O COMANDANTE Raiz estava tragando um cigarro de fungo, particularmente fedorento. Vários membros do Esquadrão de Resgate praticamente tinham desmaiado no lançador. Em comparação, até o mau cheiro do troll algemado parecia fraco. Claro, ninguém dizia nada, já que o chefe era mais sensível do que um furúnculo inflamado no traseiro.
Potrus, por outro lado, adorava antagonizar seu superior.
— Nada desses charutos fedorentos aqui, comandante! — berrou ele no momento em que Raiz voltou ao Centro de Operações. — Os computadores não gostam de fumaça!
Raiz fez uma cara de desprezo, certo de que Potrus tinha inventado aquilo. Mesmo assim o comandante não estava disposto a arriscar uma falha nos computadores no meio de um alerta, por isso apagou o charuto na xícara de café de um gremlin que ia passando.
— Bom, Potrus, que alerta é esse? E é melhor que desta vez seja importante!
O centauro tinha uma tendência a fazer o maior tumulto por causa de bobagens. Uma vez tinha posto o sistema em Condição de Defesa Dois porque suas estações nos satélites humanos tinham saído do ar.
— É importante — garantiu Potrus. — Ou será que devo dizer ruim? Muito ruim.
Raiz sentiu a úlcera em sua barriga começar a borbulhar como um vulcão.
— Ruim quanto?
Potrus mostrou a Irlanda, pelo Eurosat.
— Perdemos contato com a capitã Short.
— Por que será que não estou surpreso? — Rosnou Raiz, enterrando o rosto nas mãos.
— Nós a acompanhamos por todo o caminho sobre os Alpes.
— Os Alpes? Ela pegou uma rota por terra?
Potrus assentiu.
— Contra as regras, eu sei. Mas todo mundo faz isso.
O comandante concordou de má vontade. Quem poderia resistir a uma vista daquelas? Quando era recruta ele tinha recebido uma reprimenda exatamente pelo mesmo motivo.
— Certo. Prossiga. Quando foi que nós a perdemos?
Potrus abriu uma janela de videoteipe no monitor.
— Estas são as imagens da câmera do capacete de Holly.
Aqui estamos sobre a Disneylândia de Paris...
O centauro apertou o botão para adiantar a fita.
— Agora os golfinhos, blá blá blá. O litoral da Irlanda. Ainda não há nada de errado.
Olhe, o localizador dela é acionado. A capitã Short está procurando locais mágicos. O sítio cinqüenta e sete aparece em vermelho, então ela vai para lá.
— Por que não Tara?
Potrus fungou.
— Tara? Cada fada hippie do hemisfério norte vai estar dançando em volta do Lia Fáil sob a lua cheia. Haverá muitos escudos ligados, vai parecer que todo o lugar está debaixo d’água.
— Ótimo — grunhiu Raiz entredentes. — Ande logo com isso, certo?
— Certo. Não dê um nó nas orelhas. — Potrus adiantou vários minutos da fita. — Agora vem a parte interessante... Belo pouso, ela pendura as asas. Tira o capacete.
— Contra as regras — Exclamou Raiz. — Os policiais da LEP nunca devem retirar...
— Os policiais da LEP nunca devem retirar o capacete acima da superfície, a não ser que o capacete esteja com defeito — completou Potrus. — sim, comandante, todos nós sabemos o que diz o manual. Mas está tentando me dizer que nunca pegou um pouco de ar fresco depois de algumas horas no céu?
— Não — admitiu Raiz. — O que você é? A fada madrinha dela ou algo do tipo? Vá para a parte importante.
Potrus deu um risinho por trás da mão. Aumentar a pressão sangüínea de Raiz era uma das poucas vantagens do serviço. Ninguém mais ousaria fazer isso. Porque todos os outros eram substituíveis. Menos Potrus. Ele tinha construído o sistema a partir do zero, e se mais alguém tentasse ligar, um vírus oculto iria travá-lo diante de suas orelhas pontudas.
— A parte importante. Aqui estamos. De repente Holly larga o capacete. Ele deve ter caído de cabeça para baixo, porque perdemos a imagem. Ainda temos som, por isso vou aumentar o volume.
Potrus aumentou o sinal de áudio, filtrando o ruído de fundo.
— A qualidade não é fantástica. O microfone está na câmera. De modo que ele também ficou virado para o chão.
"Berro maneiro", disse uma voz. Definitivamente humana.
E profunda. Isso geralmente significava que o dono era grande.
Raiz levantou uma sobrancelha.
— Berro?
— É gíria, significa arma.
— Ah. — E então a importância daquela declaração simples o espantou. — Ela sacou a arma.
— Espere só. A coisa fica pior.
"Imagino que você não vá admitir uma rendição pacífica, não é?", disse uma segunda voz. Só de ouvi-la o comandante sentiu arrepios. "Não", continuou a voz. "Acho que não."
— Isso é ruim — Disse Raiz, com o rosto estranhamente pálido. — Parece uma emboscada. Esses dois bandidos estavam esperando. Como é possível?
Então a voz de Holly veio pelo alto-falante, tipicamente descarada diante do perigo. O comandante suspirou. Pelo menos ela estava viva. Vieram mais notícias ruins enquanto as duas partes trocavam ameaças, e o segundo humano revelava um conhecimento incomum sobre questões relativas às fadas.
— Ele sabe do Ritual!
— Agora vem a pior parte.
O queixo de Raiz caiu.
— A pior parte?
A voz de Holly de novo. Dessa vez superposta pelo mesmer.
— Agora ela vai pegá-los — grasnou Raiz.
Mas aparentemente não. Não apenas o mesmer se mostrou ineficaz, mas o par misterioso
pareceu achar divertido.
— É só isso que temos de Holly — observou Potrus. — Uma das criaturas da Lama mexeu na câmera durante um tempo e depois perdemos tudo.
Raiz esfregou as rugas entre os olhos.
— Não há muita informação. Nenhum visual, nem mesmo um nome. Não podemos ter realmente cem por cento de certeza de que estamos com um problema sério.
— Você quer prova? — perguntou Potrus, voltando a fita — Eu lhe dou prova.
Ele passou o vídeo disponível.
— Agora olhe isto. Vou reduzir a velocidade. Um quadro por segundo.
Raiz se aproximou da tela, suficientemente perto para ver os pixels.
— A capitã Short se prepara para pousar. Tira o capacete. Curva-se, supostamente para pegar uma semente, e... pronto!
Potrus apertou o botão de pausa, congelando a imagem totalmente.
— Está vendo alguma coisa incomum?
O comandante sentiu sua úlcera borbulhar em velocidade máxima. Alguma coisa tinha aparecido no canto superior direito do quadro. A princípio parecia um raio de luz, mas luz de quê, ou refletida de quê?
— Você pode ampliar isso?
— Sem problema.
Potrus cortou para a área relevante, ampliando-a em 400 por cento. A luz se expandiu para preencher a tela.
— Ah, não — Expirou Raiz.
Ali no monitor diante deles, em suspensão congelada, estava um dardo hipodérmico. Não podia haver dúvida. A capitã Holly Short estava desaparecida em ação. Provavelmente morta, mas no mínimo prisioneira de uma força hostil.
— Diga que ainda temos o localizador.
— Sim. Sinal forte. Seguindo para o norte, acerca de oito klicks por hora.
Raiz ficou quieto um instante, formulando sua estratégia.
— Passar para alerta total, tirar o pessoal do Resgate da cama e voltar aqui para baixo. Prepará-los para um lançamento à superfície. Quero todo o pessoal tático e dois técnicos. Você também, Potrus. Desta vez teremos de parar o tempo.
— Certo, comandante. Quer o Recon nisso?
Raiz assentiu.
— Pode apostar que sim.
— Vou ligar para o capitão Vein. Ele é o nosso número um.
— Ah, não. Para um serviço desses precisamos do melhor. E o melhor sou eu. Estou me reativando.
Potrus ficou tão pasmo que nem mesmo formulou um comentário engraçadinho.
— Você... você está...
— Sim, Potrus. Não banque o surpreso. Eu tenho mais reconhecimentos bem sucedidos sob meu cinto do que qualquer policial da história. Além disso fiz o treinamento básico na Irlanda. De volta aos dias do chapéu alto e do porrete.
— É, mas isso foi há quinhentos anos, e na época o senhor não era nenhum garotinho, para não entrarmos em maiores detalhes.
Raiz deu um sorriso perigoso.
— Não se preocupe, Potrus. Eu ainda estou bem quente. E vou compensar a idade com uma arma realmente grande. Agora prepare um casulo. Vou partir na próxima explosão.
Potrus obedeceu sem um único comentário. Quando o comandante mostrava aquele brilho nos olhos, você ficava a postos e mantinha a boca fechada. Mas havia outro motivo para a obediência de Potrus. É que ele percebeu que Holly podia estar numa encrenca de verdade. Os centauros não fazem muitos amigos, e Potrus estava preocupado com a possibilidade de perder um dos poucos que tinha.
Artemis tinha previsto alguns avanços tecnológicos, mas nada como o tesouro de equipamento das fadas que estava espalhado sobre o painel do quatro-por-quatro.
— Impressionante — Murmurou. — Nós poderíamos abortar essa missão agora mesmo e ainda assim fazer uma fortuna em patentes.
Artemis passou um scanner de mão sobre a pulseira do elfo inconsciente. Em seguida passou os caracteres da língua das fadas para o tradutor eletrônico do PowerBook.
— Isto é algum tipo de localizador. Sem dúvida os colegas dessa leprechaum estão nos rastreando agora mesmo.
Butler engoliu em seco.
— Agora mesmo, senhor?
— Parece que sim. Ou pelo menos estão rastreando o localizador...
Artemis parou de falar subitamente, os olhos perdendo o foco enquanto a eletricidade em seu crânio produzia outra onda cerebral.
— Butler?
O empregado sentiu o pulso acelerar. Ele conhecia aquele tom de voz. Alguma coisa vinha por aí.
— Sim, Artemis?
— O baleeiro japonês. O que foi confiscado pelas autoridades portuárias. Ainda está preso às docas?
Butler assentiu.
— Sim, acho que sim.
Artemis girou a faixa do localizador em seu dedo.
— Bom. Leve-nos até lá. Acho que está na hora de nossos amigos minúsculos saberem exatamente com quem estão lidando.
Raiz carimbou sua reativação com uma velocidade impressionante — Muito incomum para a alta administração da LEP. Geralmente demorava meses, e várias reuniões insuportavelmente chatas, para aprovar qualquer entrada no Esquadrão de Recon.
Por sorte Raiz tinha alguma influência com o comandante.
Era bom vestir de novo um uniforme de campo, e Raiz até conseguiu se convencer de que o macacão não estava mais apertado na cintura do que costumava ficar. O volume, racionalizou ele, era causado por todo o novo equipamento que enfiavam naquele negócio. Pessoalmente Raiz não tinha tempo para traquitanas. Os únicos itens em que o comandante estava interessado eram as asas nas costas e a arma multifase de três canos e resfriada a água, presa ao quadril — a pistola mais poderosa sob o mundo. Antiga, verdade, mas tinha ajudado Raiz a atravessar uma dezena de tiroteios e o fazia sentir-se de novo como policial de campo.
O lançador mais próximo para a posição de Holly era o El Tara. Não exatamente uma localização ideal para uma missão secreta, mas com apenas duas horas de luar sobrando não havia tempo para um passeio na superfície. Se houvesse alguma chance de resolver essa confusão antes do nascer do sol, a velocidade era essencial. Reivindicou o lançador El para a sua equipe, passando por cima de um grupo de turistas que aparentemente estava na fila há dois anos.
— Prioridade — Rosnou Raiz para a agente de viagens. — E mais, eu estou cancelando todos os vôos não essenciais até o fim da crise atual.
— E quando será isso? — guinchou a gnoma furiosa, brandindo um caderno como se estivesse preparada para abrir algum tipo de processo judicial.
Raiz cuspiu a guimba do charuto, esmagando-a meticulosamente sob o calcanhar da bota. O simbolismo era óbvio demais.
— Os lançadores serão abertos, senhora, quando eu quiser — Rosnou o comandante. — E se a senhora e seu uniforme fluorescente não saírem do meu caminho, vou arrancar sua licença de trabalho e jogá-la numa cela por obstruir um oficial da LEP.
A agente de viagens murchou diante dele e voltou para a fila, desejando que seu uniforme não fosse tão cor-de-rosa.
Potrus estava esperando junto ao casulo. Por mais que o momento fosse sério, não pôde conter um relincho divertido ao ver a barriga de Raiz balançando ligeiramente no macacão apertado.
— Tem certeza disso, comandante? Geralmente só permitimos uma pessoa por casulo.
— O que quer dizer? — Rosnou Raiz. — só há uma...
Em seguida ele captou o olhar de Potrus para a sua barriga.
— Ah. Ha ha. Muito divertido. Pare com isso, Potrus. Eu tenho meu limite, você sabe.
Mas era uma ameaça vazia, e os dois sabiam. Não somente Potrus tinha construído a rede de comunicações a partir do zero como também era pioneiro no campo da previsão de explosões de magma. Sem ele a tecnologia humana poderia facilmente se igualar à das fadas.
Raiz sentou-se no casulo e prendeu o cinto de segurança.
Para o comandante, nada de veículos com meio século de vida.
Esse neném tinha acabado de sair da linha de montagem. Todo prateado e brilhante, com as novas barbatanas estabilizadoras que deviam ler automaticamente as correntes de magma.
Inovação de Potrus, claro. Durante cerca de um século seus projetos de casulos vinham tendendo para o futurista — cheios de neon e borracha. Mas ultimamente sua sensibilidade tinha se tornado mais retrospectiva, substituindo as novidades por painéis de nogueira e estofados de couro. Raiz achou estranhamente reconfortante essa decoração em estilo antigo.
Envolveu os joysticks com os dedos e de repente percebeu quanto tempo fazia desde que tinha cavalgado os jorros quentes.
Potrus percebeu seu desconforto.
— Não se preocupe, chefe — Disse ele sem o cinismo habitual. — É como montar um unicórnio. A gente nunca esquece.
Raiz grunhiu, sem se convencer.
— Vamos botar o pé na estrada — Murmurou. – Antes que eu mude de idéia.
Potrus puxou a porta deslizante até que o anel de sucção se prendeu, lacrando o portal com um sibilo pneumático. O rosto de Raiz assumiu um tom esverdeado através do painel de quartzo.
Não parecia mais apavorado. Na verdade, era o oposto.
Artemis estava fazendo uma pequena cirurgia de campo no localizador da fada. Não era um feito qualquer alterar algumas das dimensões sem destruir os mecanismos.
As tecnologias eram definitivamente incompatíveis. Imagine tentar realizar uma operação de coração aberto usando uma machadinha.
O primeiro problema foi abrir aquela porcaria. As cabeças de parafusos desafiaram tanto as chaves planas quanto as Phillips. Nem mesmo o enorme jogo de chaves Allen de Artemis pôde se encaixar nas fendas minúsculas. Pense em termos futurísticos, disse Artemis a si mesmo. Pense em tecnologia avançada.
A solução veio depois de alguns momentos de contemplação silenciosa. Parafusos magnéticos.
Óbvio. Mas como construir um campo magnético rotativo no banco de trás de um jipe? Impossível. A única solução era girar os parafusos com um ímã doméstico.
Artemis pescou o pequeno ímã em seu nicho na caixa de ferramentas e aplicou os dois pólos aos parafusos minúsculos. O lado negativo fez com que eles se mexessem ligeiramente. Foi o bastante para Artemis conseguir prendê-los com um alicate ponta de agulha, e logo estava com o painel do localizador desmontado.
O circuito era minúsculo. E sem qualquer sinal de solda. Eles deviam usar outro tipo de conexão. Talvez, se tivesse tempo, os princípios daquele instrumento pudessem ser descobertos, mas por enquanto teria de improvisar. Teria de contar com a desatenção dos outros. E se as criaturas do Povo fossem parecidas com os humanos, eles viam o que queriam ver.
Artemis segurou a face do localizador diante da luz do carro. Era translúcida. Ligeiramente polarizada, mas bastante boa. Empurrou para o lado um emaranhado de fios minúsculos, inserindo uma microcâmera no espaço. Prendeu o transmissor do tamanho de uma ervilha com uma gota de silicone.
Grosseiro mas eficaz. Esperava que sim.
Os parafusos magnéticos se recusaram a voltar para os buracos sem a ferramenta adequada, por isso Artemis foi forçado a colá-los também. Uma sujeira, mas deveria bastar, desde que o localizador não fosse examinado muito de perto.
E se fosse? Bom, ele só perderia a vantagem que, de fato, nunca esperava ter.
Butler desligou o farol alto quando entraram nos limites da cidade.
— Estamos chegando às docas, Artemis — Disse ele por cima do ombro. — Deve haver uma equipe da alfândega em algum lugar.
Artemis assentiu. Fazia sentido. O porto era uma agitada artéria de atividades ilegais. Mais de cinqüenta por cento do contrabando do país desembarcava em alguma parte desses oitocentos metros.
— Então crie uma distração, Butler. Eu só preciso de dois minutos.
O empregado assentiu, pensativo.
— O de sempre?
— Não vejo por que não. Pode armar a festa... Ou melhor, arme logo um velório.
Artemis piscou. Era a segunda piada que fazia nos últimos tempos. E a primeira em voz alta. Melhor tomar cuidado. Não era hora para frivolidades.
Os estivadores estavam enrolando cigarros. Não era fácil com dedos do tamanho de barras de chumbo, mas eles conseguiam.
E se alguns fiapos de tabaco marrom caíam nas pedras ásperas, e daí? As bolsas de fumo estavam disponíveis aos montes, vendidas por um homenzinho que não se preocupava em agregar os impostos do governo aos seus preços.
Butler foi até os homens, com os olhos sombreados pela aba de um quepe de guarda.
— Noite gelada — Disse ele ao grupo.
Ninguém respondeu. Os policiais apareciam em todos os tipos e modelos.
O estranho grandalhão insistiu.
— Até trabalhar é melhor do que ficar parado numa noite dessas.
Um dos trabalhadores, meio idiota, não conseguiu deixar de assentir. Um camarada cutucou o cotovelo em suas costelas.
— Mesmo assim — continuou o recém-chegado —, não acho que as mocinhas aí já tiveram um dia de trabalho decente na vida.
De novo não houve resposta. Mas dessa vez foi porque a boca dos estivadores estava aberta de espanto.
— É, vocês são um grupinho ridículo, é mesmo — prosseguiu Butler jovialmente. — Ah, não duvido de que seriam confundidos com homens na época da fome, mas pelos padrões de hoje vocês não passam de uns maricas.
— Arrrgh — Disse um dos estivadores. Foi tudo que conseguiu.
Butler levantou uma sobrancelha.
— Argh? Ridículo e inarticulado. Bela combinação. A mãe de vocês deve ter muito orgulho.
O estranho tinha atravessado uma linha sagrada. Tinha falado da mãe dos homens. Agora nada poderia evitar uma surra, nem o fato de que ele era obviamente um simplório. Ainda que um simplório com um bom vocabulário.
Os homens pisaram nos cigarros e se espalharam lentamente num semicírculo. Eram seis contra um. Era preciso sentir pena deles.
Butler ainda não tinha terminado.
— Agora, antes de fazermos qualquer coisa, senhoras, nada de arranhar, nem cuspir nem chamar a mamãe.
Foi a última gota. Os homens uivaram e atacaram ao mesmo tempo. Se estivessem prestando alguma atenção ao adversário naquele momento anterior ao contato, poderiam ter percebido que ele havia se movimentado para baixar o centro de gravidade. Também poderiam ter visto que as mãos que ele retirou dos bolsos eram do tamanho e da forma aproximada de uma pá. Mas ninguém estava prestando atenção em Butler — Estavam ocupados demais observando os colegas, certificando-se de que não ficariam sozinhos no ataque.
O que interessava numa distração é que ela precisava distrair. Tinha de ser grande. Grosseira.
Nem um pouco no estilo de Butler. Ele preferiria dominar esses homens a 500 metros de distância, com um fuzil de dardos. Não tendo isso, se o contato físico fosse absolutamente necessário, uma série de pancadas com o polegar nos feixes de nervos na base do pescoço seria sua opção preferida — silenciosa como um sussurro. Mas isso estragaria o objetivo do exercício.
E assim Butler foi contra seu treinamento, gritando como um demônio e utilizando as ações de combate mais vulgares.
Podiam ser vulgares, mas isso não quer dizer que não eram eficazes. Talvez um monge Shao Lin pudesse prever alguns dos movimentos mais exagerados, mas aqueles homens não eram adversários treinados. Para ser justo, eles nem estavam totalmente sóbrios.
Butler derrubou o primeiro com um soco direto. Mais dois tiveram as cabeças batidas uma na outra, no estilo desenho animado. O quarto, para eterna vergonha de Butler, foi despachado com um chute giratório. Mas o mais ostentoso foi guardado para o último par. O mordomo rolou de costas, pegou-os pelas golas das jaquetas e os jogou no porto de Dublin. Grandes jorros de água, muitos gritos. Perfeito.
Dois faróis surgiram de trás da sombra de um contêiner de carga, e um carro da polícia veio guinchando pelo cais. Como fora previsto, uma equipe de policiais da alfândega estava de tocaia.
Butler riu com uma satisfação maligna e virou a esquina. Tinha sumido há muito tempo, antes que os agentes mostrassem os distintivos ou começassem a fazer perguntas. Não que os interrogatórios rendessem muito.
— Grande como uma casa — Foi uma descrição adequada para tentar defini-lo.
Quando Butler chegou ao carro, Artemis já tinha voltado de sua missão.
— Muito bem, velho amigo — comentou ele. – Mas imagino que seu sensei de artes marciais deve estar se revirando na sepultura. Um chute giratório? Como pôde?
Butler mordeu a língua, dando ré no jipe e se afastando dos galpões de madeira.
Enquanto atravessavam a passagem superior, ele não pôde resistir a olhar o caos que tinha criado. Os homens do governo estavam tirando um estivador encharcado das águas poluídas.
Artemis precisara dessa distração para alguma coisa. Mas Butler sabia que não adiantava perguntar o quê. Seu patrão não compartilhava os planos com ninguém, até quando achasse que era a hora certa. E se Artemis Fowl achava que a hora era certa, geralmente era.
Raiz saiu trêmulo do casulo. Não se lembrava de que fosse assim em sua época. Se bem que, para dizer a verdade, na certa era tremendamente pior. Na época do porrete não havia elegantes cintos de polímero, nem lançadores automáticos, e certamente não havia monitores externos. Era apenas instinto e um toque de feitiço. Em alguns sentidos Raiz preferia daquele jeito.
A ciência estava tirando a magia de tudo.
Saiu cambaleando pelo túnel até o terminal. Como destino preferido, Tara tinha um saguão de passageiros completo. Seis lançadores por semana vinham apenas da Cidade de Refúgio. Sem usar explosões de magma, claro. Os turistas pagantes não gostavam de ser sacudidos tanto, a não ser, claro, que estivessem num passeio ilegal à Eurodisney.
O forte das fadas estava atulhado de criaturas que tinham vindo passar a lua cheia e reclamavam da suspensão dos transportes. Uma duende se abrigava atrás de sua mesa, assediada por gremlins furiosos.
— Não adianta me perturbar — gritava a duende. — O elfo que interessa a vocês está ali mesmo.
Ela apontou o dedo trêmulo para o comandante que se aproximava. A multidão de gremlins se virou para Raiz, e quando eles viram a arma de cano triplo em seu quadril, continuaram se virando.
Raiz pegou o microfone atrás da mesa e puxou até esticar o fio.
— Escutem — Rosnou ele, sua voz grave ecoando pelo terminal. — Aqui é o comandante Raiz, da LEP. Temos uma situação grave na superfície e eu gostaria da colaboração de todos os civis. Primeiro, gostaria que parassem com esse palavrório para que eu consiga pensar!
Raiz parou, para se certificar de que seus desejos estavam sendo respeitados.
Estavam.
— Segundo. Gostaria que cada um de vocês, inclusive essas crianças choronas, se sentasse nos bancos de cortesia até eu ter saído. Depois podem voltar a franzir ou estufar as caras. Ou o que quer que os civis fazem.
Ninguém jamais tinha acusado Raiz de ser politicamente correto. Ninguém faria isso.
— E quero que o encarregado, quem quer que seja, venha até aqui. Agora!
Raiz jogou o microfone sobre a mesa. Uma explosão de microfonia aguda raspou cada tímpano dentro da construção.
Em uma fração de segundo um híbrido de elfo e goblin estava bamboleando junto ao seu cotovelo.
— Alguma coisa que possamos fazer, comandante?
Raiz assentiu, enfiando um charuto grosso no buraco sob o nariz.
— Quero que você abra uma passagem direta através deste lugar. Não quero ser incomodado
pela alfândega ou pela imigração. Comece a mandar todo mundo para baixo depois que meus rapazes chegarem aqui.
O diretor do porto de lançamento engoliu em seco.
— Todo mundo?
— Sim. Isso inclui o pessoal do terminal. E levem tudo que puderem. Evacuação total. — Ele
parou e encarou os olhos cor de malva do diretor. — Isto não é um exercício.
— Quer dizer...
— Sim — Disse Raiz, continuando a andar pela rampa de acesso. — O Povo da Lama cometeu um ato abertamente hostil. Quem sabe onde isso vai dar?
O elfo/goblin ficou olhando enquanto Raiz desaparecia numa nuvem de fumaça de charuto. Um ato abertamente hostil? Isso poderia significar guerra. Ele digitou o número de seu contador no celular.
— Casca? Sim. Aqui é Nimbus. Quero que você venda todas as minhas ações do porto de lançamento. Sim, todas. Tenho a impressão de que os preços vão ter uma queda séria.
A capitã Holly Short sentia como se uma lesma sugadora estivesse drenando seu cérebro pelo buraco do ouvido. Tentou descobrir o que poderia ter causado essa agonia, mas suas faculdades ainda não se estendiam ao domínio da memória. Respirar e ficar deitada era tudo que conseguia.
Hora de tentar uma palavra. Alguma coisa curta e pertinente. Socorro, decidiu, seria a palavra certa. Respirou trêmula e abriu a boca.
— Sssssc — Disseram seus lábios traiçoeiros. Não adiantava. Incompreensível até mesmo pelos padrões de um gnomo bêbado.
O que estava acontecendo? Ela estava deitada de costas, fraca como uma raiz úmida num túnel.
O que poderia ter causado isso?
Holly se concentrou, chegando à beira de uma dor ofuscante.
O troll? Era isso? Será que o troll a havia mutilado naquele restaurante? Isso explicaria muita coisa. Mas não. Ela parecia lembrar alguma coisa sobre o velho país. E o Ritual. E havia alguma coisa machucando seu tornozelo.
— Olá?
Uma voz. Não dela. Nem mesmo de algum elfo.
— Então está acordada?
Uma das línguas européias. Latim. Não, inglês. Ela estava na Inglaterra?
— Eu pensei que o dardo poderia ter matado você. As entranhas dos alienígenas são diferentes das nossas. Eu vi isso pela televisão.
Algaravia. Alienígenas, entranhas? O que a criatura estava falando?
— Você parece em forma. Que nem Maria Muchacho, ela é uma anã mexicana que pratica luta-livre.
Holly gemeu. Seu dom das línguas devia estar se esvaindo.
Era hora de ver exatamente que loucura estava acontecendo aqui.
Focalizando toda a força na frente da cabeça, entreabriu um olho.
Fechou de novo quase imediatamente. Parecia haver uma gigantesca mosca loura olhando para ela.
— Não fique com medo — Disse a mosca. — são só óculos escuros.
Holly abriu os dois olhos de uma vez. A criatura estava batendo num olho de prata. Não, não era um olho. Uma lente espelhada. Como as lentes usadas pelos outros dois... tudo voltou num tranco, correndo para preencher o buraco em sua memória como uma fechadura de combinação se encaixando no lugar. Ela fora seqüestrada por dois humanos durante o Ritual. Dois humanos com um extraordinário conhecimento de coisas das fadas.
Tentou falar de novo.
— Onde... onde estou?
A humana deu um risinho deliciado, batendo palmas. Holly percebeu as unhas, compridas e pintadas.
— Você fala minha língua. Que tipo de sotaque é esse? Parece um pouco de tudo.
Holly franziu a testa. A voz da garota parecia um saca-rolhas entrando direto no meio da sua cabeça. Levantou o braço.
Nada do localizador.
— Onde estão minhas coisas?
A garota balançou o dedo, como a gente faz com uma criança malcriada.
— Artemis teve de tirar sua pistolinha, e todos aqueles outros brinquedos. Você poderia se machucar.
— Artemis?
— Artemis Fowl. Isso tudo foi idéia dele. Tudo é sempre idéia dele.
Holly franziu a testa. Artemis Fowl. Por algum motivo, até mesmo o nome a fez estremecer. Era um mau presságio. Intuição de fada nunca errava.
— Eles virão atrás de mim — Disse ela, com a voz áspera passando pelos lábios secos. — Você não sabe o que fez.
A garota franziu a testa.
— Você está absolutamente certa. Eu não tenho a menor idéia do que está acontecendo. De modo que não há futuro em tentar fazer alguma coisa psíquica comigo.
Holly franziu a testa. Obviamente não fazia sentido armar jogos mentais com aquela humana. O mesmer era sua única esperança, mas ele não conseguia penetrar em superfícies reflexivas.
Como, diabos, aqueles humanos sabiam? Isso poderia ser descoberto mais tarde. Por enquanto tinha de descobrir um modo de separar aquela garota vazia de seus óculos espelhados.
— Você é uma humana bem bonita — Disse ela, a voz pingando elogio cheio de mel.
— Ora, obrigada...?
— Holly.
— Ora, obrigada, Holly. Eu saí no jornal da cidade uma vez. Ganhei um concurso. Miss Feira da Abelha Açucarada Mil Novecentos e Noventa e Nove.
— Eu sabia. É uma beleza natural. Aposto que seus olhos são espetaculares.
— É o que todo mundo diz. — assentiu Juliet. – Cílios que parecem molas de relógio.
Holly suspirou.
— Se ao menos eu pudesse vê-los.
— Por que não?
Os dedos de Juliet seguraram as hastes dos óculos. Em seguida ela hesitou.
— Talvez eu não deva.
— Por que não? Só um segundo.
— Não sei. Artemis disse para eu nunca tirar os óculos.
— Ele não iria saber.
Juliet apontou para uma câmera na parede.
— Ah, ele vai descobrir. Artemis descobre tudo. — Ela se inclinou para perto da fada. — Algumas vezes eu acho que ele pode ver dentro da minha cabeça também.
Holly franziu a testa. Enganada de novo por esse tal de Artemis.
— Ande. Um segundo. Que mal vai fazer?
Juliet fingiu que pensava a respeito.
— Nenhum, eu acho. A não ser, claro, que você esteja pretendendo me fisgar com o mesmer.
Você acha que eu sou estúpida demais?
— Tenho outra idéia — Disse Holly, com o tom de voz muitíssimo mais sério. — Por que eu não me levanto, derrubo você e tiro esses óculos estúpidos?
Juliet deu um riso deliciado, como se essa fosse a coisa mais ridícula que ela já tivesse ouvido.
— Essa foi boa, fadinha.
— Estou falando mortalmente sério, humana.
— Bom, se está falando sério — suspirou Juliet, passando delicadamente o dedo por trás das lentes, como se fosse enxugar uma lágrima —, dois motivos. Um: Artemis disse que enquanto você estiver numa residência humana tem de fazer o que nós quisermos. E eu quero que você fique nessa cama.
Holly fechou os olhos. Certo de novo. Onde foi que esse grupo conseguiu as informações?
— E dois. — Juliet sorriu de novo, mas dessa vez havia uma leve semelhança com o irmão naqueles dentes. — Dois: porque eu fiz o mesmo treinamento que Butler, e estou louca para ter alguém em quem praticar alguns golpes especiais.
Veremos isso, humana, pensou Holly; A capitã Short ainda não estava cem por cento, e também havia a pequena questão da coisa machucando seu tornozelo. Ela pensou que sabia o que era, e, se estivesse certa, isso poderia significar o início de um plano.
O comandante Raiz tinha ajustado a freqüência do localizador de Holly na tela visual de seu capacete. Raiz demorou mais do que o esperado para chegar a Dublin. As asas modernas eram mais complicadas do que as que ele conhecia, além disso ele não se incomodara em fazer cursos de reciclagem. Na altitude certa, quase conseguia superpor o mapa luminoso em seu visor sobre as verdadeiras ruas de Dublin abaixo. Quase.
— Potrus, seu centauro metido a besta — Rosnou ele no microfone.
— Problema, chefe? — veio a resposta em voz baixa.
— Problema? Pode dizer isso de novo. Quando foi a última vez que você atualizou os arquivos de Dublin?
Raiz pôde ouvir ruídos de sucção no ouvido. Parecia que Potrus estava almoçando.
— Desculpe, comandante. Estou acabando esta cenoura. Ahm... Dublin, vejamos. Setenta e sete... Mil oitocentos e setenta e cinco.
— Foi o que eu pensei! Este lugar está totalmente diferente. Os humanos conseguiram mudar até a forma do litoral.
Potrus ficou quieto um momento. Raiz podia imaginá-lo lutando com o problema. O centauro não gostava de que lhe dissessem que parte de seu sistema estava desatualizado.
— Certo — Disse ele por fim. — Vou fazer o seguinte: nós temos um Scópio num satélite de TV
que passa sobre a Irlanda.
— Sei — Murmurou Raiz, o que era basicamente uma mentira.
— Vou mandar por e-mail a varredura da semana passada direto para o seu visor. Felizmente há uma placa de vídeo em todos os capacetes novos.
— Felizmente.
— A parte complicada vai ser coordenar seu padrão de vôo com as informações de vídeo.
Raiz já estava cheio.
— Quanto tempo, Potrus?
— Ahm... Dois minutos, mais ou menos.
— Mais ou menos quanto?
— Uns dez anos, se meus cálculos estiverem errados.
— É melhor que não estejam. Vou ficar pairando até que a gente saiba.
Cento e vinte e quatro segundos depois as plantas em preto e branco de Raiz desapareceram, e foram substituídas por imagens coloridas feitas à luz do dia.
Quando Raiz se mexia elas se mexiam também, e o ponto do localizador de Holly também se mexia.
— Impressionante — Disse Raiz.
— O quê, comandante?
— Eu disse impressionante — gritou Raiz. — Não precisa ficar com um rei na barriga.
O comandante ouviu o som de uma sala cheia de gargalhadas, e percebeu que Potrus o tinha colocado nos alto- Falantes.
Todo mundo tinha ouvido seu elogio ao trabalho do centauro.
Não poderia brigar com ele pelo menos durante um mês. Mas valia a pena. O vídeo que estava recebendo agora era totalmente atualizado. Se a capitã Short estivesse escondida num prédio, o computador poderia lhe dar plantas tridimensionais instantaneamente. Era à prova de erro. A não ser...
— Potrus, o localizador está no mar. O que está acontecendo?
— Barco ou navio, senhor, é o que eu diria.
Raiz se xingou por não ter pensado nisso. Eles estariam rindo na sala de comando. Claro que era um navio. Baixou algumas centenas de metros até que a silhueta escura da embarcação apareceu entre a névoa. Aparentemente era um baleeiro, mas não havia nada parecido com um arpão para trucidar o maior mamífero do mundo.
— A capitã Short está em algum lugar lá embaixo, Potrus. Debaixo do convés. O que você pode me dar?
— Nada, senhor. Não é um lugar fixo. Quando tivermos feito uma verificação do registro do navio, será tarde demais.
— E quanto a uma imagem térmica?
— Não, comandante. O casco deve ter pelo menos cinqüenta anos. Conteúdo de chumbo muito alto. Nem podemos penetrar na primeira camada. Acho que o senhor está sozinho nisso.
Raiz balançou a cabeça.
— Depois de todos os bilhões que investimos no seu departamento! Lembre-me de cortar o seu orçamento quando eu voltar.
— Sim, senhor — veio a resposta, carrancuda, pela primeira vez. Potrus não gostava de piadas com o orçamento.
— Ponha o Esquadrão de Resgate em alerta total. Posso precisar deles a qualquer momento.
— Porei, senhor.
— É melhor que sim. Câmbio e desligo.
Raiz estava sozinho. Para dizer a verdade, era assim que ele gostava. Nada de ciência. Nada daquele centauro metido relinchando em sua orelha. Só um policial do Povo das Fadas, sua inteligência e talvez um pouquinho de magia.
Inclinou suas asas de polímero, ficando logo abaixo de um banco de névoa. Não precisava ter cuidado. Com o escudo ativado ele era invisível aos olhos humanos. Mesmo num radar ultra-sensível não passaria de uma distorção fraquíssima. O comandante baixou até a amurada. Era uma embarcação feia.
O cheiro de morte e dor pairava no convés que já estivera encharcado de sangue. Muitas criaturas nobres tinham morrido ali, morrido e sido dissecadas para virar barras de sabão e óleo de aquecimento. Raiz balançou a cabeça. Os humanos eram seres bárbaros.
Agora o localizador de Holly piscava ansiosamente. Ela estava perto. Muito perto. Em algum lugar num raio de 200 metros estava a capitã Holly, ainda respirando, era a esperança dele. Mas sem as plantas teria de percorrer as entranhas desse navio sem ajuda.
Raiz pousou suavemente no convés, com as botas se grudando ligeiramente na mistura de sabão seco e bolhas que cobria a superfície de aço. A embarcação parecia deserta.
Não havia nenhuma sentinela na prancha de desembarque, nenhum contramestre no passadiço, nenhuma luz em lugar algum. Mesmo assim não havia motivo para abandonar a cautela. Raiz sabia, por experiências amargas, que os humanos apareciam quando a gente menos esperava.
Uma vez, quando estava ajudando os rapazes do Resgate a tirar uns destroços de casulo da parede de um túnel, foram vistos por um grupo de humanos que faziam perfuração. Que bagunça tinha sido. Histeria em massa, caçadas em alta velocidade, lavagens mentais em grupo. A coisa toda.
Raiz estremeceu. Noites assim podiam tirar décadas da vida de uma criatura das fadas.
Mantendo-se totalmente escudado, fez as asas se dobrarem no envoltório, avançando a pé sobre o convés. Não havia outras formas de vida em sua tela, mas, como dissera Potrus, o casco tinha grande concentração de chumbo; até a tinta era à base de chumbo! Todo o barco era um desastre ecológico flutuante. O fato é que poderia haver um batalhão de ataque escondido sob o convés, e a câmera de seu capacete não iria captá-los. Até mesmo o localizador de Holly estava um pouco abaixo do volume, e ele possuía uma microbateria nuclear emitindo os pulsos. Raiz não gostava daquilo. Nem um pouco. Fique calmo, disse a si mesmo. Você está escudado. Não há um ser humano vivo que possa vê-lo.
Abriu a primeira escotilha. Ela girou com bastante facilidade. O comandante fungou. O Povo da Lama tinha lubrificado as dobradiças com óleo de baleia. Não haveria fim para a depravação deles?
O corredor estava envolto numa escuridão viscosa, por isso Raiz ligou seu filtro infravermelho. Certo, algumas vezes a tecnologia ajudava, mas ele não diria isso a Potrus. O labirinto de tubos e grades diante dele foi imediatamente iluminado por uma estranha luz vermelha. Minutos depois ele estava se arrependendo de ter ao menos pensado alguma coisa boa sobre a tecnologia do centauro. O filtro infravermelho atrapalhava sua percepção de profundidade, e ele até agora já havia batido a cabeça em duas conexões em U que se projetavam dos tubos.
Ainda não havia sinal de vida- humana ou fada. Muitos animais. Muitos roedores. E quando você tem apenas pouco mais de um metro de altura, um rato de bom tamanho pode ser uma verdadeira ameaça, especialmente porque os ratos são uma das poucas criaturas que podem ver direto através de um escudo de fada. Raiz soltou a pistola e a ajustou para nível três, ou ao ponto, como diziam os elfos no vestiário. Mandou um dos ratos para longe com o traseiro fumegando, como alerta para o resto. Nada fatal, só o bastante para ensinar a não olhar de lado para um elfo com pressa.
Raiz seguiu mais rápido. Esse lugar era ideal para uma emboscada. Ele estava praticamente cego e de costas para a única saída. Um pesadelo de reconhecimento. Se um de seus comandados tivesse feito uma coisa dessas ele arrancaria as divisas do sujeito. Mas ocasiões desesperadas exigiam assumir riscos bem pensados. Essa era a essência do comando.
Ignorou várias portas de cada lado, seguindo o sinal do localizador. Agora dez metros. Uma escotilha de aço lacrava o corredor, e a capitã Short, ou seu cadáver, estava do outro lado.
Raiz encostou o ombro na porta. Ela se abriu sem protesto.
Má notícia. Se uma criatura viva estivesse em cativeiro, a escotilha estaria trancada. O comandante aumentou o nível de potência da arma para cinco e avançou pela abertura. A pistola zumbia levemente. Agora havia potência suficiente para vaporizar um elefante com um único tiro.
Nenhum sinal de Holly. Nenhum sinal de coisa alguma. Ele estava num depósito refrigerado. Estalactites brilhantes pendiam de um emaranhado de tubos. A respiração de Raiz se espalhava ao redor em nuvens gélidas. Como isso apareceria para um humano? Respiração incorpórea.
— Ah — Disse uma voz familiar. — Temos visita.
Raiz se apoiou num dos joelhos, apontando a arma para a fonte da voz.
— Veio resgatar sua policial desaparecida, sem dúvida.
O comandante piscou para afastar uma gota de suor do olho.
Suor? Nessa temperatura?
— Bom, acho que veio ao lugar errado.
A voz era minúscula. Artificial. Amplificada. Raiz verificou o localizador de sinais de vida. Não havia nenhuma. Pelo menos não naquele cômodo. Haveria uma câmera em algum lugar, escondida no labirinto de tubos acima, que poderia penetrar o escudo das fadas?
— Onde você está? Mostre-se!
O humano deu um risinho. Que ecoou naturalmente no espaço vasto.
— Ah, não. Ainda não, meu amigo das fadas. Mas em breve. E acredite, quando eu fizer isso, você desejará que não tivesse acontecido.
Raiz seguiu a voz. Mantenha o humano falando.
— O que você quer?
— Hmm. O que eu quero? De novo, você vai saber logo.
Havia um caixote baixo no centro da câmara. Sobre ele uma pasta de executivo. A pasta estava aberta.
— Por que me trouxe aqui?
Raiz cutucou a pasta com sua pistola. Nada aconteceu.
— Eu o trouxe para uma demonstração.
O comandante se inclinou sobre a pasta. Dentro, acomodado num invólucro de espuma, havia um pacote embalado a vácuo e um transmissor VHF de três faixas. Em cima estava o localizador de Holly. Raiz gemeu. Holly não entregaria de boa vontade seu equipamento; nenhum agente da LEP faria isso.
— Que tipo de demonstração, seu maluco demente?
De novo aquele risinho frio.
— Uma demonstração de meu compromisso absoluto para com os meus objetivos.
Raiz deveria ter começado a se preocupar com sua saúde, mas também estava preocupado com a de Holly.
— Se você machucou ao menos a ponta das orelhas de minha agente...
— Sua agente? Ah, nós temos alguém do comando. Que privilégio! Muito melhor para eu enfatizar o que quero dizer.
Campainhas de alarme soaram na cabeça de Raiz.
— O que quer dizer?
A voz que emanava do alto-falante de alumínio era tão séria quanto um inverno nuclear.
— O que quero dizer, homenzinho das fadas, é que não sou uma pessoa com quem se possa brincar. Agora, se quiser observar o pacote, por favor...
O comandante observou, obedientemente. Era uma forma comum. Lisa, como um pedaço de massa de vidraceiro, ou...
Ah, não.
Debaixo do invólucro, uma luz vermelha se acendeu.
— Voe, fadinha — Disse a voz. — E diga a seus amigos que Artemis Fowl II diz olá.
Debaixo da luz vermelha símbolos verdes começaram a piscar. Raiz os reconheceu de suas aulas de estudos humanos na Academia. Eram... números. Recuando. Uma contagem regressiva!
— D:Arvit — Rosnou Raiz. (Não há sentido em traduzir essa palavra, porque seria censurada.)
Ele se virou e disparou pelo corredor, com a voz zombeteira de Artemis Fowl ressoando no funil de metal.
— Três — Disse o humano. — Dois...
— D:Arvit — Repetiu Raiz.
Agora o corredor parecia muito mais comprido. Uma fatia de céu estrelado espreitou pela fresta de uma porta aberta. Raiz ativou suas asas. Isso exigiria um vôo complicado. A envergadura do Beija-Flor era pouco mais estreita do que o corredor do navio.
— Um.
Fagulhas voaram enquanto as asas eletrônicas raspavam num tubo. Raiz girou, consertando o rumo em MACH 1.
— Zero... — Disse a voz. — Bum!
Dentro do pacote embalado a vácuo um detonador foi acionado, acendendo um quilo de puro Semtex. A reação de um branco incandescente devorou o oxigênio em volta num nanossegundo e seguiu pelo caminho de menor resistência, que, claro, ia logo atrás do comandante Raiz, da LEP.
Raiz baixou o visor, abrindo o acelerador ao máximo. Agora a porta estava a dois metros de distância. Era só uma questão de o que chegaria primeiro — o elfo ou a bola de fogo.
Conseguiu. Por pouco. Pôde sentir a explosão sacudindo seu tronco enquanto ele fazia um giro reverso. Chamas roçaram seu macacão, lambendo ao longo das pernas. Raiz continuou a manobra, batendo direto na água gelada.
Rompeu a superfície xingando.
Acima dele o baleeiro fora totalmente consumido por chamas violentas.
— Comandante — veio uma voz em seu fone de ouvido.
Era Potrus. Ele estava de volta ao alcance do aparelho.
— Comandante? Qual é a sua situação?
Raiz se ergueu, livrando-se da água.
— Minha situação, Potrus, é extremamente chateado. Vá para os seus computadores. Quero saber tudo que há para saber sobre um tal de Artemis Fowl, e quero saber antes de voltar à base.
— Sim, comandante. Imediatamente.
Sem piadinhas. Até Potrus percebeu que não era hora.
Raiz pairou a 300 metros de altura. Abaixo dele o baleeiro incendiado atraía veículos de emergência como mariposas indo para a luz. Ele espanou fiapos chamuscados dos cotovelos. Esse tal de Artemis Fowl veria, prometeu o comandante. Podia contar com isso.
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