quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Capítulo 3: Holly

HOLLY Short estava deitada na cama, numa fúria silenciosa. Não havia nada de incomum nisso. Em geral os leprechauns não eram conhecidos por sua amabilidade.

Mas Holly estava num humor excepcionalmente ruim, até mesmo para uma fada.

Tecnicamente ela era um elfo, já que fada é um termo genérico.

Era também um leprechaum, mas isso era apenas uma profissão.

Talvez uma descrição fosse mais útil do que uma aula de genealogia de fadas. Holly
Short tinha pele castanha, cabelo castanho-avermelhado cortado curto e olhos amendoados. Seu nariz era adunco, e a boca gorducha e angelical, o que era apropriado, considerando que Cupido era seu bisavô. Sua mãe era dos elfos europeus, de temperamento feroz e figura esguia. Holly também era magra, com dedos longos, perfeitos para se enrolarem em volta de um cassetete elétrico. As orelhas, claro, eram pontudas. Com exatamente um metro de altura, Holly tinha apenas um centímetro a menos do que a média das fadas, mas até um centímetro pode fazer uma tremenda diferença quando você não tem muitos para desperdiçar.

O comandante Raiz era causa da irritação de Holly. Raiz vinha pegando no seu pé desde o primeiro dia. O comandante tinha decidido se ofender com o fato de a primeira policial da história da Recon ter sido designada para seu esquadrão. A Recon era uma unidade de reconhecimento notoriamente perigosa, com alta taxa de mortes, e Raiz não achava que era lugar para uma garota.

Bom, ele teria de se acostumar com a idéia, porque Holly Short não tinha intenção de desistir por causa dele nem de ninguém.

Mesmo sem jamais admitir, outra causa possível para a irritação de Holly era o Ritual. Já vinha pretendendo realizá-lo há várias luas, mas nunca conseguia arranjar tempo. E se Raiz descobrisse que ela estava fraca em magia, Holly seria mandada para o Departamento de Tráfego, com certeza.

Holly enrolou seu acolchoado e foi tropeçando até o chuveiro. Esta era uma vantagem de morar perto do centro da Terra — a água era sempre quente. Não havia luz natural, claro, mas esse era um pequeno preço apagar pela privacidade.

O subterrâneo. A última área livre de humanos. Não havia nada como voltar para casa depois de um longo dia no trabalho, desligar o escudo e afundar numa piscina de lodo borbulhante. Delícia.
A fada se vestiu, fechando o zíper do macacão verde opaco até o queixo e prendendo o capacete. Hoje em dia os uniformes do LEPrecon eram elegantes. Não como aquelas roupas cafonas que a força policial tinha de usar nos velhos tempos.

Sapatos de fivela e calções amarrados nos joelhos! Honestamente. Não era de espantar que os leprechauns fossem uma figura tão ridícula no folclore humano. Mesmo assim, provavelmente era melhor desse jeito. Se o Povo da Lama soubesse que a palavra "leprechaum" na verdade se originava de LEPrecon, um ramo da Liga de Elite da Polícia, provavelmente tomaria alguma atitude para acabar com eles. Melhor ficar sem ser notados e deixar que os humanos tenham seus estereótipos.

Com a lua já nascendo na superfície, não havia tempo para um desjejum decente. Holly pegou o resto de um suco de urtiga e foi tomando pelos túneis. Como sempre, havia um caos na passagem principal. Duendes alados engarrafavam a avenida. Os gnomos também não estavam ajudando, com seus traseiros grandes e balouçantes atravancando as duas pistas. Sapos xingadores infestavam cada lugar úmido, soltando palavrões como marinheiros. Essa raça específica tinha começado como uma piada, mas se multiplicara numa epidemia. Alguém tinha perdido o controle sobre eles.

Holly lutou para atravessar a multidão até a delegacia. Um tumulto havia se formado do lado de fora do Empório Batata do Batata. O cabo Newt, da LEP, estava tentando dar um jeito na confusão. Boa sorte para ele. Pesadelo. Pelo menos Holly tinha a chance de trabalhar acima do solo.

As portas da delegacia da LEP estavam atulhadas de gente protestando. A guerra de gangues entre os goblins e os anões havia reiniciado, e todas as manhãs hordas de pais furiosos apareciam exigindo a libertação de seus inocentes filhinhos. Holly fungou. Se havia um goblin inocente, Holly Short ainda não tinha conhecido. Agora eles estavam atulhando as celas, uivando canções de gangues e lançando bolas de fogo uns contra os outros.

Holly abriu caminho pela multidão.

— Abram passagem — Rosnou. — Polícia.

— Meu filho Rabujo é inocente!

— Brutalidade policial!

— Policial, será que a senhora poderia levar o cobertor do meu neném? O coitadinho não consegue dormir sem ele.

Holly ajustou o visor para refletir e ignorou todos. Antigamente o uniforme garantia algum respeito. Agora não. Agora você era um alvo. "Com licença, policial, mas eu não sei onde pus minha jarra de verrugas." "Perdão, jovem elfo, mas meu gato subiu numa estalactite." Ou: "Se a senhora tiver um minuto, capitã, será que podia me dizer como chegar à Fonte da Juventude?" Holly estremeceu. Turistas. Ela já tinha problemas suficientes. Mais do que imaginava, como ia descobrir logo.

No saguão da delegacia um anão cleptomaníaco estava ocupado batendo as carteiras de todo mundo na fila do registro de ocorrências, inclusive do policial a quem ele estava algemado.
Holly lhe deu uma cutucada no traseiro com o cassetete elétrico. O choque chamuscou os fundilhos de suas calças de couro.

— O que está fazendo aí, Palha?

Palha levou um susto, deixando o contrabando cair das mangas.

— Policial Short — gemeu ele, com um rosto que era uma máscara de arrependimento. — Eu não consigo evitar, é minha natureza.

— Sei disso, palha. E é nossa natureza jogar você numa cela por uns dois séculos.

Ela piscou para o policial que estava prendendo o anão.

— É bom ver que você está alerta.

O elfo ruborizou-se, ajoelhando-se para pegar sua carteira e distintivo.

Holly passou pela sala de Raiz, esperando chegar ao seu cubículo antes que...

— SHORT VENHA CÁ!

Holly suspirou. Ah, bem. Lá vamos nós outra vez.

Enfiando o capacete debaixo do braço, Holly alisou as dobras do uniforme e entrou na sala do comandante Raiz.

O rosto de Raiz estava vermelho de fúria. Esse era mais ou menos o seu estado geral na vida, fato que lhe garantira o apelido de "Raiz de Beterraba". Os policiais tinham feito um bolo de apostas para saber quanto tempo ele tinha antes que seu coração explodisse. A média das apostas era meio século, no máximo.

O comandante Raiz estava batendo no luômetro em seu pulso.

— E então? Que horas você acha que são?

Holly pôde sentir seu rosto ficando vermelho também. Ela estava atrasada apenas um minuto. Havia pelo menos uma dúzia de policiais daquele turno que ainda nem tinha aparecido. Mas Raiz sempre a escolhia para a perseguição.

— A via expressa — Murmurou ela sem jeito. – Quatro pistas estavam paradas.

— Não me insulte com as suas desculpas — Rugiu o comandante. — Você sabe como é o centro da cidade! Levante-se alguns minutos mais cedo!

Verdade, ela sabia como o Refúgio era. Holly Short era um elfo nascido e criado na cidade. Desde que os humanos começaram a experimentar a mineração, um número cada vez maior de fadas tinha sido expulso das fortalezas mais rasas e descido para as profundezas e a segurança da Cidade do Refúgio. A metrópole era superpovoada e tinha problemas nos serviços. E agora havia uma pressão para que fossem liberados os automóveis no centro da cidade, onde só eram permitidos pedestres. Como se o lugar já não fosse fedido demais com todos aqueles gnomos do campo andando de um lado para o outro.

Raiz estava certo. Ela deveria acordar um pouco mais cedo.

Mas não faria isso. Não enquanto todo mundo também não fosse obrigado a fazer o mesmo.

— Eu sei o que você está pensando — Disse Raiz. – Por que eu pego no seu pé todo dia? Por que nunca dou bronca nos outros atrasados?

Holly ficou quieta, mas a concordância estava clara em seu rosto.

— Vou lhe dizer por que, posso?

Holly arriscou uma confirmação com a cabeça.

— Porque você é uma garota.

Holly sentiu os punhos se fecharem. Ela sabia!

— Mas não pelos motivos em que você pensa. Você é a primeira garota no Recon. Primeiríssima. Você é um teste especial. Um farol. Há milhões de fadas aí fora, observando cada movimento seu. Há um monte de esperanças depositadas em você. Mas também há um bocado de preconceitos. O futuro da lei está nas suas mãos. E no momento eu diria que esse futuro é um pouco pesado.

Holly piscou. Raiz nunca tinha dito algo assim antes. Geralmente era só "Ajeite o capacete", "Fique ereta", blá, blá, blá.

— Você precisa ser a melhor possível, Short, e isso significa ser melhor do que todos os outros. — Raiz suspirou, afundando em sua cadeira giratória. — Não sei, Holly. Desde aquele caso de Hamburgo.

Holly se encolheu. O caso de Hamburgo tinha sido um desastre total. Um de seus bandidos tinha escapado para a superfície e tentado barganhar asilo com o Povo da Lama. Raiz teve de parar o tempo, convocar o Esquadrão de Resgate e fazer quatro apagamentos de memória. Um bocado de tempo desperdiçado para a polícia. Tudo culpa dela.

O comandante pegou um formulário na mesa.

— Não adianta. Eu decidi. Vou colocar você no Departamento de Trânsito e trazer a cabo Fronde.
— Fronde! — Explodiu Holly. — Ela é uma tonta. Uma cabeça-de-vento. O senhor não pode transformá-la no teste especial!

O rosto de Raiz assumiu um tom de púrpura ainda mais profundo.

— Posso e vou. Por que não faria isso? Você nunca rendeu o máximo... Ou é isso ou você simplesmente não é boa o bastante. Desculpe, Short, você teve a sua chance...

O comandante se virou de novo para a sua papelada. A reunião havia acabado.

Holly só conseguiu ficar ali imóvel, pasma.

Tinha estragado tudo. A melhor oportunidade de carreira que jamais teria, e tinha jogado na sarjeta. Um erro e seu futuro era passado. Não era justo. Holly sentiu uma raiva pouco característica tomando conta, mas engoliu-a. Não era hora de perder as estribeiras.

— Comandante Raiz, acho que mereço mais uma chance.

Raiz nem levantou o olhar da papelada.

— E por quê?

Holly respirou fundo.

— Por causa do meu currículo, senhor. Ele fala por si, afora o caso de Hamburgo. Dez recons bem-sucedidos. Nem um único apagamento de memória ou parada de tempo, a não ser...

— O caso de Hamburgo.

Holly resolveu se arriscar.

— Se eu fosse do sexo masculino, um dos seus preciosos duendes alados, nós nem estaríamos tendo esta conversa.

Raiz ergueu os olhos incisivamente.

— Ei, espere aí, capitã Short...

O comandante foi interrompido pelo toque de um dos telefones na mesa. Depois dois, e três.
Uma tela gigante se acendeu na parede atrás dele.

Raiz apertou o botão do interfone, colocando em conferência todos que estavam ligando.

— Sim?

— Temos um fugitivo.

Raiz assentiu.

— Alguma coisa dos Scópios?

Scópios era o nome genérico dos rastreadores postos disfarçadamente nos satélites de comunicação americanos.

— Sim — Disse um segundo participante. — Um grande sinal na Europa. Sul da Itália. Sem escudo.

Raiz xingou. Um ser do Povo das Fadas sem escudo poderia ser visto por olhos mortais. Isso não era tão ruim se o bandido fosse humanóide.

— Classificação.

— Má notícia, comandante — Disse o terceiro participante. — É um troll desgarrado.

Raiz esfregou os olhos. Por que essas coisas sempre aconteciam no seu turno? Holly podia entender a frustração dele. Os trolls eram as piores criaturas dos túneis profundos. Percorriam o labirinto atacando qualquer coisa que tivesse a infelicidade de atravessar seu caminho. Seus cérebros minúsculos não tinham espaço para regras de controle. Ocasionalmente um conseguia chegar ao poço de um elevador de pressão. Geralmente a corrente de ar concentrada os fritava, mas algumas vezes um sobrevivia e era jogado na superfície. Enlouquecidos pela dor e até pela mínima quantidade de luz, eles geralmente começavam a destruir tudo em seu caminho.

Raiz balançou a cabeça rapidamente, recuperando-se.

— Certo, capitã Short. Parece que você conseguiu sua chance. Você está quente, não está?

— Sim, senhor — Mentiu Holly, consciente demais de que Raiz iria suspendê-la imediatamente se soubesse que ela havia negligenciado o Ritual.

— Bom. Então requisite uma arma e vá até a área-alvo.

Holly olhou para a tela. Os Scópios estavam mandando imagens de alta resolução de uma cidade fortificada na Itália. Um ponto vermelho movia-se rapidamente pelo campo, em direção à população humana.

— Faça um reconhecimento completo e mande um relatório. Não tente um resgate. Entendido?

— Sim, senhor.

— Nós perdemos seis policiais em ataques de trolls no último quarto de século. Seis policiais. Isso foi abaixo da superfície, em território familiar.

— Entendo, senhor.

Raiz apertou os lábios, em dúvida.

— Você entende, Short? Entende mesmo?

— Acho que sim, senhor.

— Você já viu o que um troll é capaz de fazer com a carne e os ossos?

— Não, senhor. Não de perto.

— Bom. Não vamos fazer do dia de hoje sua primeira vez.

— Entendi.

Raiz a encarou, maligno.

— Não sei por quê, capitã Short, mas sempre que você começa a concordar comigo eu fico decididamente nervoso.

Raiz estava certo em ficar nervoso. Se soubesse o que ia acontecer naquela missão de reconhecimento aparentemente comum, provavelmente teria se aposentado na hora. Esta noite a história seria feita. E não era o tipo de história com final feliz como a descoberta do rádio ou o primeiro homem na Lua. Era uma história ruim, como a da inquisição espanhola, do "aí vem o dirigível Hindenburg". Ruim para humanos e fadas. Ruim para todo mundo.

Holly foi diretamente para os lançadores. Sua boca normalmente faladora era um risco de determinação séria. Uma chance, só isso.

Ela não permitiria que nada rompesse sua concentração.

Havia a fila de sempre estendendo-se até o canto da Praça do Elevador, com criaturas esperando os vistos de feriados, mas Holly passou exibindo o distintivo.

Um gnomo truculento se recusou a ceder o lugar.

— Por que vocês da LEP ficam sempre por cima? O que há de especial com vocês?

Holly respirou fundo pelo nariz. Cortesia em todas as ocasiões.

— É trabalho policial, senhor. Agora, se me der licença...

O gnomo coçou o traseiro enorme.

— Ouvi dizer que vocês da LEP arranjam trabalhos policiais só para dar uma olhada na luz. É o que eu ouvi dizer.

Holly tentou um sorriso divertido. Na verdade, o que se formou nos lábios parecia uma careta de quem chupou limão.

— Quem disse isso é um idiota... senhor. O Recon só vai à superfície quando é absolutamente necessário.

O gnomo franziu a testa. Obviamente ele próprio tinha inventado o boato e suspeitava de que Holly podia ter acabado de chamá-lo de idiota. Quando conseguiu chegar a essa conclusão, ela já havia passado pelas portas duplas.

Potrus estava esperando por ela na Central de Operações.

Potrus era um centauro paranóico, convicto de que os serviços de informação humanos estavam monitorando sua rede de transporte e vigilância. Para impedi-los de ler sua mente, usava um chapéu de lata o tempo todo.

Ele ergueu os olhos rapidamente quando Holly passou pelas portas pneumáticas.

— Alguém viu você entrar aqui?

Holly pensou.

— O FBI, a CIA, o NSA, o DEA, o MI6. Ah, e TNP.

Potrus franziu atesta.

— TNP?

— Todo mundo no prédio — Disse Holly com um risinho.

Potrus se levantou de sua cadeira giratória e foi batendo os cascos até ela.
— Ah, você é muito engraçada, Short. É de matar de rir. Eu achava que o caso de Hamburgo podia ter tirado um pouco da sua petulância. Se eu fosse você, me concentraria no serviço atual.

Holly recuperou a compostura. Ele estava certo.

— Certo, Potrus. Dê as informações.

O centauro apontou para uma grande tela de plasma que transmitia ao vivo do Eurosat.

— Esse ponto vermelho é o troll. Está indo para Martina Franca, uma cidade fortificada perto de Brindisi. Pelo que sabemos, ele saiu pelo tubo E7. O tubo estava se resfriando depois de um lançamento à superfície, por isso o troll não virou churrasquinho.

Holly fez uma careta. Que beleza, pensou.

— Nós tivemos sorte porque nosso alvo encontrou um pouco de comida no caminho. Ele comeu duas vacas durante uma ou duas horas, de modo que isso nos dá um pouco de tempo.

— Duas vacas? Qual é o tamanho desse sujeito?

Potrus ajustou seu boné de lata.

— É um troll touro. Totalmente crescido. Cento e oitenta quilos, com presas que parecem de javali. Um javali selvagem.

Holly engoliu em seco. De repente o serviço no Recon parecia muito melhor do que no Resgate.

— Certo. O que você tem para mim?

Potrus foi até a mesa de equipamento. Escolheu o que parecia um relógio de pulso triangular.

— Localizador. Você o encontra, nós a encontramos. Material de rotina.

— Vídeo?

O centauro prendeu um pequeno cilindro na reentrância do capacete de Holly.

— Transmissão ao vivo. Bateria nuclear. O microfone é ativado por voz.

— Bom. Raiz disse que eu deveria levar uma arma neste caso. Só para garantir.

— Eu já tinha pensado nisso — Disse Potrus. Em seguida pegou uma pistola de platina numa pilha de armas. – Uma Neutrino 2000. Último modelo. Nem as gangues dos túneis têm dessas. Três ajustes, se você não se importa. Chamuscado, bem passado, e carvão. Alimentação nuclear também, por isso tome cuidado. Esse neném viverá mil anos mais do que você.

Holly prendeu a arma leve no coldre de ombro.

— Estou pronta... acho.

Potrus deu um risinho.

— Duvido. Ninguém está realmente pronto para um troll.

— Obrigado por estimular minha confiança.

— Confiança é ignorância — alertou o centauro. – Se você está se sentindo confiante, é porque há alguma coisa que não sabe.

Holly pensou em argumentar, mas não fez isso. Talvez porque tivesse uma leve suspeita de que Potrus estava certo.

Os elevadores de pressão eram alimentados por colunas gasosas que vinham do centro da Terra. Mas os técnicos da LEP, sob orientação de Potrus, tinham feito ovos de titânio que podiam navegar nas correntes de lava. Eles possuíam motores próprios, mas para uma subida expressa à superfície não havia nada como o empuxo de uma explosão de magma.

Potrus guiou-a, passando por uma longa fileira de lançadores, até o E7. O casulo estava apoiado nas travas, parecendo muito frágil para ser disparado em correntes de magma. O lado de baixo era preto e cheio de marcas de estilhaços.

O centauro deu um tapinha orgulhoso num pára-choque.

— Esse neném está em serviço há cinqüenta anos. É o modelo mais antigo dos lançadores.

Holly engoliu em seco. Os lançadores a deixavam nervosa o suficiente, mesmo sem andar numa antigüidade.

— Quando ele vai sair de linha?

Potrus coçou a barriga peluda.

— Com as verbas como estão, só quando acontecer uma fatalidade.

Holly abriu a porta pesada, e o lacre de borracha cedeu sibilando. O casulo não fora construído para dar conforto. Mal havia espaço para um assento com cintos de segurança em meio ao emaranhado de equipamento eletrônico.

— O que é isso? — perguntou Holly, apontando para uma mancha cinzenta no apoio de cabeça do assento.

Potrus se remexeu, desconfortável.

— Hmm... fluido cerebral, eu acho. Tivemos um vazamento de pressão na última missão. Mas já foi tapado. E o policial sobreviveu. Com alguns pontos a menos no Q.I., mas está vivo, e ainda pode tomar líquidos.

— Bom, então está ótimo — zombou Holly, abrindo caminho entre a massa de fios.

Potrus prendeu os cintos de segurança, verificando cuidadosamente.

— Tudo certo?

Holly assentiu.

O centauro bateu no microfone do capacete dela.

— Mantenha contato — Falou, fechando a porta.

Não pense nisso, disse Holly a si mesma. Não pense no fluxo de magma quente que vai engolfar esse veículo minúsculo. Não pense que está disparando para a superfície com uma força MACH 2 tentando vira-la pelo avesso. E certamente não pense no troll doido por sangue, pronto para estripá-la com as presas. Necas. Não pense em nada disso...

Tarde demais.

A voz de Potrus soou em seu fone de ouvido.

— T — menos vinte. Estamos num canal seguro, para o caso de o Povo da Lama ter começado
a fazer monitoramento subterrâneo. Nunca se sabe. Um petroleiro do Oriente Médio interceptou uma transmissão uma vez. Foi uma confusão só.

Holly ajustou o microfone do capacete.

— Concentração, Potrus. Minha vida está nas suas mãos aí fora.

— Ah... certo, desculpe. Nós vamos usar os trilhos para deixá-la no poço principal do E7, há um jorro vindo a qualquer minuto. Ele deve fazer você atravessar os primeiros cem klicks, depois você estará por conta própria.

Holly assentiu, envolvendo os dois joysticks com os dedos.

Houve um ruído soprado quando os motores do casulo se ligaram. O minúsculo veículo balançou nos suportes, sacudindo Holly como uma conta num chocalho. Ela mal podia ouvir Potrus falando em seu ouvido.

— Agora você está no tubo secundário. Prepare-se para voar, Short.

Holly pegou um cilindro de borracha no painel e pôs entre os dentes. Não adiantava ter rádio de comunicação se você engolisse a língua. Ela ativou as câmeras externas e pôs a tela de visão.

A entrada do E7 se aproximava lentamente. O ar tremeluzia no brilho da luz de pouso. Fagulhas de um branco incandescente caíam no túnel secundário. Holly não podia ouvir o rugido, mas podia imaginá-lo. Um vento rouco, como se fossem milhões de trolls uivando.

Seus dedos apertaram os joysticks. O casulo parou estremecendo na borda. O poço se estendia para baixo e para cima.

Enorme. Sem limites. Era como largar uma formiga numa calha de chuva.

— Certo — Disse Potrus. — Mantenha o café da manhã no estômago. As montanhas- Russas não são páreo para isso.

Holly assentiu. Não conseguia falar, com a borracha na boca. De qualquer modo o centauro podia vê-la pela câmera do casulo.

— Sayonara, querida — Disse Potrus, e apertou o botão.

A trava do casulo se inclinou, jogando Holly no abismo.

Seu estômago se apertou enquanto a força G assumia o controle, arrastando-a para o centro da Terra. O departamento de sismologia tinha um milhão de sondas lá embaixo, com uma taxa de sucesso de 99,8 por cento na previsão de explosões de magma. Mas sempre havia aquele 0,2 por cento.

A queda pareceu durar uma eternidade. E justo quando Holly tinha se entregado mentalmente ao depósito de lixo, sentiu. Aquela vibração inesquecível. A sensação de que, fora de sua esfera minúscula, todo o mundo estava sendo despedaçado.

Aí vem.

— Barbatanas — Disse ela, cuspindo a palavra em volta do cilindro.

Potrus pode ter respondido, ela não podia mais ouvi-lo.

Holly nem podia ouvir a si mesma, mas via pelo monitor as barbatanas de estabilização deslizando para fora.

A explosão pegou-a como se fosse um furacão, a princípio fazendo o casulo girar até que as barbatanas começaram a agir.

Rochas semiderretidas descascavam a parte de baixo do veículo, lançando-o contra as paredes do poço. Holly compensava com movimentos bruscos dos joysticks.

O calor era tremendo no espaço confinado, o bastante para fritar um humano. Mas os pulmões das fadas são feitos de material mais forte. A aceleração comprimia seu corpo com mãos invisíveis, esticando a carne sobre os braços e o rosto. Holly piscava para afastar o suor salgado dos olhos, e se concentrava no monitor. O jato de lava tinha engolfado totalmente o casulo e era bem grande. No mínimo força sete. Com uns bons 500 metros de circunferência. Magma com tiras alaranjadas redemoinhava e sibilava ao redor, procurando um ponto fraco no envoltório de metal.

O casulo rosnava e reclamava, os rebites com cinqüenta anos ameaçavam saltar. Holly balançou a cabeça. A primeira coisa que faria na volta era chutar o traseiro peludo de Potrus. Sentia-se como uma noz dentro da casca, entre os molares de um gnomo.

Condenada.

Uma placa da proa se curvou, projetada para dentro como se tivesse recebido o soco de um punho gigante. A luz de pressão piscou. Holly podia sentir a cabeça sendo espremida. Os olhos seriam os primeiros a ir — Estourando como frutas maduras.

Verificou os mostradores. Mais vinte segundos antes de sair do jorro de magma e fluir pelas termais. Aqueles vinte segundos pareciam uma eternidade. Holly lacrou o capacete para proteger os olhos, passando pelo último tiroteio de pedras.

E de repente tinha passado, navegava para cima nas espirais comparativamente suaves do ar quente. Holly acrescentou o empuxo dos motores à força de ascensão. Não havia tempo a perder flutuando no vento.

Acima dela, um círculo de luzes de néon marcava a zona de desembarque. Virou o casulo para a posição horizontal e apontou os nódulos de encaixe para as luzes. Era uma manobra delicada.

Muitos pilotos do Recon tinham chegado até aqui e errado a doca, perdendo um tempo valioso.

Não Holly. Para ela isso era natural. Havia tirado o primeiro lugar na academia.

Apertou uma última vez os propulsores e seguiu pelos cem metros finais. Usando os lemes sob os pés, passou com o casulo pelo círculo de luzes até chegar às travas na área de pouso. Os nódulos giraram, ajustando-se nos respectivos encaixes.

Perfeito.

Holly deu um tapa no peito, soltando o cinto de segurança.

Assim que a porta se abriu, o doce ar da superfície encheu a cabine. Não havia nada como aquela primeira respiração depois de uma viagem pelos lançadores. Ela respirou fundo, limpando dos pulmões o ar viciado do casulo. Por que o Povo tinha saído da superfície?

Algumas vezes ela desejava que seus ancestrais tivessem ficado e lutado com o Povo da Lama, mas eles eram muitos. Diferentemente das fadas, que só podiam produzir um filho a cada vinte anos, o Povo da Lama se reproduzia como roedores.

A quantidade era capaz de suplantar até mesmo a magia.

Apesar de estar desfrutando o ar da noite, Holly podia sentir o cheiro de poluição. O Povo da Lama destruía tudo com que fazia contato. Claro que eles não viviam mais na lama. Não neste país, pelo menos. Ah, não. Grandes residências elegantes com cômodos para tudo — cômodos para dormir, cômodos para comer, até um cômodo para fazer as necessidades! Dentro de casa!

Holly estremeceu. Imagine fazer as necessidades dentro de casa. Coisa nojenta! A única coisa boa em fazer as necessidades eram os minerais que voltavam à terra, mas o Povo da Lama tinha conseguido estragar até isso, tratando a... coisa... com garrafas de produtos químicos azuis. Se alguém tivesse lhe dito há cem anos que os humanos estariam tirando as substâncias férteis dos fertilizantes, ela mandaria que eles fizessem uns furos na cabeça, para entrar ar.

Holly pegou um par de asas no suporte. Eram ovais duplas, com um motor desajeitado. Gemeu. Libélulas. Ela odiava aquele modelo. Motor a gasolina, se você não se importa. E mais pesado do que um porco mergulhado na lama. O Beija- Flor Z7 é que era transporte. Silencioso como um sussurro, com bateria solar refletida por satélite, capaz de levar você em duas voltas ao redor do mundo. Mas de novo eram os cortes no orçamento.

No pulso, o localizador começou a emitir bips. Estava na área de alcance. Holly saiu do casulo para a plataforma de desembarque.

Estava dentro de um monte de terra camuflado, comumente conhecido como fortaleza das fadas. De fato, o Povo costumava viver neles até que precisou ir mais para o fundo. Não havia muita tecnologia. Só alguns monitores externos e um equipamento de auto destruição para o caso de a área de desembarque ser descoberta.

Não havia nada nas telas. Área livre. As portas pneumáticas estavam ligeiramente tortas onde o troll havia passado com violência, mas afora isso tudo parecia funcionar direito. Holly prendeu as asas, saindo no mundo externo.

O céu noturno da Itália estava limpo e nítido, com cheiro de oliveiras e vinhedos. Grilos cricrilavam no capim e mariposas adejavam à luz das estrelas. Holly não conseguiu reprimir um sorriso. Valia o risco, totalmente.

Por falar em risco... Olhou o localizador. Agora o bip parecia muito mais forte. O troll estava quase nas muralhas da cidade. Ela poderia apreciar a natureza depois de terminar a missão.
Agora era hora de agir.

Ligou o motor das asas, puxando a corda de partida por cima do ombro. Nada. Fumegou em silêncio. Cada criança mimada em Refúgio tinha um Beija- Flor para as férias na selva, e ali estava a agente da LEP com asas que eram lixo mesmo quando novas. Puxou a corda de novo e de novo. No terceiro puxão o motor pegou, soltando um jorro de fumaça e gases na noite.

— Já era hora — grunhiu ela, abrindo o afogador ao máximo.

As asas bateram até estabelecer um ritmo constante e, não sem algum esforço, levantaram a capitã Holly Short para o céu noturno.

Mesmo sem o localizador seria fácil seguir o troll. Ele havia deixado uma trilha de destruição maior do que um escavador de túneis. Holly voava baixo, desviando-se entre a névoa e as árvores, seguindo o caminho do troll. A criatura enlouquecida tinha aberto uma faixa pelo meio de um vinhedo, transformado um muro de pedra em entulho e deixado um cão de guarda ganindo debaixo de uma cerca viva. Então ela voou sobre as vacas. Não foi uma visão bonita. Sem entrar em detalhes, digamos apenas que não restou muito mais do que chifres e cascos.

Agora o bip vermelho soava mais alto. Mais alto significava mais perto. Ela podia ver a cidade abaixo, aninhada no topo de um morro pequeno, rodeada por uma muralha da Idade Média. Ainda havia luzes acesas na maioria das janelas. Hora de um pouco de magia.

Boa parte da magia atribuída ao povo não passava de superstição.

Mas eles têm alguns poderes. Entre estes estão a cura, o mesmer e o escudo. Na verdade, escudo é um nome equivocado. O que as fadas fazem na verdade é vibrar numa freqüência tão alta que jamais ficam num lugar por tempo suficiente para serem vistas. Os seres humanos podem perceber um leve tremor no ar, se estiverem prestando muita atenção — coisa que raramente fazem. E até mesmo esse tremor costuma ser atribuído à evaporação. É típico do Povo da Lama inventar uma explicação complicada para um fenômeno simples.

Holly acionou seu escudo. Isso demorou um pouco mais do que o normal. Ela podia sentir a tensão nas gotas de suor que brotavam na testa. Eu realmente devia completar o Ritual, pensou.

Quanto antes, melhor.

Uma agitação embaixo interrompeu seus pensamentos. Alguma coisa que não combinava com os ruídos da noite. Holly ajustou a velocidade das asas e desceu para olhar de perto. Só olhar, lembrou a si mesma, esse era o seu serviço. Um oficial de Recon era mandado pelos tubos de lava para encontrar o alvo, enquanto os rapazes do Resgate pegavam um belo lançador acolchoado.

O troll estava diretamente abaixo dela, batendo na muralha externa da cidade, que estava se partindo em nacos sob seus dedos poderosos. Holly ficou boquiaberta. O cara era um monstro!
Grande como um elefante, e dez vezes mais maligno. Mas essa fera específica era pior do que maligna: estava apavorada.

— Controle — Disse Holly ao microfone. — Fugitivo localizado. Situação crítica aqui em cima.
O próprio Raiz estava do outro lado da linha.

— Seja mais clara, capitã.

Holly apontou sua câmera de vídeo para o troll.

— O fugitivo vai passar pela muralha da cidade. Contato iminente. A que distância está o Resgate?

— O tempo estimado é de no mínimo cinco minutos. Ainda estamos no lançador.

Holly mordeu o lábio. Raiz estava no lançador?

— Isso é muito, comandante. Toda a cidade vai explodir dentro de dez segundos... Eu vou
intervir.

— Negativo, Holly... Capitã Short. Você não tem convite. Você conhece a lei. Mantenha a posição.

— Mas, comandante...

Raiz a interrompeu.

— Não! Sem mas, capitã. Fique aí. É uma ordem!

O coração de Holly parecia bater no corpo todo. A fumaça de gasolina atrapalhava seu cérebro. O que deveria fazer? Qual seria a decisão certa? Vidas ou ordens?

Então o troll atravessou a parede e a voz de uma criança partiu a noite.

— Aiuto! — gritou a criança.

Socorro. Um convite. Na última hora.
— Sinto muito, comandante. O troll está louco e há crianças lá.

Ela podia imaginar o rosto de Raiz, roxo de fúria enquanto cuspia no microfone.

— Vou tirar as suas divisas, Short! Você vai passar os próximos cem anos trabalhando nos esgotos!

Mas não adiantou. Holly tinha desligado o microfone e mergulhou atrás do troll.

Esticando o corpo, a capitã Short passou pelo buraco. Parecia estar num restaurante. Um restaurante cheio. O troll tinha ficado temporariamente cego pela luz elétrica e estava se sacudindo no centro do salão.

Os fregueses estavam perplexos. Até mesmo o choro da criança tinha desaparecido. Estavam todos sentados de boca aberta, com chapéus de festa comicamente empoleirados nas cabeças.

Garçons permaneciam imobilizados, com gigantescas bandejas de massa tremendo sobre os dedos abertos. Gorduchas crianças italianas cobriam os olhos com dedos gorduchos. Era sempre assim no início: o silêncio chocado. Depois vinham os gritos.

Uma garrafa de vinho se espatifou no chão. Quebrou o feitiço. O pandemônio começou. Holly se encolheu. Trolls odiavam barulho tanto quanto a luz.

O troll levantou os ombros enormes e peludos, suas garras retráteis deslizaram para fora com um xiiiiic agourento. Clássico comportamento de predador. A fera ia atacar.

Holly sacou sua arma e pôs no segundo ajuste. Não podia matar o troll sob nenhuma circunstância. Não para salvar humanos. Mas certamente podia nocauteá-lo até a chegada do Resgate.

Mirando o ponto fraco na base do crânio, deixou o troll receber um longo jato do raio iônico concentrado. A fera cambaleou, deu alguns passos e ficou muito furiosa.

Tudo bem, pensou Holly, eu estou escudada. Invisível. Para qualquer espectador pareceria que o raio azul pulsante tinha saído do nada.

O troll girou para ela, com os dreadlocks enlameados balançando como se fossem velas.

Nada de pânico. Ele não pode me ver.

O troll pegou uma mesa.

Invisível. Estou totalmente invisível.

Ele esticou o braço peludo para trás e mandou ver.

Só um leve tremeluzir no ar.

A mesa veio direto para a sua cabeça.

Holly se moveu. Um segundo tarde demais. A mesa bateu de raspão na mochila das asas, arrancando o tanque de combustível.

Ela girou no ar, deixando um rastro de líquido inflamável.

Os restaurantes italianos — você sabe, claro — são cheios de velas. O tanque passou girando por um candelabro trabalhado. Explodiu em chamas, como um fogo de artifício mortal. A maior parte da gasolina caiu sobre o troll. E Holly também.

O troll podia vê-la. Sem dúvida. Franziu os olhos para ela através da odiada luz, com a sobrancelha numa expressão de dor e medo. O escudo dela estava desligado. Sua magia tinha sumido.

Holly se retorceu no aperto do troll, mas era inútil. Os dedos da criatura eram do tamanho de bananas, mas não tão frágeis, claro. Estavam espremendo o ar para fora de suas costelas com uma facilidade selvagem. Garras que pareciam agulhas cortavam o material endurecido de seu uniforme. A qualquer segundo elas atravessariam, e isso seria o fim.

Holly não conseguia pensar. O restaurante era um carrossel de caos. O troll estava abrindo as presas; molares sujos tentavam agarrar seu capacete. Holly podia sentir o hálito fétido através dos filtros. Também sentia o cheiro de pêlo queimado, enquanto o fogo se espalhava pelas costas da criatura.

A língua verde da fera passou áspera pelo seu visor, enchendo de gosma a parte de baixo. O visor! Era isso. Sua única chance.

Holly levou a mão livre até os controles do capacete. As luzes de túnel. Faróis altos.

Apertou o botão e 800 watts de luz não filtrada saíram dos dois faróis acima de seus olhos.

O troll recuou, com um grito penetrante explodindo entre fileiras de dentes. Dezenas de copos e garrafas se despedaçaram sem sair do lugar. Era demais para a pobre fera. Tonta, incendiada e agora cega. O choque e a dor atravessaram seu cérebro minúsculo, ordenando-o a se apagar. O troll cedeu, ajoelhando-se numa rigidez quase cômica. Holly rolou para evitar uma das presas, que parecia uma foice.

Houve um silêncio completo, a não ser pelos vidros tilintando, o pêlo estalando e o ar saindo subitamente de muitos pulmões. Holly se levantou trêmula. Havia um monte de olhos acompanhando-a — olhos humanos. Ela estava 100 por cento visível. E aqueles humanos não ficariam parados muito tempo.

Aquela raça nunca ficava. A contenção era essencial.

Levantou as mãos vazias. Um gesto de paz.

— Scusatemitutti — Falou, a linguagem fluindo facilmente de sua boca.

Os italianos, sempre gentis, murmuraram que não era nada.

Holly enfiou lentamente a mão no bolso e pegou uma pequena esfera. Pôs no meio do chão.

— Guardate — Falou. — Olhem.

Os fregueses do restaurante obedeceram, inclinando-se para ver a pequena bola prateada. O objeto estava tiquetaqueando, cada vez mais rápido, quase como uma contagem regressiva.
Holly deu as costas para a esfera. Três, dois, um... Bum! Um clarão. Inconsciência em massa.

Nada fatal, mas todos teriam dor de cabeça dentro de uns quarenta minutos.

Holly suspirou. Em segurança. Por enquanto. Correu à porta e fechou a tranca. Ninguém iria entrar nem sair. A não ser pelo grande buraco na muralha. Em seguida borrifou o troll com o extintor de incêndio do restaurante, esperando que o pó gelado não revivesse a fera adormecida.
Holly examinou a bagunça que tinha criado. Não havia dúvida, era uma confusão só. Pior do que em Hamburgo. Raiz tiraria sua pele. Ela preferiria enfrentar o troll em qualquer dia. Certamente era o fim de sua carreira, mas de repente isso não pareceu tão importante, porque suas costelas estavam doendo e uma dor de cabeça alucinante vinha chegando. Talvez um descanso, só por um segundo, para que ela se recuperasse antes da chegada do Resgate.

Holly nem se incomodou em procurar uma cadeira. Simplesmente deixou que as pernas se dobrassem debaixo do corpo, caindo no chão de linóleo xadrez.

Acordar diante das feições enormes do comandante Raiz é o pior dos pesadelos. Os olhos de Holly se abriram, e por um segundo ela podia jurar que havia preocupação naquele rosto. Mas logo desapareceu, substituída pela costumeira fúria capaz de inchar as velas.

— Capitã Short! — Rugiu ele, sem se importar com a dor de cabeça que ela sentia. — O que aconteceu aqui, em nome da sanidade?

Holly se levantou, trêmula.

— Eu... isto é... houve... — As frases simplesmente não vinham.

— Você desobedeceu a uma ordem direta. Eu lhe disse para esperar! Você sabe que é proibido entrar numa construção humana sem convite.

Holly sacudiu a cabeça para afastar as sombras da visão.

— Eu fui convidada. Uma criança gritou pedindo socorro.

— Você está encrencada, Short.

— Há um precedente, senhor. Cabo Rowe versus o Estado. O júri determinou que o grito de socorro da mulher presa podia ser aceito como convite para entrar na construção. De qualquer modo, vocês todos estão aqui agora. Isso significa que também aceitaram o convite.

— Hmmm — Disse Raiz, em dúvida. — Acho que você teve sorte. As coisas podiam ter sido piores.

Holly olhou em volta. As coisas não podiam ter sido muito piores. O estabelecimento estava despedaçado e havia quarenta humanos ali. Os rapazes da técnica estavam colocando eletrodos de limpeza mental nas têmporas dos fregueses inconscientes.

— Nós conseguimos isolar a área, apesar de meia cidade estar batendo na porta.

— E o buraco?

Raiz deu um riso de desprezo.

— Veja você mesma.

Holly olhou. O pessoal do Resgate tinha ligado um projetor de holograma nas tomadas e estava projetando uma parede inteira no lugar do buraco. Os hologramas eram bons para remendos rápidos, mas não sob exame atento. Qualquer um que observasse a parede de perto teria percebido que o retalho ligeiramente transparente era exatamente igual à parte da parede ao lado. Nesse caso havia dois trechos de rachaduras exatamente iguais e duas reproduções do mesmo Rembrandt. Mas as pessoas dentro da pizzaria não estavam em condições de examinar paredes, e quando acordassem a parede teria sido consertada pela Divisão Telecinética e toda a experiência paranormal teria sido retirada da memória delas.

Um policial do Resgate veio disparado do banheiro.

— Comandante!

— Sim, sargento?

— Há um humano aqui, senhor. O atordoador não o alcançou. Ele está vindo. Agora mesmo.

— Escudos! — gritou Raiz. — Todo mundo!

Holly tentou. Tentou mesmo. Mas não funcionava. Sua magia tinha desaparecido.

Um menininho saiu do banheiro, com os olhos pesados de sono. Apontou um dedo gorducho diretamente para Holly.

— Ciao, folletta — Disse ele, antes de subir no colo do pai e continuar o cochilo.

Raiz tremeluziu, voltando ao espectro visível. Estava mais irado do que antes, se é que isso era possível.

— O que aconteceu com seu escudo, Short?

— Estresse, comandante — Disse ela, desanimada.

Raiz não quis aceitar.

— Você mentiu para mim, capitã. Você não está quente, está?

Holly balançou a cabeça, em silêncio.

— Quanto tempo faz desde que completou o Ritual?

Holly mordeu o lábio.

— Eu acho que... uns... quatro anos, senhor.

Raiz quase estourou uma veia.

— Quatro... quatro anos? É um espanto que você tenha durado tanto tempo! Faça isso agora. Esta noite! Você não descerá sob a superfície sem os seus poderes. Você é um perigo para si mesma e para os seus colegas policiais!

— Sim, senhor.

— Pegue um Beija- Flor do Resgate e parta para o velho país. Há lua cheia esta noite.

— Sim, senhor.

— E não pense que eu me esqueci desta bagunça. Vamos falar disso quando você voltar.

— Sim, senhor. Muito bem, senhor.

Holly se virou para sair, mas Raiz pigarreou pedindo atenção.

— Ah, capitã Short...

— Sim, senhor?

O rosto de Raiz tinha perdido o tom púrpura e ele quase pareceu embaraçado.

— Bom trabalho no salvamento de vidas. Poderia ter sido pior, muito pior.

Holly ficou felicíssima por trás do visor. Talvez não fosse chutada do Recon, afinal de contas.

— Obrigada, senhor.

Raiz grunhiu, com a pele voltando ao tom normal, vermelho.

— Agora saia daqui, e não volte enquanto não estiver cheia de magia até a ponta das orelhas!

Holly suspirou. Isso é que é gratidão.

— Sim, senhor. Estou indo.

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