não conseguiram penetrar na armadura antiga.
Enquanto isso Butler cortava como um cirurgião. Partindo da suposição de que a psique dos trolls e dos humanos era basicamente igual, deu golpe após golpe na criatura imbecil, reduzindo-a em alguns segundos a um monte de pêlos trêmulos. Foi de dar pena.
E o mordomo ainda não havia terminado. Tirou as luvas ensangüentadas e colocou um pente novo na arma.
— Vejamos quanto osso você tem debaixo do queixo.
— Não — ofegou Holly, com a primeira respiração em seu corpo. — Não!
Butler a ignorou, enfiando o cano debaixo do queixo do troll.
— Não faça isso... Você me deve uma.
Butler fez uma pausa. Juliet estava viva, era verdade. confusa, certamente, mas viva. Ele usou o polegar para recolocar o percussor da pistola. Cada célula em seu cérebro gritava para ele apertar o gatilho. Mas Juliet estava viva.
— Você me deve, humano.
Butler suspirou. Iria se arrepender disso mais tarde.
— Muito bem, capitã. A fera vive para lutar mais um dia. Sorte dele, eu estou de bom humor.
Holly fez um ruído. Era algo entre um gemido e um risinho.
— Agora vamos nos livrar de nosso amigo peludo.
Butler rolou o troll inconsciente para cima de um carrinho de transportar armaduras. Com um esforço enorme, empurrou o trambolho para a noite suspensa.
— E não volte! — gritou.
— Espantoso — Disse Raiz.
— Não diga — concordou Potrus.

Nenhum comentário: