ARTEMIS experimentou a maçaneta da porta e queimou a mão. Lacrada. A fada devia ter dado um tiro na fechadura com sua arma.
Muito astuta. Uma variável a menos na equação.
Era exatamente o que ele teria feito.
Não perdeu tempo tentando abrir a porta à força. Era de aço reforçado e ele tinha doze anos. Não é preciso ser gênio para deduzir, ainda que ele fosse. Em vez disso, o herdeiro dos Fowl atravessou a sala até a parede de monitores e seguiu dali os acontecimentos.
Soube imediatamente o que a LEP tinha decidido fazer — mandar o troll para garantir um pedido de socorro, interpretá-lo como um convite e em seguida uma brigada de soldados goblins estaria ocupando a mansão. Inteligente. E não fora previsto. Era a segunda vez em que ele havia subestimado os oponentes. De um modo ou de outro, não haveria uma terceira.
A medida que o drama se desenrolava nos monitores, as emoções de Artemis saltaram do terror ao orgulho. Butler tinha conseguido. Derrotara o troll, e sem um único pedido de socorro nos lábios.
Olhando aquilo Artemis apreciou totalmente, talvez pela primeira vez, o serviço prestado pela família Butler.
Ativou o rádio de três faixas, transmitindo em todas as freqüências.
— Comandante Raiz, presumo que esteja monitorando os canais...
Durante alguns instantes apenas ruído emanou dos alto-falantes microscópicos, até que Artemis ouviu o barulho agudo de um microfone sendo ligado.
— Estou ouvindo, humano. O que posso fazer por você?
— É o comandante?
Um ruído se filtrou através do tecido preto sobre os alto-falantes. Parecia um relincho.
— Não. Não é o comandante. É Potrus, o centauro. É aquele humano seqüestrador vagabundo?
Artemis levou um instante para processar o fato de que tinha sido insultado.
— Senhor... ah... Potrus. Obviamente não estudou seus textos de psicologia. Não é sensato antagonizar quem está com a refém. Eu posso ser instável.
— Pode ser instável? Não há pode nisso. Não que isso importe. Logo você não passará de uma nuvem de moléculas radioativas.
Artemis deu um risinho.
— É aí que você está enganado, meu amigo quadrúpede. Quando aquela biobomba for detonada, eu já terei saído há muito desta parada temporal.
Foi a vez de Potrus rir.
— Está blefando, humano. Se houvesse um modo de escapar do campo, eu teria descoberto. Acho que você está pensando com o...
Felizmente foi nesse momento que Raiz pegou o microfone.
— Fowl? Aqui é o comandante Raiz. O que você quer?
— Só gostaria de informar, comandante, que apesar de sua tentativa de traição eu ainda estou disposto a negociar.
— Aquele troll não teve nada a ver comigo. Isso foi feito contra a minha vontade.
— O fato é que foi feito, e pela LEP. O trato que tínhamos se acabou. Então eis meu ultimato: o senhor tem trinta minutos para mandar o ouro, caso contrário eu me recuso a soltar a capitã Short. Além disso, não irei levá-la comigo quando sair do campo temporal, deixando-a para ser desintegrada pela biobomba.
— Não seja idiota, humano. Você está se iludindo. A tecnologia da Lama é atrasada milênios com relação à nossa. Não há como escapar do campo temporal.
Artemis chegou perto do microfone, dando seu sorriso de lobo.
— Só há um meio de descobrir, Raiz. Está disposto a apostar a vida da capitã Short?
A hesitação de Raiz foi sublinhada pelo sibilar de interferência. Sua resposta, quando veio, tinha apenas um leve tom de derrota.
— Não — suspirou ele. — Não estou. Você terá seu ouro, Fowl. Uma tonelada. Vinte e quatro quilates.
Artemis deu um risinho de desprezo. Tremendo ator, nosso comandante Raiz.
— Trinta minutos, comandante, conte os segundos, se os seus relógios pararam. Eu estou esperando, mas não por muito tempo.
Artemis encerrou o contato, recostando-se na cadeira giratória. Parecia que a isca fora aceita. Sem dúvida os analistas da LEP tinham descoberto seu convite "acidental". O Povo das Fadas pagaria, porque acreditava que o ouro seria deles de novo assim que Artemis estivesse morto. Vaporizado por uma biobomba. O que, claro, não ia acontecer. Em teoria.
Butler disparou três tiros contra o portal. A porta em si era de aço e teria feito as balas Devastador ricochetearem de volta para ele. Mas o portal era da pedra porosa original usada para construir a mansão, e se despedaçou como giz. Uma falha de segurança muito básica, e que teria de ser remediada assim que este negócio terminasse.
O patrão Artemis estava esperando calmamente em sua cadeira perto do banco de monitores.
— Bom trabalho, Butler.
— Obrigado, Artemis. Nós tivemos problema durante um momento lá embaixo. Se não fosse a capitã...
Artemis assentiu.
— É. Eu vi. Cura, uma das artes das fadas. Fico imaginando por que ela fez isso.
— Eu também — Disse Butler em voz baixa. — Nós certamente não merecemos.
Artemis ergueu os olhos incisivamente.
— Mantenha a fé, velho amigo. O fim está à vista.
Butler assentiu; até mesmo tentou um sorriso. Mas apesar de haver muitos dentes no riso, não havia coração.
— Dentro de menos de uma hora a capitã Short estará de volta ao seu povo, e nós teremos dinheiro suficiente para relançar alguns de nossos empreendimentos mais agradáveis.
— Eu sei. É que...
Artemis não precisava perguntar. Sabia exatamente o que Butler estava sentindo. A fada tinha salvado a vida dos dois, e mesmo assim ele insistia em cobrar o resgate. Para um homem de honra como Butler, isso estava quase além do que ele podia suportar.
— As negociações terminaram. De um modo ou de outro ela será devolvida ao seu povo. Nenhum mal acontecerá à capitã Short. Você tem minha palavra.
— E Juliet?
— Sim?
— Minha irmã corre algum perigo?
— Não. Perigo nenhum.
— As fadas vão nos entregar esse ouro e ir embora?
Artemis fungou baixinho.
— Não, não exatamente. Eles vão detonar uma biobomba na mansão no segundo em que a capitã Short estiver livre.
Butler inspirou, pretendendo falar, mas hesitou. Obviamente havia mais alguma coisa no plano. O patrão Fowl diria quando ele precisasse saber. Então, em vez de interrogá-lo, Butler fez uma declaração simples.
— Eu confio em você, Artemis.
— Sim — Respondeu o garoto, com o peso dessa confiança riscado na testa. — Eu sei.
Porrete estava fazendo o que os políticos fazem melhor: tentando se livrar da responsabilidade.
— Sua oficial ajudou os humanos — Disse ele bruscamente, juntando o máximo de indignação possível. — Toda a operação estava seguindo exatamente como planejado, até que sua policial atacou o nosso agente.
— Agente? — zombou Potrus. — Agora o troll é um agente.
— Sim. É. E aquele humano o transformou em picadinho.
Toda a situação poderia ter se resolvido se não fosse a incompetência de seu departamento.
Normalmente Raiz já teria perdido a cabeça, mas sabia que Porrete estava se apegando a qualquer coisa, tentando desesperadamente salvar a carreira. Por isso o comandante apenas sorriu.
— Ei, Potrus?
— Sim, comandante?
— Nós temos o ataque do troll gravado em disco?
O centauro deu um suspiro dramático.
— Não, senhor, nós ficamos sem discos logo antes de o troll entrar.
— Que pena!
— Uma vergonha.
— Aqueles discos poderiam ser valiosíssimos para o comandante interino Porrete em sua audiência no tribunal.
A tranqüilidade de Porrete saiu voando pela janela.
— Dê-me esses discos, Julius. Esta é uma obstrução descarada.
— Você é o único culpado de obstrução aqui, Porrete. Usando esse caso para subir na carreira.
O rosto de Porrete assumiu um tom que combinava com o de Raiz. A situação escapava ao seu controle, e ele sabia disso.
Até mesmo Chix Verbil e os outros duendes estavam se afastando do líder.
— Eu ainda estou no comando aqui, Julius, portanto entregue esses discos ou eu vou detê-lo.
— Ah, verdade? Você e o exército de quem?
Por um segundo o rosto de Porrete brilhou com a pompa antiga. Mas ela se evaporou no momento em que ele percebeu a óbvia falta de oficiais ao seu lado.
— Isso mesmo — zombou Potrus. — Você não é mais o comandante interino. A notícia veio lá de baixo. Você tem um compromisso com o Conselho, e eu não acho que é para lhe oferecer um lugar.
Foi provavelmente o riso de Potrus que fez Porrete passar do limite.
— Dê-me esses discos! — Rugiu ele, apertando Potrus contra a parede do lançador.
Raiz sentiu-se tentado a deixá-los lutar um tempo, mas não era hora de se divertir.
— Menino malvado — Disse ele, apontando o indicador para Porrete. — Ninguém bate em Potrus, só eu.
Potrus empalideceu.
— Cuidado com esse dedo, você ainda está usando o...
O polegar de Raiz esbarrou acidentalmente no nó do indicador, abrindo uma minúscula válvula de gás. O gás liberado lançou um dardo tranqüilizante através do látex da ponta do dedo, direto para o pescoço de Porrete. O comandante interino, futuro soldado raso, desmoronou como uma pedra.
Potrus esfregou o pescoço.
— Belo tiro, comandante.
— Não sei do que você está falando. Foi um acidente. Eu tinha me esquecido do dedo falso. Há vários precedentes, pelo que eu soube.
— Ah, sem dúvida. Infelizmente Porrete ficará inconsciente durante várias horas. Quando acordar, toda a agitação terá terminado.
— Que pena. — Raiz se permitiu um riso rápido, depois era voltar aos negócios. — O ouro está aqui?
— Sim, eles acabaram de mandar.
— Bom. — Em seguida gritou para os envergonhados subalternos de Porrete: — Carreguem-no numa plataforma flutuante e mandem para lá. Se acontecer algum problema eu faço vocês comerem suas asas. Entendido?
Ninguém respondeu, mas estava claro. Sem dúvida.
— Bom. Vão andando.
Raiz desapareceu no veículo que funcionava como centro de operações, com Potrus batendo os cascos logo atrás. O comandante fechou a porta com força.
— Está armada?
O centauro apertou alguns interruptores de aparência importante no painel principal.
— Agora está.
— Quero que a lance assim que for possível. — Ele olhou pelo vidro refrator à prova de laser. — Nós só temos alguns minutos. Estou vendo a luz do sol querendo atravessar.
Potrus se curvou sério sobre seu teclado.
— A magia está se rompendo. Dentro de quinze minutos estaremos no meio do dia na superfície. As correntes de neutrino estão perdendo a integridade.
— Sei — Disse Raiz, o que era basicamente uma mentira de novo. — Certo, não sei. Mas entendi a parte sobre os quinze minutos. Isso lhe dá dez minutos para tirar a capitã Short de lá. Depois disso seremos alvos fáceis para toda a raça humana.
Potrus ativou outra câmera. Esta era ligada à plataforma flutuante. Passou um dos dedos de leve sobre um trackpad. A plataforma disparou para a frente, quase decapitando Chix Verbil.
— Belo controle — Murmurou Raiz. — Ela sobe a escada?
Potrus nem levantou os olhos dos computadores.
— Compensador de liberação automático. Alcance de um metro ponto cinco. Sem problema.
Raiz cravou-lhe um olhar irado.
— Você faz isso só para me chatear, não é?
Potrus deu de ombros.
— Talvez.
— Sim, bem, considere-se com sorte porque meus outros dedos não estão carregados. Entendeu o que eu disse?
— Sim, senhor.
— Bom. Agora vamos trazer a capitã Short para casa.
Holly estava pairando na varanda. Fachos de luz alaranjada riscavam o azul. A parada temporal estava se rompendo. Restavam apenas alguns minutos antes que Raiz desse uma enxaguada azul naquele lugar. A voz de Potrus zumbiu em seu fone de ouvido.
— Certo, capitã Short. O ouro está a caminho. Esteja pronta para agir.
— Nós não barganhamos com seqüestradores – Disse Holly, surpresa. — O que está acontecendo aqui?
— Nada — Respondeu Potrus casualmente. — Uma troca simples. O ouro entra, você sai. Nós mandamos o míssil. Uma grande explosão azul, e tudo acaba.
— Fowl sabe da biobomba?
— Sim. Sabe de tudo. Diz que pode escapar do campo temporal.
— Isso é impossível.
— Correto.
— Mas todos eles serão mortos!
— Grande coisa — Retrucou Potrus, e Holly quase pôde vê-lo dando de ombros. — É isso que dá mexer com o Povo.
Holly estava dividida. Sem dúvida Fowl era um perigo para o mundo civilizado no subsolo. Muito poucas lágrimas seriam derramadas sobre seu corpo. Mas a garota, Juliet, era inocente.
Merecia uma chance.
Holly desceu para uma altitude de dois metros. A altura da cabeça de Butler. Os humanos estavam reunidos no monte de destroços que tinha sido um corredor. Havia uma desunião entre eles. A oficial da LEP podia sentir.
Holly olhou acusadoramente para Artemis.
— Você contou a eles?
Artemis devolveu o olhar.
— Contei o quê?
— Sim, fada, contou o quê? — Ecoou Juliet beligerante, ainda um pouco emburrada por causa do mesmer.
— Não banque o idiota, Fowl. Você sabe do que estou falando.
Artemis nunca podia bancar o idiota durante muito tempo.
— Sim, capitã Short, contei. A biobomba. Sua preocupação seria tocante, caso se estendesse a mim. Mesmo assim não se abale. Tudo está seguindo de acordo com o plano.
— De acordo com o plano! — ofegou Holly, apontando para a devastação ao redor. — Isto era parte do plano? E Butler quase ser morto, fazia parte do plano?
— Não — admitiu Artemis. — O troll foi um ligeiro desvio. Mas irrelevante para o esquema geral.
Holly resistiu à ânsia de dar outro soco naquele humano pálido, e em vez disso se virou para Butler.
— Escute a razão, pelo amor de Deus. Vocês não podem escapar do campo temporal. Isso nunca foi feito.
As feições de Butler pareciam esculpidas em pedra.
— Se Artemis diz que pode ser feito, pode.
— Mas sua irmã. Você está disposto a arriscar a vida dela por lealdade a um criminoso?
— Artemis não é criminoso, moça, ele é um gênio. Agora, por favor, retire-se de minha linha de visão. Eu estou monitorando a entrada principal.
Holly subiu a seis metros de altura.
— Vocês são malucos. Todos vocês! Dentro de cinco minutos todos vão virar pó. Não percebem?
Artemis suspirou.
— Você teve sua resposta, capitã. Agora, por favor. Este é um estágio delicado nos trâmites.
— Trâmites? Isto é um seqüestro! Pelo menos tenha coragem de dar o nome certo.
A paciência de Artemis estava começando a se esgarçar.
— Butler, nós ainda temos algum dardo tranqüilizante?
O mordomo gigantesco assentiu, mas não falou. Naquele exato momento, se viesse a ordem para sedá-la, ele não tinha certeza de que obedeceria. Por sorte a atenção de Artemis foi desviada por atividade na avenida.
— Ah, parece que a LEP capitulou. Butler, supervisione a entrega. Mas fique alerta. Nossos amigos das fadas não estão isentos de trapaças.
— Olhem só quem fala — Murmurou Holly.
Butler correu até o portal demolido, verificando o pente e a trava de sua Sig Sauer nove milímetros. Estava quase agradecendo por um pouco de atividade militar para distraí-lo de seu dilema. Em situações assim, o treinamento assumia o controle.
Não havia espaço para sentimentos.
Uma fina névoa de poeira pairava no ar. Butler forçou a vista através dela, olhando a avenida mais além. Os filtros do capacete das fadas, presos sobre seus olhos, revelavam que não havia corpos quentes se aproximando. Mas havia uma grande plataforma aparentemente andando sozinha até a porta da frente. Flutuava num colchão de ar que tremulava. Sem dúvida o patrão Artemis entenderia a física daquela máquina, tudo com que Butler se importava era se ele podia ou não fazê-la parar.
A plataforma bateu no primeiro degrau.
— Compensador automático é o meu pé! — Fungou Raiz.
— É, é, é — Respondeu Potrus. — Eu estou trabalhando nisso.
— É o resgate — gritou Butler.
Artemis tentou conter a empolgação que subia pelo peito.
Esta não era a hora de permitir que as emoções penetrassem na equação.
— Verifique alguma armadilha.
Butler saiu cautelosamente para a varanda. Estilhaços de gárgulas desintegradas se espalhavam sob seus pés.
— Nada de aparência hostil. Parece ter algum motor interno.
A plataforma se sacudiu sobre os degraus.
— Não sei quem está dirigindo esta coisa, mas seria bom que ele tivesse umas aulas.
Butler se abaixou, examinando a parte de baixo da plataforma.
Em seguida extraiu do bolso um detector, esticando a antena telescópica.
— Nada de suspeito. Pelo menos nada perceptível. Mas o que temos aqui?
— Epa — Disse Potrus.
— É uma câmera.
Butler esticou a mão, puxando a lente olho-de-peixe pelo cabo.
— Tchauzinho, cavalheiros.
Apesar da carga que transportava, a plataforma reagiu facilmente ao toque de Butler, deslizando pela abertura da porta até o saguão. Ficou ali zumbindo baixinho, como se esperasse para ser descarregada.
Agora que chegara o momento, Artemis estava quase com medo de pegá-lo. Era difícil acreditar que, depois de todos aqueles meses, seu plano maligno estava a minutos de dar resultado. Claro que esses últimos minutos eram os mais vitais, e os mais perigosos.
— Abra — Disse finalmente, surpreso com o tremor da própria voz.
Era um momento irresistível. Juliet se aproximou hesitando, com os olhos arregalados. Até Holly diminuiu a velocidade das asas, baixando até que seus pés tocassem o piso de mármore.
Butler abriu o zíper da lona preta, puxando-o por toda a extensão da carga.
Ninguém disse nada. Artemis imaginou que, em algum lugar, a Abertura 1812 estaria tocando. O ouro estava ali, empilhado em fileiras brilhantes. Parecia ter uma aura, um calor, mas também um perigo inerente. Havia muita gente disposta a morrer ou matar pela riqueza inimaginável que aquele ouro podia trazer.
Holly estava hipnotizada. As fadas têm uma afinidade com os minérios, eles são da terra. Mas o ouro era o predileto. Seu brilho. Sua atração.
— Eles pagaram — sussurrou ela. — Não posso acreditar.
— Nem eu — Murmurou Artemis. — Butler, é de verdade?
Butler pegou uma barra na pilha. Enfiou aponta de uma faca no lingote, arrancando uma pequena lasca.
— É de verdade — Falou, estendendo a lasca para a luz. — Pelo menos este.
— Bom. Muito bom. Comece a descarregar, certo? Vamos mandar a plataforma de volta com a capitã Short.
O som de seu nome afastou de Holly a febre do ouro.
— Artemis, desista. Nenhum humano jamais conseguiu ficar com ouro das fadas. E eles vêm tentando há séculos. A LEP fará qualquer coisa para proteger o que é dela.
Artemis balançou a cabeça. Divertido.
— Eu lhe disse.
Holly o agarrou pelos ombros.
— Você não pode escapar! Não entende?
O garoto devolveu o olhar com frieza.
— Eu posso escapar. Olhe nos meus olhos e diga que não posso.
Ela olhou. A capitã Short olhou nos olhos azuis escuros de seu seqüestrador e viu a verdade. E por um momento acreditou.
— Ainda há tempo — Falou desesperada. — Deve haver alguma coisa. Eu tenho magia.
Uma ruga de irritação franziu a testa do garoto.
— Odeio desapontá-la, capitã, mas não há absolutamente nada.
Artemis fez uma pausa, o olhar atraído momentaneamente para cima, em direção ao sótão convertido. Talvez, pensou. Será que realmente preciso deste ouro? E não era sua consciência que o estava beliscando, azedando a doçura da vitória? Estremeceu. Atenha-se ao plano. Nada de emoção.
Artemis sentiu uma palma familiar no ombro.
— Está tudo bem?
— Sim, Butler. Continue descarregando. Peça a Juliet para ajudar. Eu preciso falar com a capitã Short.
— Tem certeza de que não há nada errado?
Artemis suspirou.
— Não, velho amigo, não tenho certeza. Mas agora é tarde demais.
Butler assentiu, voltando à tarefa. Juliet foi atrás dele como um cachorrinho.
— Agora, capitã. Quanto à sua magia.
— O que há com ela? — Os olhos de Holly estavam cobertos pela suspeita.
— O que eu tenho de fazer para comprar um desejo?
Holly olhou para a plataforma.
— Bom, isso depende. O que você tem para barganhar?
Não se pode dizer que Raiz estivesse relaxado. Faixas cada vez mais largas de luz amarela atravessavam o azul. Faltavam minutos. Minutos. Sua enxaqueca não era ajudada pelo charuto forte que enchia o organismo com toxinas.
— Todo o pessoal não-essencial foi evacuado?
— A não ser que eles tenham voltado desde a última vez em que você me perguntou.
— Agora não, Potrus. Acredite, não é hora. Alguma coisa da capitã Short?
— Nada. Nós perdemos o vídeo depois do negócio do troll.
Acho que a bateria se rompeu. É melhor tirarmos aquele capacete dela o mais rápido possível, ou a radiação vai fritar seu cérebro. Seria uma pena, depois de todo esse trabalho.
Potrus voltou ao console. Uma luz vermelha começou a pulsar suavemente.
— Espere, sensor de movimento. Temos atividade na entrada principal.
Raiz foi até as telas.
— Você pode ampliar?
— Sem problema. — Potrus digitou as coordenadas, ampliando em 400 por cento.
Raiz sentou-se na cadeira mais próxima.
— Eu estou vendo o que acho que estou vendo?
— Claro que está. — Potrus deu um risinho. — Isto é melhor até mesmo do que a armadura.
Holly estava saindo. Com o ouro.
A equipe de resgate estava junto dela em meio segundo.
— Vamos tirá-la da zona de perigo, capitã — insistiu um duende alado, agarrando Holly pelo cotovelo.
Outro passou um sensor de radiatividade sobre seu capacete.
— Temos um rompimento de fonte de energia aqui, capitã.
Precisamos desinfectar sua cabeça imediatamente.
Holly abriu a boca para protestar, e foi instantaneamente enchida por espuma supressora de radiatividade.
— Isso não pode esperar? — cuspiu ela.
— Desculpe, capitã. O tempo é essencial. O comandante quer uma reunião antes de detonarmos.
Holly foi levada para a Unidade Operacional Móvel. Em volta dela os Limpadores da equipe de resgate examinavam o terreno procurando qualquer sinal do cerco.
Técnicos desmontavam as parabólicas do campo, preparando-se para o desligamento. Grunts guiou a plataforma em direção ao portal. Era imperativo que tudo fosse recolocado numa distância segura antes que a biobomba explodisse.
Raiz estava esperando na escada.
— Holly — Disse ele num rompante. — Quero dizer, capitã. Você conseguiu.
— Sim, senhor. Obrigada, senhor.
— E o ouro também. Isto é um grande motivo de orgulho para você.
— Bom, não totalmente, comandante. Acho que é só a metade.
Raiz assentiu.
— Não importa. Teremos o resto muito em breve.
Holly enxugou a espuma anti-radioativa da testa.
— Eu estive pensando nisso, senhor. Fowl cometeu outro erro. Ele não ordenou que eu não entrasse de novo na casa, e como foi ele que me trouxe, o convite continua de pé. Eu poderia entrar e fazer uma limpeza mental nos ocupantes. Poderíamos esconder o ouro nas paredes e fazer outra parada temporal amanhã de noite...
— Não, capitã.
— Mas, senhor...
As feições de Raiz recuperaram toda a tensão que tinham perdido.
— Não, capitã. O conselho não vai aceitar um Homem da Lama seqüestrador. Simplesmente não vai acontecer. Eu tenho minhas ordens, e acredite, elas são inflexíveis.
Holly acompanhou Raiz até o veículo.
— Mas a garota, senhor. Ela é inocente!
— Baixa de guerra. Ela ficou do lado errado. Nada pode ser feito por ela agora.
Holly estava incrédula.
— Uma baixa de guerra? Como pode dizer isso? Uma vida é uma vida.
Raiz girou bruscamente, agarrando-a pelos ombros.
— Você fez o que pôde, Holly. Ninguém poderia ter feito mais. Até mesmo recuperou a maior parte do resgate. Está sofrendo do que os humanos chamam de síndrome de Estocolmo: está ligada aos seus captores. Não se preocupe, isso passa. Mas aquelas pessoas lá dentro sabem. Sabem sobre nós. Nada pode salvá-las agora.
Potrus ergueu os olhos depois de fazer alguns cálculos.
— Não é verdade. Tecnicamente. A propósito, Holly, bem-vinda.
Holly não podia gastar nem mesmo um segundo para devolver o cumprimento.
— O que quer dizer com não é verdade?
— Eu estou bem, já que você perguntou.
— Potrus! — gritaram Raiz e Holly em uníssono.
— Bom, como diz o Livro, "Se o Homem da Lama pegar nosso bem, apesar da magia e do encanto também, o amado ouro dele vai ser, até o dia em que morrer". Então, se ele viver, ele ganha. É simples. Nem mesmo o Conselho irá contra o Livro.
Raiz coçou o queixo.
— Eu deveria estar preocupado?
Potrus deu um riso seco.
— Não. Seria melhor que aqueles caras morressem.
— Seria melhor não basta.
— Isto é uma ordem?
— Afirmativo, soldado.
— Eu não sou soldado — Disse Potrus, e apertou o botão.
Butler ficou mais do que um pouco surpreso.
— Você devolveu?
Artemis assentiu.
— Mais ou menos a metade. Ainda temos uma boa parte.
Uns quinze milhões de dólares pelo preço de hoje.
Geralmente Butler não perguntava. Mas dessa vez se sentiu obrigado.
— Por quê, Artemis? Pode me dizer?
— Acho que sim. — O garoto sorriu. — Eu senti que devia alguma coisa à capitã. Por serviços prestados.
— Só isso?
Artemis assentiu. Não precisava falar do desejo. Isso poderia ser percebido como uma fraqueza.
— Hmm — Disse Butler, mais esperto do que parecia.
— Agora devemos comemorar — Exclamou Artemis, habilmente mudando de assunto.
— Um pouco de champanha, acho.
O garoto foi até a cozinha antes que o olhar de Butler pudesse dissecá-lo.
Quando os outros o alcançaram, Artemis já havia enchido três taças com Don Perignon.
— Eu sou menor de idade, sei, mas tenho certeza de que mamãe não vai se importar. Só desta vez.
Butler sentiu que alguma coisa estava sendo armada. Mesmo assim, pegou a taça de cristal que lhe era oferecida.
Juliet olhou para o irmão.
— Posso?
— Acho que sim. — Ele respirou fundo. — sabe que eu amo você, não sabe, irmã?
Juliet fez um muxoxo — outra coisa que os rapazes da redondeza achavam muito atraente. E deu um soco no ombro do irmão.
— Você é sentimental demais para um guarda-costas.
Butler olhou o patrão direto nos olhos.
— Você quer que a gente beba isso, não é, Artemis?
Artemis o encarou, impávido.
— Sim, Butler. Quero.
Sem outra palavra Butler engoliu o conteúdo da taça, e Juliet o acompanhou. O mordomo sentiu imediatamente o gosto do tranqüilizante. E, ainda que tivesse tempo para partir o pescoço de Artemis Fowl, não fez isso. Não era preciso que Juliet ficasse perturbada em seus últimos momentos.
Artemis viu os amigos caírem no chão. Uma pena enganá-los. Mas se eles fossem alertados com relação ao plano, a ansiedade poderia contrabalançar o sedativo. Ele olhou para as bolhas girando em sua taça. Hora do passo mais audacioso de seu esquema. Com apenas uma hesitação levíssima, engoliu o champanha com tranqüilizante.
Esperou calmamente que a droga tomasse conta de seu organismo. Não precisou esperar muito, porque cada dose tinha sido calculada de acordo com o peso do corpo. Enquanto seus pensamentos começavam a redemoinhar, ocorreu-lhe que talvez nunca mais acordasse. É meio tarde para dúvidas, censurou-se, e afundou na inconsciência.
— Partiu — Disse Potrus, afastando-se do console. — Agora está fora das minhas mãos.
Os três acompanharam o progresso do míssil através das janelas polarizadas. Era realmente um equipamento notável.
Como sua arma principal era a luz, a precipitação podia ser concentrada num raio exato. O elemento radiativo usado era solinium 2, que tinha meia-vida de quatorze segundos. Isso significava efetivamente que Potrus podia ajustar a biobomba para dar uma enxaguada azul apenas na mansão Fowl, e em nenhuma folha de grama a mais, e além disso a construção estaria livre de radiação em um minuto. No caso de alguns disparos de solinium se recusarem a ficar concentrados, eles seriam contidos pelo campo temporal. Era o assassinato facilitado.
— O caminho de vôo é programado previamente — Explicou Potrus, ainda que ninguém estivesse prestando a menor atenção. — Ele vai entrar no saguão e detonar. O envoltório e o mecanismo de disparo são de liga plástica e vão se desintegrar completamente. Limpo como um assobio.
Raiz e Holly acompanharam o arco da bomba. Como tinha sido previsto, ela atravessou a porta destruída sem derrubar sequer uma lasca de pedra das paredes medievais.
Holly voltou a atenção para a câmera no nariz do míssil. Por um momento captou um vislumbre do corredor grandioso onde, até recentemente, tinha sido prisioneira. Nenhum humano à vista.
Talvez, pensou. Só talvez. Então olhou para Potrus e para a tecnologia nas pontas dos dedos dele. E percebeu que os humanos estavam realmente mortos.
A biobomba detonou. Uma esfera azul de luz condensada estalou e se espalhou, preenchendo cada canto da mansão com seus raios mortais. Flores murcharam, insetos encolheram e peixes morreram nos tanques. Nem um milímetro cúbico foi poupado. Artemis Fowl e seus seguidores não podiam escapar.
Era impossível.
Holly suspirou, dando as costas para a enxagüadora azul, que já ia se extinguindo. Apesar de todos os seus projetos grandiosos, no fim Artemis tinha sido um simples mortal. E por algum motivo ela lamentou o falecimento dele.
Raiz foi mais pragmático.
— Certo. Vistam o equipamento. Roupa de isolamento total.
— É perfeitamente seguro — Disse Potrus. — Você nunca prestava atenção na escola?
O comandante fungou.
— Eu confio na ciência só até a distância em que posso lançar você, Potrus. A radiação tem o hábito de permanecer quando certos cientistas garantiram que ela se dissipou. Ninguém sai da unidade sem roupa de isolamento. Então isso deixa você de fora, Potrus. Só temos roupas de bípedes. De qualquer modo, quero que fique nos monitores, só para garantir...
Para garantir o quê?, pensou Potrus, mas não comentou. Era melhor, para mais tarde poder falar, " eu não lhe disse?".
Raiz se virou para Holly.
— Está pronta, capitã?
Voltar para lá. A idéia de identificar três cadáveres não atraía Holly. Mas ela sabia que era seu dever. Era a única que conhecia o interior da casa pessoalmente.
— Sim, senhor. Estou indo.
Holly escolheu uma roupa de isolamento no cabide, vestindo-a sobre o macacão. De acordo com os treinos, verificou o mostrador antes de pôr o capuz vulcanizado. Uma queda de pressão indicaria um rasgo, que a longo prazo seria fatal.
Raiz alinhou no perímetro a equipe de inserção. Os demais integrantes da Resgate Um estavam mais ou menos tão ansiosos para se inserir na mansão quanto estariam para fazer malabarismos com balões fedorentos atlantianos.
— Tem certeza de que o grandão se foi?
— Sim, capitão Kelp. Ele se foi, de um modo ou de outro.
Encrenca não estava convencido.
— Porque aquele humano é maligno. Acho que ele tem alguma magia.
O cabo Larva riu, e recebeu imediatamente um tapa no ouvido. Murmurou alguma coisa sobre contar à mamãe e rapidamente prendeu o capacete.
Raiz sentiu apele ficar vermelha.
— Vamos andando. Sua missão é localizar e recuperar o ouro. Cuidado com armadilhas. Eu não confiava em Fowl quando ele estava vivo, e definitivamente não confio nele agora que está morto.
A palavra "armadilhas" atraiu a atenção de todo mundo. A idéia de uma mina pessoal explodindo na altura da cabeça bastava para afastar qualquer tranqüilidade dos soldados. Ninguém construía armas tão cruéis quanto os Homens da Lama.
Como a mais nova policial do Recon, Holly ia na frente. E ainda que não devesse haver qualquer hostilidade na mansão, ela se pegou estendendo a mão automaticamente para a Neutrino 2000.
A mansão estava num silêncio fantasmagórico, apenas com o borbulhar dos últimos clarões do solinium para aliviar a imobilidade. A morte também estava ali, no silêncio. A mansão era um berço de morte. Holly podia sentir o cheiro. Atrás daquelas paredes medievais estavam os corpos de milhões de insetos, e sob os pisos os cadáveres de aranhas e camundongos esfriando.
Aproximaram-se hesitantes da porta. Holly examinou toda a área com um visor de raio X. Nada havia sob as pedras do calçamento além de terra — e um ninho de aranhas.
— Caminho livre — Falou ao microfone. — Vou entrar.
Potrus, está com as orelhas atentas?
— Estou aqui com você, querida — Respondeu o centauro.
— A não ser que você pise numa mina terrestre, nesse caso eu estou bem aqui na sala de operações.
— Está recebendo alguma informação térmica?
— Não depois de uma enxagüadora azul. Temos assinaturas de calor residual por toda a casa. Principalmente estalos de solinium. Só vai se acalmar daqui a uns dois dias.
— Mas nada de radiação, certo?
— Isso mesmo.
Raiz fungou, incrédulo. Nos fones de ouvido aquilo soou como um elefante espirrando.
— Parece que teremos de limpar esta casa do modo antigo — grunhiu ele.
— Que seja rápido — alertou Potrus. — Eu dou no máximo quinze minutos antes que a mansão Fowl se junte de novo ao mundo lá fora.
Holly passou pelo que tinha sido a porta. O candelabro balançava levemente por causa da força da detonação do míssil, mas, afora isso, tudo prosseguia tal como se recordava.
— O ouro está lá embaixo. Na minha cela.
Ninguém respondeu. Não em palavras. Mas alguém emitiu um som de ânsia de vômito. Bem no microfone. Holly girou. Encrenca estava dobrado ao meio, agarrando a barriga.
— Eu não estou me sentindo bem — gemeu ele. Um tanto desnecessariamente, considerando a poça de vômito em cima de suas botas.
O cabo Larva respirou fundo, possivelmente para dizer uma frase com a palavra mamãe. O que saiu foi um jato de bile concentrada. Infelizmente Larva não teve oportunidade de abrir o visor antes que o enjôo batesse. Não foi uma coisa bonita.
— Argh — Disse Holly, apertando o botão que liberava o visor do cabo. Um maremoto de rações regurgitadas inundou a roupa de isolamento de Larva.
— Ah, pelo amor de Deus — Murmurou Raiz, passando pelos irmãos. Não chegou muito longe. Bastou um passo pelo patamar e estava vomitando como o resto.
Holly apontou a câmera do capacete para os policiais que passavam mal.
— Que diabo está acontecendo aqui, Potrus?
— Estou procurando. Espere.
Holly podia ouvir as teclas do computador sendo batucadas furiosamente.
— Certo. Vômito súbito. Náusea espacial... ah, não.
— O que é? — perguntou Holly. Mas já sabia. Talvez sempre tivesse sabido.
— É a magia — Disse Potrus, e as palavras soaram praticamente indecifráveis em sua agitação. — Eles não podem entrar na casa enquanto Fowl não estiver morto. É como uma extrema reação alérgica. Isso significa... é inconcebível, isso significa...
— Que eles conseguiram — completou Holly. — Ele está vivo. Artemis Fowl está vivo.
— D:Arvit — grunhiu Raiz, e soltou mais um litro de vômito nos ladrilhos de cerâmica.
Holly entrou sozinha. Precisava ver. Se o cadáver de Fowl estivesse na casa, estaria com o ouro, disso ela tinha certeza.
Os mesmos retratos de família a encaravam, mas agora pareciam mais presunçosos do que austeros. Holly se sentiu tentada a dar uns tiros neles com a Neutrino 2000.
Mas isso seria contra as regras. Se Artemis Fowl os havia derrotado, nada havia a fazer. Não haveria recriminações.
Desceu a escada até sua cela. A porta ainda estava balançando ligeiramente devido à explosão da biobomba. Um clarão de solinium ricocheteou pelo cômodo como um relâmpago azul aprisionado. Holly entrou, com medo do que poderia ver ou não.
Não havia nada. Pelo menos nada morto. Só o ouro. Aproximadamente duzentos lingotes. Empilhados no colchão de seu catre. Belas fileiras militares. O bom e velho Butler, o único humano a enfrentar um troll e vencer.
— Comandante? Está captando? Câmbio.
— Afirmativo, capitã. Qual é a contagem de cadáveres?
— Negativo com relação a cadáveres, senhor. Encontrei o resto do resgate.
Houve silêncio.
— Deixe, Holly. Você conhece as regras. Vamos sair.
— Mas, senhor. Deve haver um modo...
Potrus interveio na conversa.
— Sem mas, capitã. Estou contando os segundos até que a luz do dia chegue, e não gosto de pensar em nossas chances se tivermos de sair com o sol alto.
Holly suspirou. Fazia sentido. O Povo podia escolher a hora da saída, desde que saísse antes que o campo se desintegrasse.
Só estava chateada por terem sido derrotados por um humano.
E ainda por cima um humano adolescente.
Deu uma última olhada na cela. Uma grande bola de ódio tinha nascido ali, percebeu Holly, e mais cedo ou mais tarde teria de ser enfrentada. Enfiou a pistola de volta no coldre. De preferência mais cedo. Fowl tinha vencido desta vez, mas alguém como ele não iria descansar sobre os louros. Estaria de volta com algum outro esquema para ganhar dinheiro. E quando chegasse, encontraria Holly Short esperando. Esperando com uma arma grande e um sorriso.
O terreno estava macio perto do perímetro da parada temporal.
Meio milênio de drenagem ruim das muralhas medievais tinha transformado os alicerces praticamente num pântano. E foi ali que Palha chegou à superfície.
O chão macio não tinha sido o único motivo para escolher aquele ponto exato. O outro motivo era o cheiro. Um bom anão cavador de túneis pode captar o cheiro de ouro através de meio quilômetro de granito. Palha Escavator tinha um dos melhores narizes no ramo.
A plataforma flutuava praticamente sem ser vigiada. Dois dos melhores policiais do Resgate estavam parados ao lado do ouro recuperado, mas no momento riam um pouco de seu comandante abalado.
— Ele não conseguiu se segurar, não foi Chix?
Chix assentiu, imitando a técnica de vômito de Raiz.
A pantomima de Chix Verbil foi a cobertura perfeita para um pequeno roubo. Palha fez uma limpeza nos dutos internos antes de sair do túnel. A última coisa de que precisava era uma súbita explosão de gases para alertar a LEP de sua presença.
Não precisaria ter se preocupado. Poderia ter dado um tapa na cara de Chix Verbil com um verme fedorento molhado, e o duende nem perceberia.
Em questão de segundos ele havia transferido duas dúzias de lingotes para o túnel. Foi o trabalho mais fácil de sua vida. Palha teve de conter um risinho enquanto jogava as últimas duas barras no buraco. Julius realmente lhe fizera um favor, envolvendo-o nesse negócio. As coisas não poderiam ter sido melhores. Ele estava livre como um passarinho, rico e, o melhor de tudo, considerado morto.
Quando a LEP percebesse que o ouro estava faltando, Palha Escavator estaria a meio continente de distância. Se é que perceberiam.
O anão desceu para o solo. Seriam necessárias várias viagens para levar seu tesouro, mas valeria a pena. Com esse dinheiro ele poderia se aposentar antes do tempo. Teria de desaparecer por completo, claro, mas um plano já estava se formando em sua mente sinistra.
Viveria na superfície durante um tempo. Disfarçado de anão humano com aversão à luz. Talvez comprar uma cobertura com cortinas grossas. Provavelmente em Manhattan ou em Monte Carlo. Poderia parecer estranho, claro, um anão se escondendo do sol. Mas, afinal de contas, ele seria um anão obscenamente rico. E os humanos aceitam qualquer história, por mais estranha que seja, quando podem ganhar alguma coisa com ela. De preferência uma coisa de papel verde.
Artemis podia ouvir uma voz chamando seu nome. Havia um rosto atrás da voz, mas estava borrado, difícil de identificar. Seria seu pai?
— Papai? — A palavra era estranha em sua boca. Não usada. Enferrujada. Artemis abriu os olhos.
Butler estava curvado sobre ele.
— Artemis. Você acordou.
— Ah, Butler. É você.
Artemis se levantou, com a cabeça girando pelo esforço. Esperou a mão de Butler em seu cotovelo, para ajudá-lo. Não veio.
Juliet estava deitada numa espreguiçadeira, babando nas almofadas. Obviamente o efeito da bebida ainda não tinha passado.
— Eram só comprimidos para dormir, Butler. Inofensivos.
Os olhos do mordomo tinham um brilho perigoso.
— Explique-se.
Artemis esfregou os olhos.
— Mais tarde, Butler. Estou me sentindo um pouco...
Butler ficou no caminho dele.
— Artemis, minha irmã está drogada naquela poltrona. Ela quase foi morta. Então se explique agora!
Artemis percebeu que tinha recebido uma ordem. Pensou em ficar ofendido, depois concluiu que talvez Butler estivesse certo. Tinha ido longe demais.
— Eu não falei dos comprimidos para dormir porque você ia lutar contra o efeito. É natural. E era imperativo para o plano que todos nós dormíssemos imediatamente.
— O plano?
Artemis se sentou numa poltrona confortável.
— O campo temporal era a chave da coisa toda. É o ás na manga da LEP. É o que os tornou imbatíveis em todos esses anos. Qualquer incidente pode ser contido. Isso e a biobomba são uma combinação poderosa.
— Então por que nós tínhamos de ser drogados?
Artemis sorriu.
— Olhe pela janela. Não está vendo? Eles se foram. Acabou.
Butler olhou pelas cortinas. A luz estava clara e forte. Nem um pouquinho de azul. Mesmo assim o mordomo não ficou impressionado.
— Eles se foram por enquanto. Vão voltar de noite, é garantido.
— Não. Isso vai contra as regras. Nós os derrotamos. É isso, o jogo acabou.
Butler levantou uma sobrancelha.
— E os tranqüilizantes, Artemis?
— Vejo que não vai se distrair.
A resposta de Butler foi um silêncio implacável.
— Os tranqüilizantes. Muito bem. Eu tinha de pensar num modo de escapar ao campo temporal. Examinei todo o Livro, mas não havia nada. Nenhuma pista. O próprio Povo ainda não desenvolveu um modo. Por isso me voltei para o Velho Testamento deles, para quando a vida deles estava entrelaçada com a nossa. Você conhece a história: elfos que faziam sapatos durante a noite, duendes que limpavam casas. Na época em que nós coexistíamos até certo ponto. Favores mágicos em troca das fortalezas deles.
O maior de todos era Papai Noel.
As sobrancelhas de Butler quase saltaram do rosto.
— Papai Noel?
Artemis levantou as palmas das mãos.
— Eu sei, eu sei. Eu mesmo fiquei um pouco cético. Mas parece que nossa imagenzinha corporativa de Papai Noel não descende de um santo da Turquia, ela é uma sombra de Papai N'Oel, o terceiro rei da dinastia dos Elfos das Frondes. Ele é conhecido como Pap, o Iludido.
— Não parece um grande título.
— Parece que sim. N'Oel achava que a cobiça do Povo da Lama em seu reino poderia ser aplacada distribuindo presentes ricos. Ele juntava todos os grandes magos uma vez por ano e os mandava fazer uma grande parada temporal em vastas regiões.
Uma quantidade de duendes alados era mandada para entregar presentes enquanto os humanos estavam dormindo. Claro que não deu certo. A cobiça humana jamais pode ser aplacada, especialmente com presentes.
Butler franziu a testa.
— E se os humanos... isto é, nós... E se nós acordássemos?
— Ah, sim. Excelente pergunta. O âmago da questão. Nós não acordávamos. Esta é a natureza da parada temporal. Qualquer que seja o estado de consciência em que você entra, é nele que você permanece. Você não pode acordar nem cair no sono.
Você deve ter percebido a fadiga nos ossos nestas últimas horas, entretanto sua mente não o deixava dormir.
Butler assentiu. As coisas estavam ficando mais claras, de um modo meio tortuoso.
— Então minha teoria era de que o único modo de escapar do campo temporal era simplesmente adormecer. Nossa própria consciência era o que nos mantinha aprisionados.
— Você arriscou muita coisa a partir de uma teoria, Artemis.
— Não era só uma teoria. Nós tivemos alguém fazendo um teste.
— Quem? Ah, Angeline.
— Sim. Minha mãe. Devido ao seu sono induzido por narcóticos, ela prosseguiu na ordem natural do tempo, sem ser atrapalhada pelo campo temporal. Se não tivesse acontecido assim, eu simplesmente iria me render à LEP e me submeter ao apagamento mental deles.
Butler fungou. Duvidava disso.
— Então, como não podíamos cair no sono naturalmente, eu simplesmente administrei em nós uma dose dos comprimidos de mamãe. Simples.
— Mas a coisa foi por pouco. Mais um minuto...
— Concordo. As coisas ficaram tensas no final. Isso era necessário, para funcionar como um blefe duplo contra a LEP.
Ele parou, para que Butler pudesse processar a informação.
— Bom, eu estou perdoado?
Butler suspirou. Na espreguiçadeira, Juliet roncava como um marinheiro bêbado. Ele sorriu de repente.
— Sim, Artemis. Tudo está perdoado. Só uma coisa...
— Sim?
— Nunca mais. O Povo das Fadas é... muito humano.
— Você está certo — Disse Artemis, com os pés de galinha se intensificando em volta dos olhos. — Nunca mais. Vamos nos restringir a empreendimentos mais agradáveis no futuro.
Dentro da lei, eu prometo.
— Agora, jovem patrão, não deveríamos dar uma olhada em sua mãe?
Artemis ficou mais pálido, se é que isso era possível. Será que a capitã poderia ter deixado de cumprir a promessa? Sem dúvida ela teria todo o direito.
— Sim. Acho que deveríamos. Deixe Juliet descansar. Ela merece.
Ele ergueu os olhos, na direção da escada. Tinha sido esperança demais confiar na fada. Afinal de contas, ele a mantivera prisioneira contra a vontade. Censurou-se em silêncio. Imagine se separar de todos aqueles milhões em troca da promessa de um desejo. Ah, a ingenuidade!
Então a porta do sótão se abriu.
Butler sacou a arma instantaneamente.
— Artemis, fique atrás de mim. Intrusos.
O garoto o empurrou para o lado.
— Não, Butler. Acho que não.
Seu coração martelava nos ouvidos, o sangue pulsava na ponta dos dedos. Poderia ser? Poderia mesmo ser? Uma figura apareceu na escada. Parecendo uma aparição envolta num roupão atoalhado, com o cabelo molhado do chuveiro.
— Arty? — chamou ela. — Arty, você está aí?
Artemis queria responder, queria correr pela escadaria grandiosa, com os braços esticados. Mas não podia. Suas funções cerebrais o haviam abandonado.
Angeline Fowl desceu, com uma das mãos pousando levemente no corrimão.
Artemis tinha se esquecido de como a mãe era graciosa. Seus pés descalços vieram rapidamente sobre os degraus atapetados, e logo ela estava junto dele.
— Bom dia, querido — Disse ela, animada, como se fosse apenas um dia como outro qualquer.
— M... mamãe — gaguejou Artemis.
— Bom, me dê um abraço.
Artemis se envolveu no abraço da mãe. Era quente e forte.
Ela estava usando perfume. Ele se sentiu como o garoto que era.
— Desculpe, Arty — sussurrou ela em seu ouvido.
— Desculpe o quê?
— Tudo. Nos últimos meses eu não fui eu mesma. Está na hora de parar de viver no passado.
Artemis sentiu uma lágrima no rosto. Não tinha certeza se sabia de quem a lágrima era.
— E eu não tenho um presente para você.
— Um presente? — perguntou Artemis.
— Claro — cantarolou a mãe, girando-o. — Não sabe que dia é hoje?
— Dia?
— É Natal, seu garoto bobo. O dia de Natal! Os presentes são uma tradição, não é?
É, pensou Artemis. Tradição. Pap N'Oel.
— E olhe este lugar. Desanimado como um túmulo. Butler?
O mordomo guardou rapidamente a Sig Sauer no bolso.
— Sim, senhora?
— Telefone para Brown Thomas. O número do conjunto de platina. Reabra minha conta. Diga a Hélene que eu quero uma maquiagem de festa. De cima a baixo.
— Sim, madame. De cima a baixo.
Angeline Fowl passou o braço pelo do filho.
— Agora, Arty, eu quero saber de tudo. Em primeiro lugar, o que aconteceu aqui?
— Estamos remodelando — Disse Artemis. — A porta antiga estava cheia de umidade.
Angeline franziu a testa, nem um pouco convencida.
— Sei. E quanto à escola? Você já decidiu o que vai ser quando crescer?
Enquanto sua boca respondia a essas perguntas cotidianas, a mente de Artemis estava num tumulto. Ele era um garoto de novo. Sua vida ia mudar totalmente. Seus planos teriam de ser muito mais sutis do que nunca, para escaparem da atenção da mãe. Mas valeria a pena.
Angeline Fowl estava errada. Ela havia trazido um presente de Natal.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
Caramba! que livro! Amei! Lyh esse é um trabalho top! se possível continue a fazê_lo
Postar um comentário