Havia maneiras menos questionáveis de produzir subprodutos de óleo.
A câmera minúscula escondida no localizador tinha funcionado perfeitamente. Com suas imagens de alta resolução, ele havia captado os reveladores cristais da respiração da criatura.
Artemis consultou o monitor de vigilância do porão. Sua prisioneira estava sentada no catre, com a cabeça nas mãos.
Artemis consultou o monitor de vigilância do porão. Sua prisioneira estava sentada no catre, com a cabeça nas mãos.
Artemis franziu a testa. Não esperava que a fada parecesse tão... humana. Até agora eles tinham sido apenas caça. Animais a serem apanhados. Mas vendo uma assim, num óbvio desconforto, as coisas mudavam.
Pôs o computador em modo de espera e foi até a porta. Hora de uma conversinha com a hóspede. No instante em que suas mãos iam encostando na maçaneta de latão, a porta se abriu diante dele. Juliet apareceu, com as bochechas avermelhadas por causa da pressa.
— Artemis — ofegou ela. — A sua mãe. Ela...
Artemis sentiu uma bola de chumbo cair em seu estômago.
— O quê?
— Bom, ela está dizendo, Artemis... Artemis, que o seu...
— Sim, Juliet. Pelo amor de Deus, o que é?
Juliet pôs as mãos na boca, se recompondo. Depois de vários segundos abriu os dedos com as unhas pintadas, falando entre eles.
— É o seu pai, senhor. Madame Fowl disse que ele voltou!
Numa fração de segundo Artemis podia jurar que seu coração tinha parado. Papai? De volta? Seria possível? Claro que ele sempre acreditara que o pai estava vivo. Mas ultimamente, desde que tinha armado o esquema das fadas, era quase como se o pai tivesse sumido de sua mente.
Sentiu a culpa borbulhar no estômago. Tinha desistido. Desistido do próprio pai.
— Você o viu, Juliet? Com seus olhos?
A garota balançou a cabeça.
— Não, Artemis, senhor. Só escutei vozes. No quarto. Mas ela não me deixou entrar. Por nada do mundo. Nem com uma bebida quente.
Artemis calculou. Tinham voltado há apenas uma hora. Seu pai poderia ter passado por Juliet. Era possível. Era. Olhou o relógio, sincronizado com o horário padrão de Greenwich através de uma atualização constante por sinais de rádio. Três da madrugada. O tempo estava passando. Todo o seu plano dependia de as fadas darem o próximo passo antes da luz do dia.
Artemis levou um susto. Estava fazendo aquilo de novo, deixando a família de lado. Em que estava se transformando?
Seu pai era a prioridade, e não algum esquema para ganhar dinheiro.
Juliet ainda estava na porta, observando-o com aqueles enormes olhos azuis. Esperando que ele tomasse uma decisão, como sempre. E pela primeira vez havia indecisão nítida em suas feições pálidas.
— Muito bem — Murmurou ele por fim. — É melhor eu subir lá imediatamente.
Artemis passou pela garota, subindo a escada de dois em dois degraus. O quarto de sua mãe ficava dois andares acima, num sótão convertido.
Hesitou junto à porta. O que diria se o pai tivesse voltado milagrosamente? O que faria? Era ridículo ficar perturbado com isso. Impossível prever. Bateu levemente.
— Mamãe?
Não houve resposta, mas ele pensou ter ouvido um risinho e se transportou instantaneamente ao passado. Inicialmente este quarto tinha sido uma sala íntima dos pais. Eles se sentavam durante horas na espreguiçadeira, conversando como crianças na escola, alimentando os pombos ou olhando os navios que passavam no estreito de Dublin. Quando Artemis Pai tinha desaparecido, Angeline Fowl se tornou cada vez mais ligada àquele espaço, até que se recusou totalmente a sair de lá.
— Mamãe? Você está bem?
Vozes abafadas lá dentro. Sussurros conspiratórios.
— Mamãe, eu estou entrando.
— Espere um momento. Timmy, pare com isso, seu monstro! Nós temos companhia.
Timmy? O coração de Artemis bateu como um tambor no peito. Timmy era como ela chamava seu pai. Timmy e Arty.
Os dois homens da vida de Angeline. Ele não podia mais esperar. Passou pela porta dupla.
Sua primeira impressão foi de luz. A mãe tinha acendido as lâmpadas. Certamente um bom sinal. Artemis sabia onde sua mãe estaria. Sabia exatamente onde olhar. Mas não podia. E se... E se...
Sua primeira impressão foi de luz. A mãe tinha acendido as lâmpadas. Certamente um bom sinal. Artemis sabia onde sua mãe estaria. Sabia exatamente onde olhar. Mas não podia. E se... E se...
— Sim, em que podemos ajudá-lo?
Artemis se virou, de olhos ainda baixos.
— Sou eu.
Sua mãe gargalhou. Leve e despreocupada.
— Eu sei que é você, papai. Não pode dar ao seu menino uma noite de folga? Afinal de contas, é a nossa lua-de-mel.
Então Artemis soube. Era apenas uma escalada na loucura.
Papai? Angeline achava que Artemis era o avô dele. Morto há mais de dez anos. Levantou o olhar lentamente.
Sua mãe estava sentada na espreguiçadeira, resplandecente no vestido de noiva, o rosto coberto desajeitadamente com maquiagem. Mas isso não era o pior.
Ao lado dela havia uma imitação de seu pai, construída com o terno matinal que ele tinha usado naquele dia glorioso na catedral Christchurch há quatorze anos. As roupas estavam recheadas de pano, e em cima da camisa havia um travesseiro com um rosto pintado em batom. Era quase engraçado. Artemis sufocou um soluço, com as esperanças se desvanecendo como um arco-íris de verão.
— O que acha, papai? — Disse Angeline numa voz grave, fazendo o travesseiro se mexer como se fosse um ventríloquo manipulando o boneco. — Uma noite para o seu garoto, hein?
Artemis assentiu. O que mais poderia fazer?
— Então uma noite. Amanhã também. Seja feliz.
O rosto de Angeline irradiava uma alegria genuína. Ela saltou do sofá, abraçando o filho não reconhecido.
— Obrigada, papai. Obrigada.
Artemis devolveu o abraço, mesmo parecendo uma fraude.
— De nada, ma... Angeline. Agora preciso sair. Tenho negócios a resolver.
Sua mãe sentou-se ao lado do marido de imitação.
— Sim, papai. Vá. Não se preocupe, nós vamos nos divertir.
Artemis saiu. Não olhou para trás. Havia coisas a fazer. Fadas a ser extorquidas.
Não tinha tempo para o mundo de fantasia da mãe.
A capitã Holly Short estava com a cabeça apoiada nas mãos.
Numa das mãos, para ser exato. A outra coçava a lateral da bota, no lado que a câmera não podia ver. Na verdade sua cabeça estava clara como cristal, mas não faria mal se o inimigo acreditasse que ela continuava fora de combate. Talvez eles a subestimassem.
E esse seria o último erro que cometeriam na vida.
Os dedos de Holly se fecharam em volta do objeto que vinha machucando seu tornozelo. Ela soube imediatamente, pelos contornos, o que estava escondido ali. A bolota de carvalho!
Devia ter escorregado para dentro de sua bota durante toda aquela agitação perto da árvore. Podia ser uma saída vital. Ela só precisava de uma pequena área de terra, e seus poderes seriam restaurados.
Olhou disfarçadamente a cela em volta. Concreto recente, pela aparência.
Nenhuma rachadura ou canto soltando lascas.
Nenhuma rachadura ou canto soltando lascas.
Nenhum lugar onde enterrar sua arma secreta. Levantou-se hesitante, experimentando a estabilidade das pernas. Não estavam muito ruins, um pouco trêmulas nos joelhos, mas, afora isso, confiáveis. Foi até a parede, apertando o rosto e as palmas das mãos na superfície lisa. O concreto era fresco mesmo, muito recente. Ainda úmido em algumas partes. Sem dúvida sua prisão fora especialmente preparada.
— Procurando alguma coisa? — Disse uma voz. Uma voz fria, sem coração.
Holly recuou da parede. O garoto humano estava parado a menos de dois metros dela, os olhos escondidos atrás de óculos espelhados. Tinha entrado no quarto sem nenhum som.
Extraordinário.
— Sente-se, por favor.
Holly não queria se sentar, por favor. O que queria era incapacitar aquele moleque insolente com o cotovelo e arrancar o couro dele. Artemis podia ver isso em seus olhos. Achou divertido.
— Tendo idéias, não é, capitã Short?
Holly mostrou os dentes, isso bastava como resposta.
— Nós dois temos consciência total das regras aqui, capitã.
Esta é minha casa. Você deve obedecer aos meus desejos. São leis suas, não minhas. Obviamente meus desejos não incluem sofrer qualquer dano físico, ou que você tente sair desta casa.
Então Holly percebeu.
— Como você sabe o meu...
— Seu nome? Sua patente? — Artemis sorriu, mas não havia alegria no sorriso. — se você usa um crachá...
Inconscientemente Holly cobriu a etiqueta prateada em seu uniforme.
— Mas está escrito em...
— Gnomês. Eu sei. Por acaso sou fluente nessa língua. Bem como todo mundo em minha organização.
Holly ficou quieta um instante, processando essa revelação momentânea.
— Fowl — Disse ela, com intensidade —, você não tem idéia do que fez. Juntar os mundos assim pode significar desastre para todos nós.
Artemis deu de ombros.
— Eu não estou preocupado com todos nós, só comigo mesmo. E acredite, vou ficar perfeitamente bem. Agora sente-se, por favor.
Holly sentou-se, jamais afastando os olhos amendoados do monstro diminuto à sua frente.
— Então qual é este plano fantástico, Fowl? Deixe-me adivinhar: o domínio do mundo?
— Nada tão melodramático — Riu Artemis. — só riqueza.
— Um ladrão! — cuspiu Holly. — Você é só um ladrão!
Uma irritação atravessou as feições de Artemis, logo substituída por seu riso costumeiro, cheio de desprezo.
— Sim. Um ladrão, se você quiser. Mas nem um pouco só.
O primeiro ladrão interespécies do mundo.
O primeiro ladrão interespécies do mundo.
A capitã Short fungou.
— Primeiro ladrão interespécies! O Povo da Lama vem nos roubando há milênios. Por que você acha que nós vivemos no subterrâneo?
— Certo. Mas serei o primeiro a separar com sucesso uma fada de seu ouro.
— Ouro? Ouro? Humano idiota. Você não acredita honestamente naquela invencionice absurda sobre ouro. Algumas coisas não são verdade, você sabe.
Holly virou a cabeça para trás e gargalhou.
Artemis examinou as unhas pacientemente, esperando que ela terminasse. Quando as gargalhadas finalmente terminaram, ele balançou o indicador.
— Você está certa em rir, capitã Short. Por um tempinho eu acreditei na velha invencionice do ouro no fim do arco-íris, mas agora não. Agora sei da verba para resgates.
— Que verba para resgates?
— Ah, qual é, capitã! Por que se incomodar com a charada? Você mesma me disse.
— Eu... eu disse! — gaguejou Holly. — Ridículo!
— Olhe o seu braço.
Holly enrolou a manga direita. Havia um pequeno curativo de algodão colado na veia.
— Foi aí que administramos o pentotal. Comumente conhecido como soro da verdade. Você cantou como um passarinho.
Holly sabia que era verdade. De que outro jeito ele saberia?
— Você é louco!
Artemis assentiu, indulgente.
— Se eu ganhar, serei um prodígio. Se perder, sou louco.
É assim que a história é escrita.
É assim que a história é escrita.
Claro que não houvera nenhum pentotal, só uma picada inofensiva com uma seringa esterilizada. Artemis não se arriscaria a provocar um dano no cérebro de sua mina de ouro, mas também não podia se dar ao luxo de revelar o Livro como fonte dessa informação. Melhor deixar a refém achar que tinha traído seu povo.
Isso baixaria o moral dela, tornando-a mais suscetível aos jogos mentais. Mesmo assim o ardil o perturbou.
Era inegavelmente cruel. Até que ponto ele estava preparado a ir para conseguir esse ouro? Não sabia, e não saberia até a hora certa.
Holly se curvou, momentaneamente derrotada pela última informação. Tinha falado. Revelado segredos sagrados. Mesmo que conseguisse escapar, seria banida para algum túnel gélido sob o Círculo Ártico.
— Isso não terminou, Fowl — Disse ela enfim. — Nós temos poderes que você não pode conhecer. Demoraria dias descrevê-los todos.
O garoto irritante gargalhou de novo.
— Há quanto tempo você acha que está aqui?
Holly gemeu; sabia o que estava vindo.
— Algumas horas?
Artemis balançou a cabeça.
— Três dias — Mentiu. — Nós mantivemos você drogada por mais de sessenta horas... até você contar tudo que precisávamos saber.
Ao mesmo tempo em que as palavras saíam, Artemis sentia culpa. Esses jogos mentais estavam tendo um efeito óbvio em Holly, destruindo-a de dentro para fora. Haveria mesmo necessidade disso?
— Três dias? Você poderia ter me matado. Que tipo de...?
E foi aquele adjetivo mudo que lançou a dúvida no cérebro de Artemis. A fada o considerava tão mau que nem conseguia encontrar palavras.
Holly se controlou de novo.
— Bom, então, Sr. Fowl — cuspiu ela, cheia de desprezo. — Se sabe tanto sobre nós, então sabe o que vai acontecer quando me localizarem.
Artemis assentiu, distraído.
— Ah, sim, eu sei. Na verdade estou contando com isso.
Foi a vez de Holly rir.
— Ah, é mesmo. Diga, garoto, você já viu um troll?
Pela primeira vez a confiança do humano baixou um pouquinho.
— Não. Um troll, nunca.
Holly mostrou mais dentes.
— Vai ver, Fowl. Vai ver. E eu espero estar aqui para presenciar.
A LEP tinha estabelecido um quartel-general de operações na superfície em El Tara.
— Então? — Disse Raiz, dando um tapa num gremlin paramédico que estava aplicando ungüento para queimadura em sua testa. — Deixe para lá. A magia vai me dar um jeito logo.
— Então o quê? — perguntou Potrus.
— Não venha com seu papo furado hoje, Potrus, porque não é um daqueles dias do tipo, "Ah, estou tão impressionado com a tecnologia do pônei!". Diga o que descobriu sobre o humano.
Potrus fez um muxoxo, prendendo o chapéu de lata na cabeça. Em seguida levantou a tampa de um laptop fino como biscoito.
— Invadi o computador da Interpol. Não foi muito difícil, isso eu garanto. Eles podiam muito bem ter posto uma página de boas-vindas na...
Raiz tamborilou os dedos na mesa de reunião.
— Vá ao que interessa.
— Certo. Fowl. Um arquivo de dez gigabytes. Em termos de papel isso é meia biblioteca.
O comandante assobiou.
— É um humano ocupado.
— Uma família — corrigiu Potrus. — Os Fowl vêm subvertendo a justiça há gerações. Trambiques, roubos, assalto à mão armada. No último século foram principalmente crimes empresariais.
— Então temos uma localização?
— Essa foi a parte fácil. A Mansão Fowl. Numa propriedade de oitenta hectares perto de Dublin. A Mansão Fowl fica a apenas vinte klicks de nossa posição atual.
Raiz mordeu o lábio inferior.
— Só vinte? Isso significa que podemos chegar lá antes do amanhecer.
— Sim. Resolver essa confusão antes que saia do controle sob os raios do sol.
O comandante assentiu. Este era o primeiro problema. As fadas não atuavam à luz natural há séculos. Mesmo quando viviam acima do solo, eram essencialmente criaturas noturnas.
O sol diluía a magia como se desbotasse uma foto. Se tivessem de esperar mais um dia antes de mandar uma força de ataque, quem sabia que danos Fowl poderia causar?
Até era possível que todo esse negócio estivesse orientado para a mídia, e amanhã o rosto da capitã Short estaria na capa de cada publicação do planeta. Raiz estremeceu. Isso provocaria o fim de tudo, a não ser que o Povo da Lama tivesse aprendido a coexistir com outras espécies. E se a história tinha lhe ensinado alguma lição, era que os humanos não se davam com ninguém, nem consigo mesmos.
— Certo. Todo mundo a postos. Vôo em padrão V. Estabelecer um perímetro dentro do terreno da mansão.
O Esquadrão de Resgate rugiu a confirmação em tom militar, provocando o maior ruído metálico possível com suas armas.
— Potrus, junte os técnicos. Siga-nos no lançador. E traga as parabólicas grandes. Vamos isolar toda a propriedade, ganhar um pouco de área de manobra.
— Uma coisa, comandante — Disse Potrus.
— Sim? – perguntou Raiz impaciente.
— Por que esse humano nos disse quem ele era? Devia saber que nós iríamos encontrá-lo.
Raiz deu de ombros.
— Talvez ele não seja tão inteligente quanto acha.
— Não. Não creio que seja isso. Não creio nem um pouco. Acho que ele está um passo à nossa frente o tempo todo, e que este fato não é diferente.
— Não tenho tempo para teorizar agora, Potrus. As primeiras luzes do dia estão chegando.
— Mais uma coisa, senhor.
— Isso é importante?
— Sim, acho que é.
— Bem?
Potrus apertou uma tecla em seu laptop, mostrando as características vitais de Artemis.
— Esta mente criminosa, a que está por trás desse esquema elaborado...
— Sim? O que é que tem?
Potrus ergueu a cabeça, com uma expressão quase admiradora em seus olhos dourados.
— Bom, ele só tem doze anos. E isso é ser jovem, mesmo para um humano.
Raiz fungou, enfiando uma bateria nova em sua arma de três canos.
— TV demais. Ele acha que é Sherlock Holmes.
— Que é o professor Moriarty — corrigiu Potrus.
— Holmes, Moriarty, os dois ficam iguais quando a carne do crânio é vaporizada.
E com essa elegante resposta, Raiz seguiu seu esquadrão para o ar da noite.
O Esquadrão de Resgate adotou a formação em V dos gansos, com Raiz na ponta. Voavam para o sudeste, seguindo as informações de vídeo mandadas por e-mail aos seus capacetes. Potrus havia marcado a Mansão Fowl com um ponto vermelho. A prova de idiotas, tinha murmurado ele ao microfone, apenas num volume suficiente para o comandante ouvir.
A peça central da propriedade Fowl era um castelo reformado, do fim da Idade Média/início do Renascimento, construído por lorde Hugh Fowl no século XV.
Os Fowl haviam se agarrado à Mansão Fowl no correr dos anos, sobrevivendo a guerras, agitações civis e várias auditorias fiscais. Artemis não pretendia ser o Fowl que iria perdê-la.
A propriedade era cercada por uma muralha de pedras de cinco metros provida de ameias, com as torres de guarda originais e passarelas. O Esquadrão de Resgate parou logo dentro dos limites e começou um exame imediato em busca de possíveis situações hostis.
— Separados por vinte metros — instruiu o comandante.
— Fazer varredura na área. Fazer contato a cada sessenta segundos. Está claro?
O esquadrão confirmou. Claro que estava claro. Eles eram profissionais.
O tenente Porrete, líder do Esquadrão de Resgate, subiu numa torre de guarda.
— Sabe o que devemos fazer, Julius?
Ele e Raiz tinham freqüentado a Academia juntos, foram criados no mesmo túnel. Porrete era talvez uma das cinco criaturas do Povo das Fadas que chamavam Raiz pelo primeiro nome.
— Acho que você sabe o que devemos fazer.
— Deveríamos explodir esse lugar inteiro.
— Que surpresa!
— É o modo mais simples. Uma enxagüadora azul e nossas perdas seriam mínimas.
Enxagüadora azul era a gíria para a devastadora bomba biológica usada em raras ocasiões pela força policial. O aspecto inteligente numa bomba biológica era que ela destruía apenas tecidos vivos. A paisagem não era alterada.
— A perda mínima da qual você está falando, por acaso, é uma das minhas policiais.
— Ah, sim — cantarolou Porrete. — Uma policial do Recon. O caso em teste. Bom, não creio que você terá problema em justificar essa solução tática.
O rosto de Raiz assumiu aquele familiar tom vermelho-escuro.
— A melhor coisa que você pode fazer agora é ficar fora do meu caminho, caso contrário serei forçado a enfiar aquela enxagüadora azul nesse lamaçal que você chama de cérebro.
Porrete não se abalou.
— Insultar não muda os fatos, Julius. Você sabe o que diz o Livro. Nós não podemos, sob nenhuma circunstância, deixar que os Elementos de Baixo fiquem prejudicados. Uma parada temporal é tudo que você tem, e depois disso...
O tenente não terminou o que ia dizer. Não precisava.
— Eu sei o que diz o Livro — Rugiu Raiz. – só queria que você não fosse tão fanático com relação a isso. Se eu não o conhecesse melhor, diria que há um pouco de sangue humano em você.
— Não precisa falar assim — Reagiu Porrete, chateado. — Eu só estou fazendo o meu serviço.
— Está certo — admitiu o comandante. — Desculpe.
Não era comum ouvir Raiz pedir desculpas, mas tinha sido um insulto muito ofensivo.
Butler estava nos monitores.
— Alguma coisa? — perguntou Artemis.
Butler levou um susto; não tinha ouvido o jovem patrão entrar.
— Não. Nada. Uma ou duas vezes pensei ter visto um tremor, mas não era nada.
— Nada é nada — comentou Artemis enigmaticamente. — Use a nova câmera.
Butler assentiu. No mês anterior Artemis Fowl tinha comprado uma câmera de cinema pela internet. Dois mil quadros por segundo, recentemente desenvolvida pela Industrial Light and Magic para tomadas especiais da natureza, asas de beija-flores e coisas do tipo. Processava imagens mais depressa do que o olho humano. Artemis tinha mandado instalá-la atrás de um querubim, em cima da entrada principal.
Butler ativou o controle.
— Onde?
— Tente a avenida. Tenho a sensação de que os visitantes estão a caminho.
O empregado manipulou com os dedos enormes a alavanca do tamanho de um palito de dentes. Uma imagem surgiu no monitor digital.
— Nada — Murmurou Butler. — Calmo como uma sepultura.
Artemis apontou para o painel de controle.
— Congele.
Butler quase questionou a ordem. Quase. Em vez disso conteve a língua e apertou o controle. Na tela, as cerejeiras congelaram, flores presas no meio do ar. Mais importante, cerca de uma dúzia de figuras vestidas de preto apareceram subitamente na avenida.
— O quê! — Exclamou Butler. — De onde eles brotaram?
— Eles estão escudados — Explicou Artemis. — Vibrando em alta velocidade. Rápido demais para os olhos humanos seguirem...
— Mas não para a câmera — assentiu Butler. Esse era o patrão Artemis! Sempre dois passos à frente. — Se ao menos eu pudesse carregá-la comigo.
— Se ao menos. Mas temos uma segunda opção...
Artemis pegou um equipamento em cima da bancada. Eram os restos do capacete de Holly. Obviamente tentar enfiar a cabeça de Butler no capacete íntegro seria como enfiar uma batata num dedal. Apenas os visores e os botões de controle estavam intactos. Tinham sido presos nas tiras de um capacete de operário, para se ajustarem ao crânio do empregado.
— Esta coisa é equipada com vários filtros. Faz sentido imaginar que um deles é antiescudo. Vamos tentar, certo?
Artemis pôs o equipamento acima das orelhas de Butler.
— Obviamente, com a distância entre seus dois olhos, haverá alguns pontos cegos, mas isso não deve atrapalhar demais. Agora ligue a câmera.
Butler acionou a câmera de novo, enquanto Artemis experimentava um filtro depois do outro.
— Agora?
— Não.
— Agora...
— Tudo ficou vermelho. Ultravioleta. Nenhuma fada.
— Agora?
— Não. Polaroid, eu acho.
— O último.
Butler sorriu. Como um tubarão que tivesse visto um traseiro pelado.
— Estou vendo.
Butler estava vendo o mundo como ele era, completo, com equipe de resgate da LEP fazendo varredura na avenida.
— Hmm — Disse Artemis. — Variação estroboscópica, imagino. Freqüência muito elevada.
— Estou vendo — brincou Butler.
— Metafórica ou literalmente? — sorriu o patrão.
— Exatamente.
Artemis estremeceu. Mais piadas. Daqui a pouco estaria usando sapatos de palhaço e dando cambalhotas no salão principal.
— Muito bem, Butler. Hora de você fazer o que faz melhor. Parece que temos intrusos na propriedade...
Butler se levantou. Não eram necessárias outras instruções.
Ele apertou as tiras do capacete, dirigindo-se à porta com passos rápidos.
— Ah, Butler!
— Sim, Artemis?
— Prefiro apavorados a mortos. Se possível.
Butler assentiu. Se possível.
A equipe Resgate Um era a melhor e mais inteligente. O sonho de cada criança do Povo das Fadas era um dia crescer e poder usar o macacão preto dos comandos do Resgate. Eles eram a elite. Seu apelido era encrenca. No caso do capitão Kelp, Encrenca era de fato o seu primeiro nome. Ele tinha insistido nisso, em sua cerimônia de entrada na vida adulta, logo depois de ser aceito na Academia.
Encrenca liderava sua equipe pela ampla avenida. Como sempre, ele ocupava a posição na ponta, decidido a ser o primeiro na refrega se, como esperava com fervor, surgisse uma refrega.
— Verificando — sussurrou ele no microfone que se projetava do capacete como uma cobra.
— Negativo no um.
— Nada, capitão.
— Um enorme chongas, Encrenca.
O capitão Kelp se eriçou.
— Estamos no campo, cabo. Siga o procedimento.
— Mas a mamãe disse!
— Não interessa o que a mamãe disse, cabo! Patente é patente! Você vai me chamar de capitão Kelp.
— Sim, senhor, capitão — Disse o cabo, carrancudo. – Mas não peça para eu passar sua túnica outra vez.
Encrenca sintonizou o canal de seu irmão, isolando o resto da equipe.
— Não fale sobre a mamãe, certo? E sobre passar roupas. Você só está nesta missão porque eu requisitei! Agora comece a agir como profissional ou volte para o perímetro!
— Certo, Crencs.
— Encrenca! — gritou o capitão Kelp. — É Encrenca. E não Crencs, ou Crenc. Encrenca! Certo?
— Certo. Encrenca. Mamãe está certa. Você não passa de um bebê.
Xingando de modo muito pouco profissional, o capitão Kelp sintonizou de novo o canal aberto. Na hora exata para ouvir um som incomum.
— Arrkk.
— O que foi isso?
— O quê?
— Não sei.
— Nada, capitão.
Mas Encrenca fora treinado em Reconhecimento de Sons para a prova de capitão, e tinha bastante certeza de que o "Arrkk" tinha sido causado por alguém levando uma cutelada na traquéia. Provavelmente seu irmão tinha trombado num arbusto.
— Larva? Você está bem?
— Aqui é o cabo Larva.
Kelp chutou uma margarida, maldosamente. — Verificando posições. Em seguida silêncio.
— Um, OK.
— Dois, legal.
— Três, chateado mas vivo.
— Cinco se aproximando da ala oeste.
Kelp congelou.
— Esperem. Quatro? Está aí, Quatro? Qual é a sua situação?
Nada, a não ser estática.
— Certo. O Quatro está fora do ar. Possivelmente falha no equipamento. Mesmo assim não podemos correr riscos.
Reagrupar perto da porta principal.
A equipe Resgate Um se juntou, fazendo ligeiramente menos ruído do que uma aranha tecelã. Kelp fez uma rápida contagem. Onze. Um a menos do que o número total. Provavelmente O Quatro estava andando pelas roseiras, imaginando por que ninguém falava com ele.
Então Encrenca percebeu duas coisas: uma, um par de botas pretas se projetando de um arbusto perto da porta, e duas, havia um humano enorme parado ao lado da porta. A figura segurava uma arma de aparência muito maligna apoiada no braço.
— Silêncio — sussurrou Kelp, e imediatamente onze visores de rosto inteiro baixaram, lacrando os sons da respiração e das comunicações de seu esquadrão.
— Agora, ninguém entre em pânico. Acho que posso rastrear a seqüência de acontecimentos aqui. Quatro estava espreitando fora da porta. O Homem da Lama a abriu. Quatro levou uma cacetada na nuca e foi parar nos arbustos. Sem problema. Nosso disfarce está intacto. Repito, intacto.
Então nada de coceira nos dedos.
- Larva... Desculpe, cabo Kelp, verifique a situação do Quatro. O resto de vocês abram espaço e fiquem quietos.
O esquadrão recuou cuidadosamente até estarem em cima de uma cerca viva bem aparada. A figura diante deles era realmente impressionante, sem dúvida o maior humano que qualquer um tinha visto.
— D’Arvit — sussurrou Dois.
— Manter silêncio de rádio, a não ser em emergências — ordenou Kelp. — Xingar não é uma emergência. — Mas, secretamente, ele concordava com o sentimento. Essa era uma ocasião em que estava feliz por ficar escudado. Aquele sujeito parecia capaz de esmagar uma dúzia de criaturas das fadas com apenas um dos punhos enormes.
Larva voltou ao seu lugar.
— O Quatro permanece estável. Sofreu uma concussão, acho. Mas afora isso, OK. Mas o escudo dele falhou, por isso eu o escondi nos arbustos.
— Muito bem, cabo. Bem pensado.
A última coisa de que precisavam era que as botas de Quatro fossem vistas.
O homem se mexeu, andando casualmente pelo caminho.
Podia ter olhado à esquerda e à direita, era difícil dizer por causa do capuz em cima dos olhos.
Estranho, para um humano, usar capuz numa noite tão bonita.
— Soltar travas de segurança — ordenou Encrenca.
Ele imaginou seus homens revirando os olhos. Como se não estivessem com as travas soltas durante a última meia hora.
Mesmo assim era preciso seguir o manual, para o caso de um processo, mais tarde. Houve uma época em que o Resgate atirava primeiro e nunca respondia a perguntas. Mas agora não. Agora havia sempre algum civil bem-intencionado alegando sobre direitos civis. Até para os humanos, dá para acreditar?
O homem montanha parou, bem no meio do esquadrão.
Se o sujeito pudesse vê-los, seria a perfeita posição tática. As armas de fogo deles estavam praticamente inúteis, porque provavelmente causariam mais danos uns aos outros do que ao humano.
Felizmente todo o esquadrão estava invisível, com exceção de Quatro, escondido em segurança no que parecia ser um rododendro.
— Cassetetes elétricos. Acionar.
Só para garantir. Não fazia mal ser cauteloso.
E quando os policiais da LEP estavam trocando de armas, justo naquele momento em que suas mãos se ocupavam com os coldres, foi que o Homem da Lama falou.
— Boa noite, cavalheiros — Disse ele, puxando o capuz para trás.
Engraçado, pensou Encrenca. Era quase como se... Então ele viu os óculos montados precariamente.
— Cubram-se! — gritou. — Cubram-se!
Mas era tarde demais. Não havia opção além de permanecer e lutar. E isso não era opção.
Butler poderia tê-los derrubado do parapeito onde estava antes. Um de cada vez, com o fuzil do caçador de marfim. Mas esse não era o plano. O negócio era causar impressão. Mandar uma mensagem. Era um procedimento padrão com qualquer força policial do mundo mandar a bucha de canhão primeiro, antes de negociar. Era quase esperado que eles encontrassem resistência, e Butler ficou feliz em confirmar isso.
Butler poderia tê-los derrubado do parapeito onde estava antes. Um de cada vez, com o fuzil do caçador de marfim. Mas esse não era o plano. O negócio era causar impressão. Mandar uma mensagem. Era um procedimento padrão com qualquer força policial do mundo mandar a bucha de canhão primeiro, antes de negociar. Era quase esperado que eles encontrassem resistência, e Butler ficou feliz em confirmar isso.
Espiou através da fenda de correspondência e, coincidência feliz, havia um par de olhos com óculos espiando de volta para ele. Era uma sorte muito grande para deixar passar.
— Hora de dormir — Disse Butler, abrindo a porta com o ombro poderoso. A criatura das fadas voou vários metros antes de cair no arbusto. Juliet ficaria arrasada. Ela adorava os rododendros. Um a menos. Faltavam vários.
Butler levantou o capuz de sua jaqueta, saindo para a varanda. Eles estavam ali, espalhados como um esquadrão de Action Men. Se não fosse a quantidade de armamento de aparência muito profissional pendurada em cada cinto, teria sido quase cômico.
Enfiando o dedo casualmente sob a guarda do gatilho, Butler foi para o meio deles. O atarracado na posição de duas horas estava dando as ordens. Dava para ver pelas cabeças inclinadas na direção dele.
O líder deu um comando e o esquadrão mudou para armas de curto alcance. Fazia sentido, eles só poderiam se machucar uns aos outros, se usassem armas de fogo. Hora de agir.
— Boa noite, cavalheiros — Disse Butler. Ele não pôde evitar, e valeu a pena aquele momento de consternação. Então sua arma estava levantada e chamejando.
O capitão Kelp foi a primeira baixa, um dardo de ponta de titânio furou o pescoço de seu macacão. Ele caiu lentamente, como se o ar tivesse se transformado em água. Mais dois do esquadrão foram derrubados antes que tivessem alguma idéia do que estava acontecendo.
Deve ser bastante traumático, pensou Butler sem qualquer emoção, perder uma vantagem que você teve durante séculos.
Agora os demais integrantes do Resgate Um estavam com seus bastões elétricos acionados e a postos. Mas cometeram o erro de ficar parados, esperando um comando que não vinha.
Isso deu a Butler a oportunidade de tomar a iniciativa da luta. Como se precisasse de mais uma
vantagem.
Mesmo assim, o mordomo hesitou um segundo. Aqueles seres eram pequenos demais. Como crianças. Então Larva o acertou no cotovelo com seu cassetete elétrico e 1.000 volts se espalharam pelo peito de Butler. Toda a simpatia pelo povo pequeno desapareceu instantaneamente.
Butler agarrou o bastão que o acertou, girando a arma e a criatura que a segurava como se fosse um jogo de boleadeiras.
Larva guinchou quando foi solto, e seu ímpeto recém-encontrado lançou-o em cima dos colegas.
Butler continuou o movimento giratório, dando socos no peito de mais duas criaturas. Outra montou em suas costas, acertando-o repetidamente com o bastão. Butler caiu em cima dela.
Butler continuou o movimento giratório, dando socos no peito de mais duas criaturas. Outra montou em suas costas, acertando-o repetidamente com o bastão. Butler caiu em cima dela.
Alguma coisa estalou e as ferroadas pararam.
De repente havia um cano debaixo de seu queixo. Um membro da equipe do Resgate tinha conseguido sacar sua arma.
— Parado, Garoto da Lama — Soou uma voz filtrada pelo capacete. Era uma arma de aparência séria, um líquido resfriador borbulhava em toda a extensão. — Só me dê um motivo.
Butler revirou os olhos. Raça diferente, os mesmos clichês machistas. Ele deu um tapa na criatura. Para o homenzinho deve ter sido como o céu caindo na cabeça.
— Isso é motivo suficiente para você?
Butler ficou de pé. Corpos de criaturas do Povo das Fadas se espalhavam ao redor, em vários estágios de choque e inconsciência. Definitivamente apavorados. Mortos, provavelmente não.
Missão cumprida.
Missão cumprida.
Mas um sujeitinho estava fingindo. Dava para ver pelo modo como os joelhos minúsculos batiam um no outro. Butler pegou-o pelo pescoço, com o polegar e o indicador facilmente se juntando do outro lado.
— Nome?
— L... Larva... quero dizer, cabo Kelp.
— Bom, cabo, diga ao seu comandante que, da próxima vez em que eu vir forças armadas vindo para cá, elas serão derrubadas por atiradores de elite. E não serão dardos. Balas para perfurar blindagem.
— Sim, senhor. Atiradores de elite. Entendi. Parece justo.
— Bom. Mas vocês têm permissão de retirar os feridos.
— Muito generoso da sua parte.
— Mas se eu vir ao menos o brilho de uma arma em algum médico, talvez eu me sinta tentado a detonar algumas das minas que plantei no terreno.
Larva engoliu em seco, a palidez aumentando por trás do visor.
— Médicos desarmados. Claro como água.
Butler pousou a criatura no chão, espanando sua túnica com dedos enormes.
— Agora. Última coisa. Está ouvindo?
Movimentos furiosos de cabeça, para confirmar.
— Quero um negociador. Alguém que possa tomar decisões. Não um pé-rapado que tenha de correr para a base depois de cada exigência. Entendido?
— Ótimo. Isto é, tenho certeza de que será ótimo. Infelizmente eu sou um dos pés-rapados. Então, veja bem, não posso garantir que estará ótimo...
Butler estava tremendamente tentado a mandar aquele sujeitinho de volta ao seu acampamento com um pontapé.
— Muito bem. Eu entendo. Só... feche a matraca!
Larva quase concordou, depois fechou a boca com força e assentiu.
— Bom. Agora, antes de você ir, pegue todas as armas e capacetes e faça uma pequena pilha ali.
Larva respirou fundo. Ah, bom, era melhor apagar como um herói.
— Não posso fazer isso.
— Ah, é mesmo? E por que não?
Larva se empertigou.
— Um policial da LEP nunca entrega sua arma.
Butler assentiu.
— É justo. Só perguntei por perguntar. Então vá.
Mal acreditando na sorte, Larva correu de volta para a torre de comando. Ele era a última criatura de pé. Encrenca estava roncando no cascalho, mas ele, Larva Kelp, tinha encarado o Monstro da Lama. Espere até mamãe ouvir isso.
Holly estava sentada na beira da cama, com os dedos enrolados em volta da base de metal. Levantou-a devagar, pegando o peso nos braços. A tensão ameaçou fazer os cotovelos saltarem dos braços. Sustentou-a durante um segundo, depois bateu com o pé da cama no concreto. Uma satisfatória nuvem de poeira e lascas girou em volta de seus tornozelos.
Holly estava sentada na beira da cama, com os dedos enrolados em volta da base de metal. Levantou-a devagar, pegando o peso nos braços. A tensão ameaçou fazer os cotovelos saltarem dos braços. Sustentou-a durante um segundo, depois bateu com o pé da cama no concreto. Uma satisfatória nuvem de poeira e lascas girou em volta de seus tornozelos.
— Bom — grunhiu ela.
Holly olhou para a câmera. Sem dúvida a estavam vigiando.
Não tinha tempo a perder. Flexionou os dedos, repetindo a manobra várias vezes, até a base de aço deixar marcas fundas na junta dos seus dedos. A cada impacto mais e mais lascas saltavam do chão de cimento fresco.
Depois de vários instantes a Porta da cela se abriu e Juliet entrou.
— O que você está fazendo? — ofegou ela. – Tentando derrubar a casa?
— Eu estou com fome! — gritou Holly. — E estou cheia de acenar para aquela câmera estúpida. Vocês não alimentam os prisioneiros? Eu quero Comida!
O punho de Juliet se fechou. Artemis tinha dito para ser educada, mas havia um limite.
— Não precisa perder as estribeiras desse jeito. O que vocês, fadas, Comem?
— Tem um pouco de golfinho? — perguntou Holly sarcasticamente.
Juliet estremeceu.
— Não, não, seu monstro!
— Então fruta. Ou legumes. Certifique-se de que estejam lavados. Não quero nenhum dos seus venenos químicos no meu sangue.
— Ha, ha, você é uma piada, é mesmo. Não se preocupe, todos os nossos produtos são cultivados organicamente. – Juliet parou junto à porta. — E não se esqueça das regras. Não tente escapar da casa. E também não precisa quebrar a mobília. Não me obrigue a demonstrar meu Nelson de esquerda.
Assim que os passos de Juliet deixaram de ser ouvidos, Holly começou a bater a cama no concreto. Esse era o negócio nas relações com as fadas. As instruções tinham de ser dadas olho no olho, e tinham de ser muito precisas. Só dizer que não precisava fazer alguma coisa não significava especificamente proibir um elfo de fazê-la. E outra coisa, Holly não tinha intenção de escapar da casa. O que não queria dizer que ela não pretendesse sair da cela.
Artemis tinha acrescentado outro monitor à fileira. Este estava ligado a uma câmera no quarto de Angeline Fowl, no sótão.
Ele parou um momento para verificar a mãe. Algumas vezes se incomodava por ter uma câmera no quarto dela; era quase como se estivesse espionando. Mas era para o bem dela. Havia sempre o perigo de ela se machucar. No momento Angeline estava dormindo em paz, depois de engolir o comprimido que Juliet tinha deixado na bandeja. Tudo parte do plano.
Parte vital, por acaso.
Butler entrou na sala de controle. Estava segurando um punhado de equipamento das fadas e esfregando o pescoço.
— Materialzinho interessante, dessas fadas.
Artemis ergueu os olhos da fileira de monitores.
— Algum problema?
— Nada de importante. Esses bastõezinhos têm uma tremenda potência. Como está nossa prisioneira?
— Ótima. Juliet foi pegar alguma coisa para ela comer. Acho que a capitã Short está ficando meio maluca.
Na tela, Holly estava batendo com a cama no concreto.
— É compreensível — Disse o mordomo. — Imagine a frustração dela. Não parece que vai conseguir cavar um túnel para sair.
Artemis sorriu.
— Não. Toda a propriedade foi construída numa base de pedra. Nem mesmo um anão poderia abrir um túnel para sair daqui. Ou para entrar.
Errado, por acaso. Tremendamente errado. Um marco na vida de Artemis Fowl.
A LEP tinha procedimentos para emergências assim. Supostamente esses procedimentos não incluíam o Esquadrão de Resgate ser derrotado por um só inimigo. Mesmo assim, isso apenas tornou o próximo passo ainda mais urgente, especialmente porque um levíssimo tom alaranjado surgia no céu.
A LEP tinha procedimentos para emergências assim. Supostamente esses procedimentos não incluíam o Esquadrão de Resgate ser derrotado por um só inimigo. Mesmo assim, isso apenas tornou o próximo passo ainda mais urgente, especialmente porque um levíssimo tom alaranjado surgia no céu.
— Tudo nos conformes? — berrou Raiz em seu microfone, como se ele não fosse sensível a qualquer sussurro.
Tudo nos conformes, pensou Potrus, ocupado prendendo a última parabólica numa torre de vigia. Aqueles militares e suas frases feitas. Tudo nos conformes, positivo e operante; não sei, passa adiante. Tão inseguros!
Em voz alta, falou:
— Não precisa gritar, comandante. Esses fones podem captar uma aranha arranhando em Madagascar.
— E há uma aranha arranhando em Madagascar?
— Bom... não sei. Na verdade elas não conseguem...
— Bom, pare de se desviar de assunto, Potrus, e responda à pergunta.
O centauro fez um muxoxo. O comandante entendia tudo tão literalmente! Em seguida plugou o modem de controle da parabólica em seu laptop.
— Certo. Estamos... nos conformes.
— Já não era sem tempo. Dedo no botão!
Pela terceira vez Potrus trincou seus dentes de cavalo. Ele era de fato o gênio incompreendido.
Dedo no botão, por favor. Raiz não tinha capacidade craniana para apreciar o que ele estava fazendo ali.
Parar o tempo não era apenas uma questão de apertar o botão de liga: havia uma série de procedimentos delicados que tinham de ser realizados com precisão absoluta. Caso contrário, a zona de parada poderia terminar como cinzas e gosma radioativa.
Mesmo sendo verdade que as fadas vinham parando o tempo há milênios, hoje em dia, com a comunicação por satélites e a internet, os seres humanos poderiam perceber se uma zona ficasse fora do tempo por algumas horas. Houve uma época em que você podia cobrir todo um país com um campo de parada e o Povo da Lama simplesmente acharia que os deuses estavam irados.
Mas agora não. Hoje os humanos tinham instrumentos para medir tudo, de modo que se fosse preciso parar o tempo, isso tinha de ser feito com ajuste fino e preciso.
Nos velhos tempos, cinco elfos bruxos formavam um pentagrama em volta do alvo e abriam um escudo mágico sobre ele, parando temporariamente o tempo dentro da área encantada.
Isso era bom na época, desde que os bruxos não tivessem de usar o banheiro.
Muitos cercos foram perdidos, porque um elfo havia tomado um copo de vinho a mais. Além disso os bruxos se cansam facilmente, e seus braços ficam doloridos. Num dia bom, você talvez conseguisse uma hora e meia, o que, para começar, não valia o trabalho.
Foi idéia de Potrus mecanizar todo o processo. Ele conseguiu que os bruxos fizessem seus feitiços em baterias de lítio, e depois espalhou um conjunto de antenas parabólicas receptoras em volta da área designada. Parece simples? Bem, não era. Mas havia vantagens nítidas. Para começar não havia mais disputas de poder. As baterias não tentam se gabar umas para as outras. Você podia calcular exatamente quantas células de potência eram necessárias, e os cercos podiam se estender por oito horas.
Por acaso a propriedade Fowl era a localização perfeita para a parada temporal — isolada e com uma fronteira definida.
Até mesmo tinha torres altas para as antenas parabólicas, veja só. Era quase como se Artemis Fowl quisesse que o tempo parasse... O dedo de Potrus hesitou sobre o botão. Poderia ser possível? Afinal de contas, o jovem humano estivera um passo adiante deles o tempo todo.
— Comandante?
— Já estamos on-line?
— Não exatamente. Há uma coisa...
A reação de Raiz quase estourou os alto-falantes no fone de ouvido de Potrus.
— Não, Potrus! Não há uma coisa! Nada de suas idéias brilhantes, muito obrigado. A vida da capitã Short está correndo perigo, então aperte o botão antes que eu suba nessa torre e o aperte com a sua cara!
— Sujeito irritado — Murmurou Potrus, e apertou o botão.
O tenente Porrete verificou seu luômetro.
— Você tem oito horas.
— Eu sei quanto tempo eu tenho — Rosnou Raiz. – E pare de me seguir. Não tem trabalho a fazer?
— Na verdade, agora que você falou, eu tenho uma biobomba para armar.
Raiz partiu para cima dele.
— Não me irrite, tenente. Ouvir você fazendo comentários o tempo todo não ajuda a minha concentração. Faça o que achar que tem de fazer. Mas esteja preparado para responder por isso num tribunal. Se esta coisa der errada, cabeças vão rolar.
— Vão mesmo — Murmurou Porrete, baixinho. — Mas a minha não será uma delas.
Raiz olhou o céu. Um campo azul trêmulo tinha baixado sobre a propriedade Fowl.
Bom. Estavam em limbo. Fora das muralhas a vida continuava num ritmo exagerado, mas se alguém conseguisse entrar na mansão Fowl, apesar das muralhas fortificadas e do portão alto, iria descobrir que ela estava deserta com todos os ocupantes presos no passado.
Bom. Estavam em limbo. Fora das muralhas a vida continuava num ritmo exagerado, mas se alguém conseguisse entrar na mansão Fowl, apesar das muralhas fortificadas e do portão alto, iria descobrir que ela estava deserta com todos os ocupantes presos no passado.
Então, pelas oito horas seguintes, Raiz não podia garantir a segurança de Holly. Dada a gravidade da situação, era mais do que provável que Cugeon recebesse a autorização para biobombardear o lugar inteiro. Raiz já vira uma enxagüadora azul.
Nenhuma criatura escapava, nem mesmo os ratos.
Raiz alcançou Potrus na base da torre norte. O centauro tinha estacionado um transporte junto à muralha de um metro de espessura. A área de trabalho já era uma confusão de fios emaranhados e fibras óticas pulsantes.
— Potrus? Você está aí?
A cabeça do centauro, coberta pelo boné de lata, emergiu da barriga de um disco rígido que estava com as entranhas escancaradas.
— Aqui, comandante. O senhor veio apertar um botão com a minha cara, imagino.
Raiz quase gargalhou.
— Não diga que está esperando que eu peça desculpas, Potrus. Eu já usei a minha cota de hoje. E isso basta para a vida inteira, amigo.
— Com o Porrete? Desculpe, comandante, mas eu não desperdiçaria minhas desculpas com o tenente. Ele não vai pedir desculpas quando o esfaquear pelas costas.
— Você está errado sobre ele. Porrete é um bom oficial. Um pouco ansioso, certamente, mas fará a coisa certa quando chegar a hora.
— A coisa certa para ele, talvez. Não creio que Holly esteja no topo das prioridades do tenente.
Raiz não respondeu. Não podia.
— E outra coisa. Eu tenho uma leve suspeita de que o jovem Artemis Fowl queria que nós parássemos o tempo. Afinal de contas, tudo que tentamos funcionou direto a favor dele.
Raiz esfregou as têmporas.
— Isso é impossível. Como um humano saberia sobre paradas temporais? De qualquer modo, não está na hora de teorizar, Potrus. Eu tenho menos de oito horas para limpar essa sujeira. Então, o que conseguiu para mim?
Potrus foi batendo os cascos até uma prateleira de equipamentos presa à parede.
— Nenhum armamento pesado, isso é certo. Não depois do que aconteceu com o Resgate Um. E também nada de capacete. Aquele Monstro da Lama parece colecioná-los. Não, para mostrar boa-fé, nós vamos mandá-lo desarmado e sem armadura.
Raiz fungou.
— De que manual você tirou isso?
— É padrão no procedimento operacional. Incentivar a confiança acelera a comunicação.
— Ah, pare de citar frases feitas e me dê algo para atirar.
— Sirva-se — suspirou Potrus, escolhendo na prateleira algo que parecia um dedo.
— O que é isso?
— Um dedo. Com o que se parece?
— Um dedo — admitiu Raiz.
— Sim, mas não um dedo comum. — Ele olhou em volta para se certificar de que mais ninguém estava observando.
— A ponta possui um dardo pressurizado. Só um disparo.
Você aperta o nó do dedo com o polegar e alguém cai no soninho.
— Por que eu não vi isso antes?
— É uma espécie de segredo...
— E? — perguntou Raiz cheio de suspeitas.
— Bom, houve acidentes...
— Conte, Potrus.
— Nossos agentes viviam esquecendo que estavam com ele.
— Ou seja, atiravam em si mesmos.
Potrus assentiu, arrasado.
— Um dos nossos melhores duendes estava limpando o nariz na hora. Ficou três dias na lista crítica.
Raiz enrolou o látex de memória em seu indicador, onde ele imediatamente assumiu a forma e o tom da carne do dedo hospedeiro.
— Não se preocupe, Potrus, não sou um completo idiota.
Mais alguma coisa?
Mais alguma coisa?
Potrus pegou o que parecia um traseiro falso na prateleira de equipamentos.
— Tá de brincadeira! O que esse negócio faz?
— Nada — admitiu o centauro. — Mas arranca tremendas risadas nas festas.
Raiz deu um risinho. Pela segunda vez. Era um grande lapso para ele.
— Certo, chega de bobagens. Vou levar material de vídeo e áudio?
— Naturalmente. Uma câmera de íris.
— Que cor? — Ele espiou os olhos do comandante. — Hmmm. Castanho lama. — Em seguida escolheu um pequeno frasco na prateleira e retirou as lentes de contato eletrônicas de dentro de uma cápsula de líquido. Segurando a pálpebra de Raiz com o polegar e o indicador, colocou no lugar a câmera de íris.
— Isso pode irritar. Tente não esfregar, ou ela pode ir parar na parte de trás do seu olho.
Então nós estaremos olhando dentro da sua cabeça, e não há nada de interessante lá, Deus sabe.
Então nós estaremos olhando dentro da sua cabeça, e não há nada de interessante lá, Deus sabe.
Raiz piscou, resistindo à vontade de coçar o olho lacrimoso.
— Só isso?
Potrus assentiu.
— É só o que ousamos arriscar.
O comandante concordou relutante. Seu quadril estava muito leve sem uma arma de três canos pendurada.
— Certo. Suponho que esse espantoso dardo de dedo vai ter de servir. Honestamente, Potrus, se esse negócio estourar na minha cara, você vai estar no próximo lançador para Refúgio.
O centauro deu um risinho de desprezo.
— Tenha cuidado quando for ao banheiro.
Raiz não riu. Com certas coisas não se brinca.
O relógio de Artemis tinha parado. Era como se Greenwich não existisse mais. Ou talvez, pensou, eles é que tivessem desaparecido. Verificou a CNN. Tinha congelado. Uma imagem de Riz Khan tremulava ligeiramente na tela. Artemis não pôde conter um sorriso de satisfação. Eles tinham feito, exatamente como dizia o Livro. A LEP tinha parado o tempo. Tudo de acordo com o plano.
Hora de verificar uma teoria. Artemis girou a cadeira até a fila de monitores e ligou a câmera da mãe no monitor principal, de setenta centímetros. Angeline Fowl não estava mais na espreguiçadeira. Artemis fez uma panorâmica no quarto. Estava vazio. Sua mãe tinha desaparecido. Seu sorriso se alargou.
Hora de verificar uma teoria. Artemis girou a cadeira até a fila de monitores e ligou a câmera da mãe no monitor principal, de setenta centímetros. Angeline Fowl não estava mais na espreguiçadeira. Artemis fez uma panorâmica no quarto. Estava vazio. Sua mãe tinha desaparecido. Seu sorriso se alargou.
Perfeito. Justo como ele havia suspeitado.
Em seguida passou a atenção para Holly Short. Ela estava de novo batendo com a cama. Ocasionalmente se levantava do colchão e socava a parede com os punhos. Talvez fosse mais do que frustração. Será que havia método em sua loucura? Ele batucou o monitor com o dedo magro.
— O que você está pretendendo, capitã? Qual é o seu planozinho?
E foi distraído por um movimento no monitor da avenida.
— Finalmente — suspirou. — O jogo começa.
Uma figura avançava pela avenida. Pequena, mas mesmo assim imponente. E sem escudo. Tinha acabado o teatro.
Artemis apertou o botão do interfone.
— Butler? Temos um convidado. Eu vou recebê-lo. Você volte para cá e fique de olho nas câmeras de vigilância.
A voz de Butler chegou minúscula pelo alto-falante.
— Entendido, Artemis. Estou voltando.
Artemis abotoou seu paletó de grife, parando no espelho para ajeitar a gravata. O truque para a negociação era segurar todas as cartas que você recebia e, mesmo se não fizesse isso, tentar parecer que tinha feito.
Artemis fez sua melhor cara sinistra. Maligno, disse a si mesmo, maligno mas tremendamente inteligente. E decidido, não se esqueça de decidido. Pôs a mão na maçaneta. Agora fique firme.
Respire fundo e tente não pensar na possibilidade de ter julgado mal a situação e estar a ponto de morrer com um tiro.
Um, dois, três... Abriu a porta.
— Boa noite — Disse ele, da cabeça aos pés um anfitrião gentil, ainda que um anfitrião sinistro, inteligente e decidido.
Raiz estava parado junto à porta, com as mãos para cima, o gesto universal para dizer: "Olhe, não estou segurando uma arma grande e assassina."
— Você é Fowl?
— Artemis Fowl, ao seu dispor. E o senhor é?
— Comandante Raiz, da LEP. Certo, nós sabemos o nome um do outro, então podemos prosseguir com isso?
— Sem dúvida.
Raiz decidiu avaliar suas chances.
— Então saia. Para onde eu possa vê-lo.
O rosto de Artemis se endureceu.
— O senhor não aprendeu nada com minhas demonstrações? O navio? Os seus comandos? Será que preciso matar alguém?
— Não — Disse Raiz apressadamente. — Eu só...
— O senhor só queria me atrair para fora, onde eu poderia ser agarrado e usado como meio de troca. Por favor, comandante Raiz, melhore o seu jogo ou mande alguém mais inteligente.
Raiz sentiu O sangue bombear nas bochechas.
— Ora, agora me escute, seu jovem...
Artemis sorriu, de novo no controle.
— Não é uma técnica muito boa de negociação, comandante, perder a calma antes mesmo de nos sentarmos à mesa.
Raiz respirou fundo várias vezes.
— Ótimo. Como quiser. Onde prefere que nós conversemos?
— Dentro, claro. O senhor tem permissão para entrar, mas, lembre-se, a vida da capitã Short está em suas mãos. Tenha cuidado.
Raiz seguiu o anfitrião pelo corredor em abóbada. Gerações de Fowl olhavam para ele de retratos clássicos. Passaram por uma porta de carvalho escuro até chegar a uma comprida sala de reuniões. Havia dois lugares arrumados numa mesa redonda, com blocos de anotações, cinzeiros e jarras d'água.
Raiz ficou deliciado ao ver os cinzeiros e imediatamente pegou no colete um charuto meio mastigado.
— Talvez você não seja tão bárbaro, afinal — grunhiu ele, exalando uma gigantesca nuvem de fumaça verde. O comandante ignorou as jarras d'água, em vez disso serviu-se de uma coisa roxa tirada de um frasco preso ao quadril. Bebeu um gole grande, arrotou e sentou-se.
— Pronto? — Artemis remexeu suas anotações, como um locutor de noticiário. — Eis como eu vejo a situação. Eu tenho meios de revelar sua existência subterrânea, e vocês não têm poder para me impedir. Então, basicamente, o que eu peço é um pequeno preço a pagar.
Raiz cuspiu um pedaço de fumo de fungo.
— Você acha que pode simplesmente colocar todas essas informações na internet.
— Bem, não imediatamente, não com a parada temporal acontecendo.
Raiz engasgou com a fumaça. Seu ás na manga. Estragado.
— Bom, se você sabe sobre a parada temporal, também deve saber que está completamente
isolado do mundo exterior. Na verdade está sem qualquer poder.
Artemis fez uma anotação no bloco.
— Vamos poupar algum tempo aqui. Eu estou cheio de seus blefes desajeitados. No caso de um seqüestro, primeiro a LEP manda uma equipe especial de resgate para recuperar o que foi perdido. Vocês fizeram isso. Desculpe-me se acho engraçado. Equipe especial? Honestamente. Uma patrulha de escoteiros armada com pistolas d'água poderia tê-los derrotado.
Raiz fumegou em silêncio, jogando a raiva contra a guimba do charuto.
— O próximo passo oficial é negociação. E finalmente, quando o limite de oito horas estiver para terminar, e se nenhuma solução for alcançada, uma biobomba é detonada, contida pelo campo temporal.
— Você parece saber muita coisa sobre nós, mestre Fowl. Creio que não vai me dizer como, não é?
— Correto.
Raiz esmagou o resto do charuto no cinzeiro de cristal.
— Então vamos lá: quais são suas exigências?
— Uma exigência. No singular.
Artemis empurrou o bloco de anotações por cima da mesa envernizada. Raiz leu o que estava escrito.
— Uma tonelada de ouro vinte e quatro quilates. Apenas lingotes pequenos e sem marcas. Você não pode estar falando sério.
— Ah, estou.
Raiz se recostou em sua cadeira.
— Você não vê? Sua posição é insustentável. Ou você nos devolve a capitã Short ou seremos forçados a matar todos vocês. Não há ponto intermediário. Nós não negociamos. Realmente. Eu só estou aqui para explicar os fatos.
Artemis deu seu sorriso de vampiro.
— Ah, mas o senhor vai negociar comigo, comandante.
— Ah, verdade? E o que o torna tão especial?
— Eu sou especial porque sei como escapar do campo temporal.
— Impossível — Fungou Raiz. — Não pode ser feito.
— Ah, pode. Acredite em mim, eu ainda não errei.
Raiz arrancou a folha do bloco, dobrando-a no bolso.
— Terei de pensar nisso.
— Demore o quanto quiser. Nós temos oito horas... desculpe, sete e meia, depois acaba o tempo para todo mundo.
Raiz ficou quieto longamente, batendo com as unhas no tampo da mesa. Inspirou fundo como se
fosse falar, depois mudou de idéia e se levantou abruptamente.
— Faremos Contato. Não se preocupe, eu acho a saída.
Artemis empurrou a cadeira para trás.
— Faça isso. Mas, lembre-se, ninguém de sua raça tem permissão para entrar aqui enquanto eu estiver vivo.
Raiz voltou pelo corredor, olhando carrancudo de volta para as pinturas nas paredes. Melhor sair agora e processar essa informação nova. O garoto Fowl era de fato um opositor escorregadio. Mas estava cometendo um erro básico: a suposição de que Raiz jogaria segundo as regras. Mas Julius Raiz não conseguira sua divisa de comandante seguindo algum livro de regras. Hora de um pouco de ação não ortodoxa.
O videoteipe da câmera de íris de Raiz estava sendo visto por especialistas.
— Dá para ver aqui — Disse o professor Cumulus, um especialista em comportamento. — Aquela coçada, ele está mentindo...
— Absurdo — bufou o doutor Argônio, um psicólogo vindo do subsolo dos Estados Unidos. — Ele
está com coceira, só isso. Sentiu coceira por isso se coçou. Não há nada de sinistro nisso.
Cumulus se virou para Potrus.
— Ouça-o. Como é que eu posso trabalhar com este charlatão?
— Curandeiro — contrapôs Argônio.
Potrus levantou suas palmas peludas.
— Cavalheiros, por favor. Precisamos de um consenso. Um perfil concreto.
— Não adianta — Disse Argônio. — Não posso trabalhar nessas condições.
Cumulus cruzou os braços.
— Se ele não pode trabalhar, eu também não.
Raiz passou pelas portas duplas do transporte. Suas características feições púrpuras estavam ainda mais vermelhas do que o comum.
— Aquele humano está brincando conosco. Eu não aceito. Bom, o que nossos especialistas acharam da fita?
Potrus se moveu ligeiramente para o lado, permitindo que o comandante se dirigisse aos supostos especialistas.
— Aparentemente eles não podem trabalhar nestas condições.
Os olhos de Raiz se estreitaram até virar fendas, pondo sua presa num foco nítido.
— Perdão?
— Esse bom doutor é um simplório — Disse Cumulus, não familiarizado com o temperamento do comandante.
— Eu... eu sou um simplório? – gaguejou Argônio, igualmente ignorante. — E você, sua fada da caverna? Fazendo interpretações dos gestos mais inocentes.
— Inocentes? O garoto é um saco de nervos. Obviamente está mentindo. Isso está em qualquer livro.
Raiz bateu com o punho fechado na mesa, lançando uma teia de rachaduras por toda a superfície.
— Silêncio!
E houve silêncio. Instantaneamente.
— Vocês dois, especialistas, estão recebendo um bom pagamento pelo trabalho na montagem de
um perfil. Correto?
Os dois assentiram, com medo de que ao falar quebrassem a regra do silêncio.
— Este é provavelmente o caso mais importante de sua vida, então quero que se concentrem bem. Entendido?
Mais confirmações com a cabeça.
Raiz tirou a câmera do olho que estava lacrimejando.
— Acelere a fita, Potrus. Até quase o final.
A fita saltou para a frente. Na tela, Raiz seguia o humano até a sala de reuniões.
— Aí. Pare aí. Pode dar um zoom no rosto dele?
— Se eu posso dar um zoom no rosto dele? – Fungou Potrus. — Um anão pode roubar a teia de uma aranha?
— Sim — Respondeu Raiz.
— Na verdade essa foi uma pergunta retórica.
— Eu não preciso de uma aula de gramática, Potrus, só dê o zoom, está bem?
Potrus trincou os dentes, que pareciam lápides.
— Certo, chefe. Vou dar.
Os dedos do centauro viajaram pelo teclado em velocidade espantosa. O rosto de Artemis cresceu até encher a tela de plasma.
— Aconselho vocês a ouvir — Disse Raiz, apertando os ombros dos especialistas. — Este é um momento importantíssimo em suas carreiras.
— Eu sou especial — Disse a boca na tela — porque posso escapar do campo temporal.
— Agora digam — Exigiu Raiz. — Ele está mentindo?
— Passe de novo — Disse Cumulus. — Mostre os olhos.
Argônio assentiu.
— É. Só os olhos.
Potrus digitou mais algumas teclas, e os profundos olhos azuis de Artemis se expandiram por toda a largura da tela.
— Eu sou especial — Trovejou a voz humana – porque posso escapar do campo temporal.
— E então, ele está mentindo?
Cumulus e Argônio se entreolharam, sem qualquer vestígio de antagonismo.
— Não — Disseram simultaneamente.
— Ele está dizendo a verdade — acrescentou o especialista em comportamento.
— Ou — Esclareceu o psicólogo — pelo menos acha que está.
Raiz encharcou o olho com uma solução de limpeza.
— Foi o que eu pensei. Quando olhei o rosto daquele humano achei que ele era gênio ou maluco.
Os olhos frios de Artemis os encaravam da tela.
— Então, o que é? — perguntou Potrus. — Um gênio ou um maluco?
Raiz pegou sua pistola de três canos na prateleira de armas.
— Qual é a diferença? — Falou rispidamente, prendendo no quadril a arma de confiança. — Dê-me uma linha externa com o E1. O tal de Fowl parece conhecer todas as regras, então está na hora de quebrar algumas.
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